Novo Banco de Desenvolvimento: motor de crescimento para países do Sul Global
O artigo foi desenvolvido por Svetlana Khristoforova.
Em 2025, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), também conhecido como Banco do BRICS, completou 10 anos. Durante esse tempo, o NBD se consolidou como o primeiro grande banco multilateral de desenvolvimento global fundado exclusivamente por países em desenvolvimento. Ele tem mobilizado recursos para projetos nos países do Sul Global, abrangendo áreas como energia limpa, infraestrutura de transporte, fornecimento de água, proteção ambiental e muito mais. Além disso, o banco oferece financiamento, inclusive em moedas nacionais. Mas, para onde exatamente são direcionados esses recursos?
O que o NBD financia?
Ao contrário de muitos outros institutos financeiros, o principal objetivo do NBD não é gerar lucro para acionistas, mas promover o desenvolvimento dos países do Sul Global. A missão do banco é reduzir a disparidade entre a disponibilidade de recursos financeiros e as necessidades dos países fundadores (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e de outros países investidores do Novo Banco de Desenvolvimento (Argélia, Bangladesh, Egito, Emirados Árabes Unidos e Uruguai). O financiamento é principalmente direcionado a projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável.
Os principais focos são:
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Energia limpa e eficiência energética
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Infraestrutura de transporte
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Água e saneamento
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Infraestrutura digital
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Proteção ambiental
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Infraestrutura social
O valor total dos projetos aprovados pelo NBD já soma US$ 39 bilhões (aproximadamente R$ 207 bilhões). Esses recursos foram destinados ao aumento da capacidade de produção de energia limpa em 2,4 mil megawatts, à redução de emissões de dióxido de carbono em 14,7 milhões de toneladas por ano, à construção de 35 mil unidades habitacionais, 43 escolas, 1,4 mil quilômetros de túneis e canais, além de 40,4 mil quilômetros de estradas. Em total, o banco aprovou cerca de 120 projetos de infraestrutura semelhantes. De acordo com as estatísticas do banco, até 2022, a maior parte dos recursos foi direcionada para a infraestrutura de transporte e para o enfrentamento das consequências da pandemia de Covid-19, com os maiores beneficiários sendo a China, a Índia e a África do Sul.
Projeto do sistema regional de transporte rápido Délhi-Gaziabad-Meerut
Um dos projetos mais significativos e de grande escala financiados pela entidade foi o corredor de transporte Délhi-Gaziabad-Meerut.
A região da capital nacional da Índia estava praticamente paralisada pelo trânsito. Imagine a superpopulosa Índia, com seus 43 quilômetros quadrados ocupados por Nova Délhi, além das áreas adjacentes dos estados de Haryana, Uttar Pradesh e Rajastão. O fluxo diário de passageiros no corredor Délhi-Gaziabad-Meerut foi estimado em 690 mil, com 63% dos passageiros utilizando veículos particulares para se deslocar até o trabalho. Devido aos congestionamentos, a viagem entre Délhi e Meerut, em Uttar Pradesh, poderia levar de 3 a 4 horas. O rápido aumento do tráfego automotivo transformou a região da capital indiana em uma das mais poluídas do mundo.
Além disso, a carga sobre a região da capital da Índia continua a crescer. Até 2030, espera-se que a área de Délhi se torne a aglomeração urbana mais densa do mundo. Isso representa um grande desafio não só para o sistema de transporte, mas também para os sistemas de fornecimento de água, eletricidade e moradia.
Em 2020, foi assinado um acordo no qual o Banco do BRICS alocaria US$ 500 milhões (cerca de R$ 3 bilhões) para a criação de um sistema de transporte rápido regional – o corredor Délhi-Gaziabad-Meerut, com 82 quilômetros de extensão, dos quais 62 quilômetros seriam subterrâneos. Os trens de alta velocidade devem reduzir o tempo de viagem entre Délhi e Meerut para apenas uma hora. Em outubro de 2025, foi inaugurado o primeiro trecho dessa via de alta velocidade, com o objetivo de melhorar significativamente a infraestrutura e a ecologia da região da capital da Índia.
