Conhecimento como matéria-prima: por que educação e ciência se tornam a base da economia do futuro
Por que conhecimento e capital humano ganham papel central no crescimento econômico? Como os países do BRICS constroem modelos concorrentes de economia do conhecimento? Leia no material da TV BRICS
Recorde da Índia abre caminho para uma nova realidade
O Ministério do Comércio e Indústria da Índia divulgou, em 28 de abril de 2026, dados segundo os quais as exportações totais de bens e serviços do país chegaram a US$ 860,09 bilhões (cerca de R$ 4 trilhões) em 2025, com crescimento anual de 4,22%. Nesse contexto, o governo estabeleceu uma meta: alcançar US$ 2 trilhões (aproximadamente R$ 10 trilhões) em exportações de bens e serviços até 2030.
Entre os setores que impulsionaram esse avanço estão engenharia mecânica, eletrônicos, indústria farmacêutica e química. Do total, US$ 441,78 bilhões (mais de R$ 2 trilhões) vieram da exportação de bens, enquanto US$ 418,31 bilhões (aproximadamente R$ 2 trilhões) corresponderam à exportação de serviços. Nesse último grupo, predominam os serviços de TI e empresariais, que representam 55% do segmento e estão diretamente ligados a competências tecnológicas e de engenharia.
A análise comercial de fevereiro do Instituto Nacional para a Transformação da Índia (NITI Aayog, na sigla em inglês) registra a transição do país de operações de montagem para a produção de componentes e bens com maior complexidade tecnológica.
A experiência indiana reflete uma mudança estrutural mais ampla na economia mundial. Segundo relatório da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO), o mundo entra em um ciclo econômico no qual o principal recurso passa a ser a capacidade de monetizar conhecimento por meio de tecnologias, exportações e indústria.
Nesse cenário, educação e ciência já não atuam apenas como instrumentos de formação profissional, mas também como mecanismos de criação tecnológica. A maior parte do valor agregado se desloca da extração de matérias-primas e da montagem em massa para as etapas de desenvolvimento tecnológico, projeto e gestão de sistemas inteligentes.
Os países do BRICS formam o maior concentrador de capital humano do mundo, reunindo cerca de 40% da população do planeta. Ao mesmo tempo, dentro do grupo surgem diferentes caminhos para transformar conhecimento e potencial científico em crescimento econômico.
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Das matérias-primas ao conhecimento: mudança estrutural e seus motores
De acordo com a Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado da China, em 2025, os investimentos das empresas estatais em pesquisa científica e implementação de inovações no âmbito de atividades de P&D (atividades realizadas com o objetivo de desenvolver novos produtos, processos ou serviços, bem como aprimorar os já existentes) chegaram a 1,1 trilhão de yuans (cerca de R$ 816 bilhões), informou a Xinhua News Agency, parceira da TV BRICS. Esse montante correspondeu a 2,86% da receita reinvestida pelas empresas estatais. O dado registra uma mudança estrutural importante: a economia avança gradualmente para modelos baseados em tecnologia, pesquisa e propriedade intelectual.
Segundo Valeri Abramov, especialista em economia mundial e processos de integração dos países do BRICS, da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e da União Econômica Eurasiática (UEE), o principal motor dessa transformação é a mudança dos paradigmas tecnológicos e a adoção das tecnologias NBICs.
"O conjunto de tecnologias conhecido como NBICs engloba nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e ciências cognitivas. São elas que permitem acelerar a criação de novas tecnologias, ajudam a formar novos mercados, inclusive nos países do BRICS, e contribuem para melhorar a qualidade e o nível de vida da população"![]()
Valeri Abramov Especialista em economia mundial e processos de integração dos países do BRICS, da OCX e da UEE
Na economia do conhecimento, a patente pode representar um ativo mais valioso do que a própria fábrica. Grande parte do lucro nasce do desenvolvimento tecnológico, enquanto a produção física perde centralidade. Nesse contexto, a vantagem competitiva das economias depende cada vez mais da capacidade de monetizar propriedade intelectual. Segundo a WIPO, em 2024, a China apresentou 1,79 milhão de pedidos de patente e manteve a liderança mundial com ampla vantagem sobre outras jurisdições.
