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BRICS
11.11.25 21:00
Economia

Energia do amanhã: reorganização das relações globais e aposta no Sul Global

Para onde se encaminha o mercado energético mundial e por que os fluxos de petróleo e gás estão se direcionando ao Sul Global — confira mais no material da TV BRICS

O mercado global de energia está prestes a passar por grandes transformações. Especialistas apontam para uma transição rumo ao chamado "sexto paradigma tecnológico" e à era 4.0, marcada pela Internet das Coisas, inteligência artificial e redes globais de informação, isto é, inovações que demandarão volumes massivos de energia. O acesso a esses recursos pode ser decisivo para quem vencerá a corrida tecnológica.

Semana Russa da Energia

A "Semana Russa da Energia" é uma das maiores plataformas internacionais de debate do setor. Neste ano, o fórum reuniu 5 mil representantes de 84 países e territórios para discutir as tendências do complexo de combustível e energia.

O tema central foi o futuro energético. Segundo especialistas, o avanço da robótica, das nanotecnologias, da biotecnologia e da inteligência artificial exige uma nova estrutura de consumo e grandes mudanças no uso dos recursos energéticos.

"O consumo de energia dos data centers deve atingir, até 2026, um nível comparável ao de toda a economia russa em 2024. Até 2050, eles responderão por cerca de 9% a 10% da demanda mundial de eletricidade", afirmou o professor Valeri Abramov, doutor em Economia, pesquisador sênior do Instituto de Relações Econômicas Internacionais da Universidade Financeira do Governo da Rússia e acadêmico da Academia Russa de Ciências Naturais, em um comentário à TV BRICS.

Com o avanço da inteligência artificial e o aumento do volume de dados processados, o consumo global de energia pode crescer entre 1,5 e 2 vezes, segundo estimativas. No entanto, a doutora em Ciências Técnicas e professora da Universidade de Mineração de São Petersburgo, Angelika Eremeeva, declarou à TV BRICS que "há quem acredite que novas tecnologias poderão ajudar a economizar eletricidade".

Enquanto essas previsões ainda são debatidas, a demanda energética global já está em alta. O vice-primeiro-ministro russo Aleksandr Novak observou, durante o fórum, que o consumo de petróleo continua crescendo e ainda não atingiu o pico previsto por alguns analistas.

Outro ponto destacado foi a reorganização das relações energéticas internacionais. Nos últimos anos, o fornecimento de recursos tem se deslocado em direção aos países do Sul Global, especialmente na Ásia-Pacífico, África e América Latina, que emergem como novos polos de crescimento econômico e necessitam de mais energia.

A ministra dos Hidrocarbonetos da Venezuela, Delcy Eloína Rodríguez Gómez, afirmou que, até 2040, o aumento de 40% na demanda por gás será impulsionado principalmente pelos países asiáticos, como a China e a Índia.

"Prevemos um crescimento de 132% na demanda na região do Caribe. Em nosso hemisfério, esse é um território de oportunidades excepcionais para investimentos", destacou.

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Energia dos hidrocarbonetos

Há apenas sete anos, intensos debates questionavam se a energia baseada em hidrocarbonetos seria um vestígio do passado. Entre 2020 e 2021, ganhou força a ideia de uma rápida transição para longe do carvão e do petróleo. A Agência Internacional de Energia (AIE) chegou a exortar as grandes empresas a abandonarem o mais rápido possível a exploração e o desenvolvimento de novos campos de petróleo e gás, afirmando que investimentos de longo prazo nesses setores seriam economicamente inviáveis. No entanto, neste ano, a AIE mudou completamente sua posição e agora defende a necessidade de investimentos em novos projetos de petróleo e gás.

De acordo com especialistas, o setor energético já enfrenta uma escassez de investimentos na extração de hidrocarbonetos, o que gera riscos: a demanda pode ultrapassar a oferta, provocando aumento nos preços da energia. Esse cenário é bem compreendido pelos países do BRICS, que demonstram crescente interesse nos recursos energéticos russos, incluindo petróleo, gás natural liquefeito (GNL) e carvão. A demanda por petróleo, inclusive, já supera os volumes disponíveis, grande parte dos quais já está comprometida por contratos. A declaração foi feita em junho de 2025 pelo vice-ministro da Energia da Rússia, Roman Marchavin.

Atualmente, o maior importador de petróleo russo é a China. Vale lembrar, porém, que os países do BRICS não são apenas grandes consumidores, mas também grandes produtores de hidrocarbonetos. Eles controlam três quartos da produção mundial de carvão e cerca de 40% da extração e do consumo global de gás natural. O grupo como um todo responde por aproximadamente 40% da produção mundial de petróleo.

Entre os líderes do setor energético no BRICS, ao lado da Rússia e da China — esta última com vastas reservas de carvão natural —, destaca-se o Irã, segundo o doutor em ciências econômicas Valeri Abramov.

"O Irã ocupa o segundo lugar no mundo em reservas de gás natural. Embora essas reservas sejam de difícil extração e o país ainda dependa de importações de gás do Catar para seu próprio consumo, o Irã continua sendo uma potência energética de destaque", observou ele.

A situação é bem mais desfavorável em termos de disponibilidade de recursos energéticos na Índia, África do Sul, Egito, Etiópia e Indonésia. Com o crescimento de suas economias e populações, esses países enfrentam uma necessidade urgente por novas fontes de energia, sejam elas baseadas em hidrocarbonetos ou em tecnologias de baixo carbono.