Terminal de GNL no porto de Nangang, Tianjin, China
Em março de 2021, o Novo Banco de Desenvolvimento aprovou o financiamento de um grande terminal no norte da China, destinado ao recebimento, transbordo e armazenamento de gás natural liquefeito (GNL). Hoje, esse terminal desempenha um papel crucial no fornecimento de gás para o mercado chinês, incluindo o gás proveniente da Rússia.
O projeto do terminal de GNL em Tianjin é considerado um dos mais importantes do ponto de vista ecológico, pois a transição para o gás na China está ligada ao uso de energia limpa e à redução do consumo de carvão. Em Pequim, até 2019, o consumo de gás representava cerca de um terço do balanço energético total, um aumento significativo em relação a 2010, quando esse número era de apenas 15%. O novo terminal de GNL contribuirá para manter e expandir o uso do gás natural, promovendo melhorias significativas na ecologia.
Projeto da Linha 6 do metrô de Qingdao
Outro grande projeto no portfólio do banco é a Linha 6 do metrô de Qingdao, na China. O NBD alocou 3.237 milhões de yuans (aproximadamente R$ 2 milhões) para a execução do projeto. A primeira fase da linha 6 foi inaugurada em abril de 2024 e imediatamente recebeu o prêmio da Associação Internacional de Túneis na categoria "Tecnologia de construção verde de metrôs em condições geológicas complexas".
A primeira fase da linha 6 tem mais de 30 quilômetros de extensão e inclui 21 estações subterrâneas. Trata-se da maior linha de metrô na China a utilizar estruturas pré-fabricadas e a primeira linha de metrô automatizada em Qingdao. O principal objetivo dessa linha é resolver o problema da crescente congestão no transporte, que tem sido um grande desafio para o crescimento e o desenvolvimento da nova área do litoral ocidental da cidade de Qingdao, na província de Shandong.
Outros projetos do NBD
O metrô e o terminal de GNL na China e o corredor de transporte na Índia são apenas alguns exemplos de projetos de infraestrutura financiados pelo banco em países em desenvolvimento. Todos esses projetos resolvem múltiplos desafios: melhoram a economia, a ecologia e, mais importante, aumentam substancialmente a qualidade de vida nas áreas habitadas por milhões de pessoas.
"Uma das principais missões do Banco do BRICS é resolver os desafios dos países-membros, promover o crescimento econômico e melhorar a vida das populações para garantir um futuro melhor. Hoje, o papel do NBD como uma instituição financeira especializada que apoia o desenvolvimento de seus membros é especialmente significativo", afirmou em entrevista exclusiva à TV BRICS o analista político do Irã, Ruhollah Modabber.
Em 2023 e 2024, o Novo Banco de Desenvolvimento aprovou 10 projetos para financiamento, no valor de US$ 2,06 bilhões (aproximadamente R$ 11 bilhões). A maior parte dos projetos foi aprovada no Brasil e na Índia, com o financiamento voltado, principalmente, para o desenvolvimento da infraestrutura de transporte, seguido de programas de melhoria no fornecimento de água.
"Considero muito interessante o projeto indiano 'Piramal Finance Affordable Housing Project', que oferece acesso à moradia por meio de créditos acessíveis para as camadas mais vulneráveis da sociedade, assim como o projeto brasileiro 'Projeto de Desenvolvimento de Saneamento do Pará', focado no fornecimento de água e saneamento. É evidente que o motor do NBD é o apoio ao desenvolvimento", destacou em entrevista exclusiva à TV BRICS o professor da Faculdade de Ciências Econômicas, Empresariais e de Comunicação da Universidade Europeia de Madrid, Guillermo Miguel Rocafort Pérez.
