Países da maioria global defendem responsabilidade coletiva pela segurança mundial
Representantes dos Estados reconheceram a inevitabilidade das mudanças nas relações internacionais e declararam estar prontos para participar desse processo em condições de igualdade
A 14ª Reunião Internacional de Altos Representantes responsáveis por assuntos de segurança ocorre na região de Moscou, durante o Fórum Internacional de Segurança. Os participantes, entre eles chefes de conselhos de segurança e altos representantes da Rússia, China, Índia, África do Sul, Brasil, Cazaquistão e Vietnã, discutiram a formação de um mundo multipolar, o fortalecimento da confiança entre os Estados e a criação de regras comuns para novas tecnologias.
O principal eixo do encontro foi a busca dos países do Sul e do Leste globais por um diálogo igualitário e por um desenvolvimento soberano. O secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Serguei Shoigu, apresentou iniciativas voltadas ao fortalecimento da coordenação entre os Estados e à proteção do direito internacional.
"Para fortalecer a coordenação entre os países do Sul e do Leste globais, é importante reforçar de todas as formas o papel central e coordenador da Organização das Nações Unidas [ONU], apoiar o Grupo de Amigos em Defesa da Carta da ONU, criado por iniciativa da Rússia, e evitar o estímulo a contradições, divergências e confrontos nas relações entre os Estados do Sul e do Leste globais. [...] Nas condições atuais, ganham especial importância as iniciativas do presidente da Rússia para a formação da Grande Parceria Eurasiática e de uma arquitetura de segurança coletiva no continente eurasiático. [...] Moscou, por sua vez, [...] continuará prestando apoio aos parceiros por meio do fornecimento de produtos agropecuários, fertilizantes e hidrocarbonetos, além de trabalhar em conjunto na criação de reservas de recursos"![]()
Serguei Shoigu Secretário do Conselho de Segurança da Rússia
No contexto do fortalecimento da segurança coletiva, Moscou defendeu que os parceiros evitassem medidas voltadas a ampliar sua própria segurança à custa da segurança de outros Estados. A Rússia também pediu maior coordenação em política externa e mais interação no BRICS, na Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e em outras entidades que reúnem países da maioria global.
Foto: TV BRICS
Nesse contexto, o secretário da Comissão de Assuntos Políticos e Jurídicos do Comitê Central do Partido Comunista da China, Chen Wenqing, lembrou as iniciativas apresentadas pelo presidente chinês, Xi Jinping, nas áreas de desenvolvimento global, segurança global, civilização global e governança global. Chen destacou que a China defende de forma consistente o multilateralismo, o respeito ao direito internacional e a construção de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade.
"A Iniciativa de Segurança Global busca adaptar-se à nova arquitetura internacional por meio do espírito de solidariedade e responder a diversos desafios e ameaças tradicionais e não tradicionais à segurança. [...] Para implementar a iniciativa do presidente Xi Jinping e formar uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade, tenho três propostas. A primeira é garantir a paz em todo o mundo. [...] A segunda é respeitar a ordem jurídica internacional. [...] A terceira é colocar o multilateralismo em prática. [...] A China trabalha ativamente na formulação de iniciativas de paz, e os Cinco Princípios de Coexistência Pacífica propostos pelo país foram incorporados a documentos internacionais e receberam amplo reconhecimento da comunidade internacional, o que representa uma contribuição histórica duradoura para o progresso da humanidade", afirmou.
O assessor de Segurança Nacional do primeiro-ministro da Índia, Ajit Kumar Doval, chamou atenção para as transformações globais, incluindo mudanças geopolíticas e econômicas, o rápido avanço das tecnologias e o desenvolvimento do comércio. Ele defendeu uma reforma da ONU para tornar a organização mais representativa e eficiente, além de pedir abordagens comuns no combate ao terrorismo.
"Hoje, o poder já não está concentrado nas mãos de alguns países ou de um pequeno grupo. Países de economias emergentes estão assumindo papel de destaque e estão prontos para assumir maior responsabilidade. Eles ampliam suas capacidades econômicas e demográficas [...] E esses países têm ambições. Eles exigem participação igualitária de todos os Estados, inclusive do Sul Global, na solução das questões mundiais. Só assim poderemos garantir estabilidade e segurança em todo o mundo. [...] O contexto geopolítico atual é bastante complexo, e estamos prontos para participar do desenvolvimento e da formação de um mundo multilateral, em que não haja espaço para padrões duplos nem ameaças à segurança internacional", declarou.