No cenário interno, a Índia liderou a corrida da inovação: segundo o Ministério do Comércio e Indústria, no ano fiscal de 2025-2026, o número de pedidos de patente chegou ao recorde de 143,7 mil, um aumento de 30,2% em relação ao período anterior, informou a ANI, parceira da TV BRICS.
A Rússia, de acordo com os resultados oficiais da Rospatent (agência do governo russo de registro de propriedade intelectual) referentes a 2025, apresentou 48,3 mil pedidos de invenções e modelos de utilidade, enquanto o número de patentes inseridas na atividade econômica cresceu 25% e chegou a 6 mil.
O Brasil, segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, alcançou indicadores recordes em 2025: foram 29,5 mil pedidos de patente, alta de 6,7% e melhor resultado desde 2016. Os pedidos de desenhos industriais cresceram 35,7%.
Assim, o papel do componente intelectual na formação de valor agregado continua crescendo. A atividade patentária se torna um dos indicadores econômicos relevantes, enquanto a automação aumenta a importância das competências de engenharia, análise e tecnologia digital. Paralelamente, a transformação das cadeias globais de suprimentos estimula os Estados a localizar tecnologias estratégicas, convertendo conhecimento em elemento de soberania tecnológica. Para os países do BRICS, isso significa que a velocidade de adaptação dos sistemas educacionais deixa de ser uma questão social e se transforma em fator macroeconômico, com impacto direto sobre o ritmo de crescimento.
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Por que investimentos em educação não geram crescimento automático
O volume de investimentos em ciência e educação dentro do BRICS varia de 2,6% a 0,7% do PIB. Isso cria zonas com níveis muito diferentes de preparação para a inovação. O principal obstáculo está na distância entre o potencial educacional e a demanda tecnológica: com uma estrutura industrial baseada em matérias-primas, o aumento no número de graduados em STEM, ou seja, profissionais formados em ciências naturais, tecnologia e engenharia, não gera crescimento equivalente das exportações de maior valor agregado. Sem demanda tecnológica, a educação não se transforma em mecanismo de monetização do conhecimento e permanece apenas como potencial de mão de obra qualificada.
Valeri Abramov identifica três estágios nesse processo. O primeiro é o estágio de recursos, no qual o conhecimento atende aos setores ligados a matérias-primas. O segundo é o estágio de uso eficiente dos recursos, que exige ampla formação profissional técnica e superior.
"O terceiro estágio é a economia inovadora, na qual o principal papel no desenvolvimento pertence ao conhecimento e ao próprio capital humano, enquanto a maior parte da renda do comércio internacional desses países vem da venda de objetos de propriedade industrial e intelectual", observa o especialista.
A principal condição para a transição ao estágio seguinte é a ligação direta entre educação e demandas do setor produtivo.
"Universidades, institutos técnicos e empresas devem trabalhar em conjunto para garantir aos graduados habilidades práticas compatíveis com as exigências da economia moderna", destacou Raymond Matlala, fundador e presidente da Associação Sul-Africana da Juventude do BRICS, especialista em negócios, educação e Sul Global.
A inteligência artificial acelera a polarização no mercado de trabalho: cresce a valorização de habilidades ligadas à criação de projetos e à análise de dados, enquanto diminui a importância do trabalho padronizado. A Organização Internacional do Trabalho registra um paradoxo estrutural: nos países do BRICS, a IA começa a substituir tarefas de escritório antes que esses empregos se tornem uma base sólida para a formação da classe média.
"Na Índia e nas Filipinas, funcionários de centros de atendimento que antes trabalhavam com chamadas telefônicas hoje gerenciam chatbots e serviços inteligentes. Se os sistemas educacionais não se adaptarem, a distância entre as habilidades disponíveis e as demandas do mercado só tende a crescer", afirmou Abed Amiri, representante do BRICS Hub e especialista em cooperação econômica e tecnológica no âmbito do BRICS, transformação digital e uso da IA nos negócios.
Ao mesmo tempo, segundo Amiri, profissões baseadas em tarefas repetitivas, como entrada de dados e contabilidade básica, perdem relevância. Cresce a demanda por pensamento analítico, criatividade e tomada de decisão.