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Energia Verde

Em setembro de 2025, a China anunciou planos para reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 7% e 10% em relação ao seu pico, aumentar a participação das fontes renováveis para 30% da matriz energética e expandir a capacidade instalada de energia solar e eólica.

E isso não são apenas palavras. De acordo com dados da Ember referentes a 12 meses até junho de 2025, a energia eólica e solar na China geraram, pela primeira vez, mais eletricidade do que a hidrelétrica, a nuclear e a bioenergia juntas.

No geral, o setor de energia limpa contribuiu com US$ 1,9 trilhão cerca de R$ 10 trilhões) para a economia chinesa em 2024, o que representa aproximadamente um décimo do PIB do país. Hoje, a China produz 80% dos painéis solares do mundo, 60% das turbinas eólicas, e lidera as exportações de veículos elétricos, baterias, acumuladores térmicos e bombas de calor, respondendo por três em cada quatro patentes globais relacionadas à energia limpa.

No entanto, segundo o doutor em ciências econômicas, professor e acadêmico da Academia Russa de Ciências Naturais, Valeri Abramov, a energia verde ainda não pode ser considerada uma alternativa acessível aos hidrocarbonetos.

"A China produz painéis solares relativamente baratos, mas, no geral, a instalação e o consumo dessa energia ainda são acessíveis apenas para países com alto nível de renda"
Valeri Abramov

Valeri Abramov Doutor em Economia e acadêmico da Academia Russa de Ciências Naturais

Por sua vez, a candidata a doutora em Ciências Técnicas, Angelika Eremeeva, acredita que uma energia universal para o futuro, que tenha impacto mínimo no meio ambiente e máxima eficiência econômica, ainda não foi inventada. Contudo, as tentativas em encontrá-la continuam.

"É importante destacar que nem todos os tipos de energia renovável exigem grandes investimentos. Por exemplo, biomassa e biocombustíveis a partir de resíduos vegetais são formas de energia que são ao mesmo tempo verdes e relativamente baratas", ressaltou ela.

Na Rússia, desde 2020, a Rospatent, órgão governamental responsável pelo registro e proteção de direitos de propriedade intelectual, registrou cerca de 3 mil invenções e modelos relacionados à produção, conversão e distribuição de energia limpa. A transição do país para fontes de energia mais limpas também foi um tema discutido durante a Semana Russa da Energia.

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Principais recursos do futuro

A energia do futuro, segundo especialistas, não será apenas o combustível para o avanço das novas tecnologias, mas também se integrará a elas. Por exemplo, especialistas já enxergam todo o sistema energético russo como uma plataforma digital única, que abarcará absolutamente tudo, refletindo todos os processos, desde a prospecção geológica até o uso final da energia.

No entanto, hoje não são apenas os recursos energéticos que definem o sucesso na corrida tecnológica e econômica. Os recursos mais valiosos para o futuro são os humanos. Durante o fórum "Semana Russa da Energia", o ministro da Energia do país, Serguei Tsivilev, ressaltou que o alicerce do desenvolvimento tecnológico está na profissão de engenharia. Ele citou exemplos de diversas áreas — da medicina à agricultura, passando pela energia — mostrando que as tecnologias modernas exigem um conhecimento profundo na área.

"Um engenheiro está por trás de tudo o que você toca. Portanto, hoje no mundo vence justamente o engenheiro. A profissão de engenheiro tem um grande futuro", disse Tsivilev.

Previsões e riscos

Do ponto de vista energético, os países do Sul Global – países da América Central e do Sul, África, Oriente Médio e Ásia – são os mais interessados atualmente em garantir o fornecimento sustentável e a segurança energética. O aumento populacional e o desenvolvimento das economias, segundo especialistas, vão gerar em um futuro próximo 80% do crescimento da demanda por eletricidade. Desses, mais de 45% serão da China e 15-18% da Índia.

Isso cria não só potencial, mas também riscos. Os sistemas energéticos desses países precisam estar preparados para a crescente demanda. Caso contrário, a questão não será apenas a falta de recursos para o desenvolvimento tecnológico, mas também a escassez de energia para a indústria, transporte e até para necessidades domésticas.

Por exemplo, muitos países do Sul Global dependem da importação de recursos energéticos. Isso os torna vulneráveis às flutuações dos preços globais do petróleo e do gás. Além disso, como apontam especialistas, há um claro desequilíbrio energético: os países desenvolvidos têm acesso a grandes reservas energéticas, enquanto os países do Sul Global frequentemente sofrem com o acesso limitado à energia.

Essa situação pode ser revertida com o desenvolvimento dos mercados energéticos dentro do BRICS. De acordo com a OPEP, os países do grupo detêm 35,2% das reservas comprovadas de petróleo no mundo. Entre eles, há exportadores líquidos, como a Rússia, os Emirados Árabes Unidos e o Brasil, e grandes importadores, como a Índia e a China. Essa é uma situação em que essa aliança pode transformar o desequilíbrio energético em uma vantagem competitiva.

O desenvolvimento dos mercados energéticos dentro do grupo, com a adesão de países parceiros do BRICS, o desenvolvimento de novos sistemas de pagamento e logística, assim como o intercâmbio tecnológico em energia limpa, podem ser a chave para resolver os problemas do desequilíbrio energético mundial e criar uma base para o crescimento e o rápido desenvolvimento tecnológico do Sul Global.

Fotografias:  zhengzaishuru, metamorworks, Igor Borisenko, Crovik Media

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