Os especialistas observam o alto nível de aprovação dos projetos da entidade – 62,5%. Isso demonstra a viabilidade de um grande número desses programas nos países do BRICS e sua justificativa econômica. Esses dois fatores são levados em consideração pelo banco ao aprovar projetos.
Em abril de 2025, o Novo Banco de Desenvolvimento analisou três projetos em dois países – Brasil e China. O banco continuou, em 2025, a tendência de financiar projetos em moedas locais.
O NBD também está direcionando recursos para a Rússia. Em 2024, foi anunciado que US$ 1,2 bilhões (cerca de R$ 6 bilhões) seriam destinados a projetos de infraestrutura relacionados ao desenvolvimento do sistema judiciário, sistemas de fornecimento de água e esgoto, além de dois projetos para o desenvolvimento de pequenas localidades históricas, visando aumentar seu potencial turístico. Para a Rússia, assim como para outros países, a cooperação com o banco significa acesso a recursos financeiros de longo prazo em condições mais vantajosas que no mercado comercial.
Desafios no trabalho do NBD
O NBD é especializado em projetos de infraestrutura voltados para o desenvolvimento sustentável, e esse tipo de operação nem sempre garante um nível adequado de rentabilidade para o banco. Segundo especialistas, o financiamento de tais programas pode, às vezes, contrariar os princípios bancários saudáveis. Isso pode limitar a capacidade do banco de financiar todos os projetos para os quais os países acionistas gostariam de obter recursos.
Desafios futuros para NBD: criação de câmara de compensação e moeda única
A criação de uma moeda única poderia resolver disputas sobre qual moeda seria a melhor para transações entre os países do BRICS e os investidores do NBD. No entanto, essa questão ainda está sendo discutida.
"Sem dúvida, uma moeda única é necessária, mas tecnicamente isso é difícil de implementar. Além disso, a China está claramente interessada em tornar sua moeda nacional, o yuan, a segunda moeda de reserva do mundo, o que está ocorrendo gradualmente. O uso do yuan no comércio e investimentos está se expandindo, especialmente com o yuan digital ganhando espaço na Ásia. Esse é um fator importante a ser considerado na introdução de moedas digitais nacionais", afirmou Ekaterina Gospodarik, chefe do Departamento de Economia Analítica e Econometria da Faculdade de Economia da Universidade Estadual de Belarus.
Como alternativa para os pagamentos internacionais, os especialistas mencionam o que chamam de sistema de dois ciclos, no qual "rublos transferíveis", "rúpias transferíveis" ou "reais transferíveis", etc., seriam usados. Para gerenciar os circuitos comerciais exteriores, seria necessário criar uma câmara de compensação. Essa estrutura atuaria como intermediário entre compradores e vendedores, funcionando como uma plataforma para conversão e securitização de ativos cambiais de todos os países participantes. Nesse cenário, a câmara de compensação poderia atuar como contraparte no mercado financeiro. As transações entre vendedores e compradores seriam feitas não diretamente entre eles, mas com a câmara.
"A câmara de compensação pode oferecer flexibilidade e garantias nos processos bancários e ser uma ferramenta eficaz, mas é crucial não comprometer a soberania bancária e financeira de cada país. De qualquer forma, se houver progressos nessa direção, eles devem ser cuidadosamente avaliados para garantir um monitoramento adequado de qualquer dificuldade", ressalta Guillermo Miguel Rocafort Pérez.
Nesse cenário, especialistas acreditam que o Novo Banco de Desenvolvimento poderia atuar como parte desse grande mecanismo, juntamente com o BRICSPay e plataformas de investimento, cuja criação já foi anunciada. Outro grande desafio futuro será a criação de um centro de câmbio com taxas de câmbio claras e novos sistemas de pagamento com transações simples entre os países. Essas questões são desafios importantes que o BRICS e o NBD ainda precisam resolver.
Fotografia: ipopba / iStock
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