"Especialistas em inteligência artificial e desenvolvedores de software passam a ser profissionais altamente remunerados porque não apenas utilizam tecnologias, mas também as criam"![]()
Abed Amiri Especialista em cooperação econômica e tecnológica no âmbito do BRICS, transformação digital e uso da IA nos negócios
A educação se transforma em força produtiva apenas quando existe demanda tecnológica. Sem essa demanda, mesmo um aumento expressivo no número de graduados não leva, por si só, ao crescimento das exportações de produtos e serviços de maior valor agregado. Nesse caso, o capital humano formado no país pode acabar beneficiando economias que já possuem setores tecnológicos mais desenvolvidos. O potencial educacional, por si só, é uma parte necessária, mas insuficiente, do crescimento econômico.
Modelos dentro do BRICS
A China demonstra um modelo integrado, no qual ciência, produção e exportação formam um sistema único, com alta participação de exportações de alta tecnologia e infraestrutura desenvolvida de P&D. O país construiu um sistema no qual o conhecimento é monetizado por meio da indústria, de patentes e da exportação de produtos tecnológicos.
Grande parte das pesquisas se concentra no setor empresarial. O êxito tem base institucional: segundo a Xinhua News Agency, parceira da TV BRICS, o país possui 474 plataformas de P&D em nível estatal e 1,44 milhão de pessoas envolvidas em pesquisa e desenvolvimento. A China adota ativamente mecanismos de licenciamento compulsório e cria empresas OSAT (Outsourced Semiconductor Assembly and Test, sigla em inglês para terceirização de montagem, encapsulamento e teste de semicondutores). Isso fortalece a posição da China como país que mais desenvolve, registra e exporta tecnologias dentro do BRICS.
Segundo Valeri Abramov, nos últimos 20 anos, os gastos da China com P&D mais que dobraram e chegaram a cerca de 2,6% do PIB.
A Índia se apoia na formação em massa de engenheiros e na exportação de serviços com alta participação de valor agregado intelectual. Segundo o Ministério do Comércio e Indústria, a exportação de serviços de TI teve papel decisivo no recorde das exportações de serviços no ano fiscal de 2025-2026. Hubs tecnológicos e programas governamentais de incentivo à produção de eletrônicos atuam como catalisadores adicionais.
A Rússia, o Brasil, a África do Sul e o Egito compartilham um mesmo desafio: a existência de escolas científicas fortes não se converte em exportação tecnológica em larga escala. No entanto, os obstáculos variam de país para país.
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A Rússia apresenta uma lacuna institucional: a alta densidade de pesquisas e os 48,3 mil pedidos de patente convivem com uma baixa participação de tecnologias licenciadas. O problema não está na formação de profissionais, mas na falta de pontes entre ciência e produção.
No caso do Brasil, o desafio está na estrutura das exportações. O país vende principalmente petróleo bruto, soja, minério de ferro, carne bovina congelada e café, enquanto ainda compra mais produtos de alta tecnologia do que exporta.
A África do Sul enfrenta a redução da base de recursos em ciência e tecnologia. Segundo o relatório nacional South African Science, Technology and Innovation Indicators de 2025, os gastos com P&D caíram para 0,61% do PIB, enquanto a contribuição das empresas para a ciência diminui.
Raymond Matlala, fundador e presidente da Associação Sul-Africana da Juventude do BRICS, resume as condições necessárias para reter talentos na África.
"A África, incluindo a África do Sul, deve criar ecossistemas que tornem atraente para engenheiros, pesquisadores e especialistas em TI construir seu futuro localmente. Isso inclui salários competitivos, investimentos em pesquisa e inovação, melhores condições de trabalho, acesso a tecnologias modernas e trajetórias claras de crescimento profissional", afirmou.
O Egito implementa uma estratégia nacional de cibersegurança até 2027, mas ainda enfrenta uma lacuna de infraestrutura, ligada à falta de base para escalar inovações.
Mesmo nos países com obstáculos mais acentuados, surgem canais alternativos de monetização do conhecimento. Como destaca Abed Amiri, "em muitos países africanos, startups de fintech usam inteligência artificial para oferecer serviços financeiros a pessoas que antes não tinham acesso ao sistema bancário". Assim, ecossistemas digitais começam a monetizar o capital humano em áreas nas quais a indústria tradicional ainda não o faz.
Os Emirados Árabes Unidos e a Indonésia adotam um modelo de salto baseado em investimentos e infraestrutura. Esses países ainda não possuem uma base científica tão robusta, mas investem para desenvolvê-la. Os EAU aplicam recursos em criptografia e infraestrutura blockchain. Em 2025, por exemplo, a Universidade Khalifa obteve 60 patentes, elevando o indicador em cerca de 173% em dois anos.
