Heroínas invisíveis: papel das mulheres na preservação do legado artesanal nos países do BRICS
Nas encostas dos Himalaias, nas vilas costeiras do Brasil, nas estepes de Orenburg e nas montanhas enevoadas da China, as mulheres continuam a criar com suas próprias mãos. Em 2024, o volume do mercado global de produtos artesanais alcançou US$ 906,8 bilhões (cerca de R$ 5 trilhões), e a exportação de itens criativos cresceu mais de 3,5 vezes nos últimos 20 anos. Três quartos desses itens são criados por mulheres artesãs. O papel delas é especialmente significativo nos países do BRICS, onde o artesanato se transformou em uma ferramenta de estabilidade econômica, transformação ecológica e diplomacia cultural.
Renda de Alagoas
No nordeste do Brasil, no estado de Alagoas, mulheres produzem a renda filé – um tipo de renda inspirada em redes de pescador e reconhecida como patrimônio cultural imaterial do país.
O processo começa com o trançado da base em rede de 100% algodão, que é esticada sobre uma moldura de madeira. Em seguida, as artesãs bordam com agulha padrões coloridos, criando uma linguagem visual única que conta sobre a natureza local e o folclore brasileiro.
As filezeiras, como são chamadas as rendeiras, há dois séculos fazem toalhas, roupas e acessórios. Hoje, os designers contratam as artesãs diretamente, sem intermediários, colocando a renda filé alagoana em uma nova economia. Este modelo de produção é independente, sem desperdícios e utiliza materiais locais. A renda tornou-se mais do que um simples ornamento, sendo uma forma de adaptação integrada ao cotidiano.
Vamos das aldeias costeiras do Brasil para as vastas estepes da Eurásia, onde o silêncio gelado deu origem a um fio de calor quase imperceptível.
Xale de lã de Orenburg
No século XVIII, viúvas de cossacos, nos Montes Urais, começaram a fiar a lã de cabra e a fazer peças de renda para se sustentar e alimentar seus filhos. Assim nasceu o famoso xale de lã de Orenburg.
Em 1851, na Exposição Universal de Londres, o xale de lã de cabra branca causou grande impacto no público internacional e consolidou as artesãs de Orenburg na história têxtil. O segredo está nas cabras locais: sua lã fina é transformada em fios que mantêm o calor até mesmo em temperaturas de 40 graus negativos, enquanto os xales permanecem leves como uma teia de aranha.
Hoje, nas aldeias, há cada vez menos mãos capazes de fazer o trabalho minucioso, mas o ofício sobrevive graças ao entusiasmo renovado e ao interesse pelo movimento slow fashion. Para muitas mulheres, é uma forma de preservar a tradição, além de permitir que elas permaneçam em suas aldeias, garantindo seu sustento, sua independência financeira e um propósito na vida.
Das planícies nevadas de Orenburg, o caminho nos leva mais fundo ao coração da Ásia, onde o bordado ganha voz no povo Miao.
Bordado do Miao
O povo Miao, na província de Guizhou, na China, não tem linguagem escrita, mas possui o bordado, que serve como um arquivo de história, mitos e rituais. Desde pequenas, as meninas aprendem a bordar com seda, tecer, fazer mosaicos de retalhos e plissar saias.
Um aspecto notável dessa tradição é a técnica rara chamada kanitel, que utiliza fios de estanho. As artesãs bordam padrões geométricos na tela e, em seguida, enrolam cada ponto com minúsculos tubos metálicos, criando padrões que lembram rendas metálicas.
O artesanato nos países do BRICS não é apenas uma questão de estética ou tradição, mas também uma economia viva. Mulheres se unem em comunidades, trabalham com designers e chegam aos mercados internacionais. Este é um tipo de produção ecológica, que utiliza materiais naturais, minimiza desperdícios e tem um cuidado especial com a natureza.
Acima de tudo, o artesanato é uma forma de expressão: sobre si mesmas, sobre sua história e sobre o direito de permanecer em sua terra e gerenciar suas próprias vidas. Essas heroínas invisíveis, armadas apenas com agulhas e fios, não apenas preservam o legado, mas também conectam o passado, o presente e o futuro em um único tecido cultural.
O material foi fornecido por uma participante do projeto BRICS Bloggers Team e residente do Centro de Novos Meios de Comunicação, Daria Tchitchimova.
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