A Indonésia desenvolve um sistema de identidade digital e infraestrutura de telecomunicações. Essas direções foram estabelecidas na estratégia Indonésia Digital para 2021-2024 e seguem entre as prioridades do novo período de planejamento, previsto até 2029.
A Etiópia adota um modelo de início estratégico a partir da base mais baixa entre os países do BRICS, apoiando-se na estratégia de longo prazo Etiópia Digital, que entrou em uma nova etapa da transformação digital do país com horizonte até 2030.
Fragmentação das cadeias e nova soberania
A diferença entre os países do BRICS se consolida com a tendência global de fragmentação das cadeias de suprimentos. A capacidade de desenvolver e produzir tecnologias de forma autônoma se torna uma condição de soberania tão importante quanto, por exemplo, o controle sobre a energia. Um exemplo significativo vem da Índia: em 2026, teve início a construção da primeira empresa OSAT de encapsulamento 3D de chips em Bhubaneswar, com investimento total de 20 bilhões de rupias (mais de R$ 1 bilhão).
Paralelamente, o Instituto Indiano de Tecnologia em Bhubaneswar cria um laboratório de semicondutores para a formação direcionada de engenheiros.
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Previsão: nova hierarquia do Sul Global
Segundo especialistas, no curto prazo, a competição por engenheiros e pesquisadores dentro do BRICS deve se intensificar. Os Estados já começam a adotar mecanismos de retenção de talentos por meio de incentivos fiscais para empresas envolvidas em pesquisa fundamental e desenvolvimento científico, programas de bolsas para startups e hubs tecnológicos ligados a universidades. No médio prazo, a atividade patentária, a participação das exportações de alta tecnologia e a capacidade de monetizar conhecimento por meio de tecnologias, exportações e controle das cadeias de valor agregado devem ter peso cada vez maior na distribuição de forças dentro do BRICS.
As economias que criam tecnologias concentram a maior parte do valor agregado. Países que mantêm dependência de matérias-primas ou atuam como plataformas produtivas recebem uma parcela muito menor da renda global e se tornam dependentes de centros tecnológicos externos.
Ao mesmo tempo, dentro do BRICS, permanecem diferentes visões sobre a própria lógica do desenvolvimento. Raymond Matlala propõe uma abordagem alternativa, baseada na cooperação, não na rivalidade.
"Não considero que exista necessariamente uma competição entre os Estados-membros por engenheiros, pesquisadores e especialistas em TI em sentido negativo. Em vez disso, os países do BRICS devem dar mais atenção à cooperação, à parceria e a programas estruturados de transferência de habilidades. O foco principal deve estar no desenvolvimento coletivo e no crescimento conjunto, não na disputa por talentos"![]()
Raymond Matlala Especialista em negócios, educação e Sul Global
No entanto, segundo Abed Amiri, mesmo com a cooperação mais estreita, a tendência global não pode ser ignorada. A distância entre criadores e consumidores de tecnologias tende a aumentar.
"No futuro, a competição não girará em torno dos recursos naturais, mas da capacidade de criar e comercializar conhecimento. Investimentos em educação, ciência e inovação se tornam condição-chave para reduzir essa distância", resume Amiri.
O papel das matérias-primas e da produção diminui porque, na economia moderna, a maior parte do valor nasce nas etapas de desenvolvimento tecnológico, projeto e gestão de sistemas inteligentes, e não na extração. Investimentos em pesquisa e desenvolvimento e exportação de serviços tecnológicos se tornam novos indicadores de força econômica.
Conhecimento, trabalho e capital compõem a base da produção moderna. No entanto, o fator decisivo não está apenas no nível de educação, mas na capacidade do Estado de integrar o capital humano às cadeias produtivas e exportadoras. Segundo especialistas, no próximo ciclo econômico, terão vantagem estrutural os países capazes de construir um sistema contínuo, da sala de aula universitária e do laboratório científico à implementação industrial e ao mercado global. Nesse cenário, educação e ciência já não servem apenas de base para a economia do futuro: elas passam a orientar seu funcionamento.
O artigo foi elaborado por Vakhit Niiazov.
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