A ministra da Presidência da África do Sul, Khumbudzo Phophi Silence Ntshavheni, afirmou que a formação de um mundo multipolar abre novas oportunidades para os países do Sul Global. Segundo ela, Pretória pretende modernizar seu sistema de segurança, desenvolver a inteligência artificial e construir conexões econômicas alternativas.
"A África do Sul pretende defender sua soberania, desenvolver capacidades em inteligência artificial e cibersegurança, além de ampliar nossas possibilidades de garantir segurança energética e fortalecer parcerias comerciais, inclusive por meio da formação da Zona de Livre Comércio Continental Africana"![]()
Khumbudzo Phophi Silence Ntshavheni Ministra da Presidência da África do Sul
Ela também destacou a importância de revisar o papel das organizações internacionais, incluindo a ONU. Segundo Ntshavheni, a multipolaridade não deve significar uma multiplicidade de padrões. A integração econômica africana, para ela, deve se tornar a base do desenvolvimento sustentável do continente em um contexto de concorrência global.
Foto: captura de tela do Fórum Internacional de Segurança
Ao discursar para os participantes do encontro, o assessor especial do presidente do Brasil para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, chamou atenção para um importante acordo bilateral assinado com a China em maio de 2024. Ele afirmou que a multipolaridade deve ser construída sobre bases diferentes, sem uma divisão rígida do mundo em zonas de influência.
"Em maio de 2024, Wang Yi, membro do Comitê Central do Partido Comunista da China, e eu assinamos um documento chamado 'Entendimento comum'. O documento defende o diálogo entre as partes. Formamos um Grupo de Amigos da Paz. O objetivo é ajudar na implementação dessas iniciativas. O novo mundo multipolar não deve se transformar em um mundo dividido em esferas de influência. O mundo multipolar deve ser um mundo em que países soberanos usam seu direito de diversificar parcerias, proteger seus interesses nacionais e participar dos processos de desenvolvimento sustentável. Espero que o espírito que orientou a formação do BRICS nos ajude a realizar tudo isso"![]()
Celso Amorim Assessor especial do presidente do Brasil para Assuntos Internacionais
O secretário do Conselho de Segurança do Cazaquistão, Gizat Nurdauletov, declarou que a visão nacional sobre desafios e ameaças à segurança internacional abrange quatro áreas principais: relações interestatais, relações econômicas, meio ambiente e ambiente digital. Em cada uma delas, o país apresentou iniciativas e propostas concretas.
"As garantias de funcionamento ininterrupto e de livre acesso [à infraestrutura de transporte, energia e logística] devem se tornar um elemento fundamental da nova arquitetura de segurança em um mundo multipolar. [...] O presidente do Cazaquistão apresentou a iniciativa de criar, sob os auspícios da ONU, a Organização Internacional para a Segurança Hídrica. Suas tarefas seriam monitorar bacias hidrográficas transfronteiriças, apoiar tecnologias de economia de água e ajudar os países a resolver questões ligadas aos recursos hídricos por meio do diálogo. [...] O Cazaquistão defende a formação de normas universais de comportamento responsável dos Estados no ciberespaço e o fortalecimento da cooperação multilateral em segurança digital. Na prática, chegamos a um ponto de virada em que a inteligência artificial deixa de ser uma ferramenta digital auxiliar e se transforma em um agente ativo", afirmou.
Propostas concretas de cooperação tecnológica no BRICS foram apresentadas pelo diretor-geral do Conselho de Segurança Nacional da Malásia, Nushirwan Zainal Abidin, em entrevista exclusiva à TV BRICS. A rede de mídia, parceira internacional do Fórum Internacional de Segurança, realiza entrevistas com especialistas em um estúdio especial instalado no local do evento.
"Os países do BRICS têm enorme potencial para usar a economia digital a fim de ampliar o comércio entre os membros do grupo. [...] Há a impressão de que o mundo caminha para uma uma divisão das tecnologias avançadas, especialmente na área de inteligência artificial. [...] No entanto, entre os países do BRICS há grandes potências tecnológicas, como a China, a Rússia, a Índia, entre outras. Se conseguirmos criar uma plataforma comum, isso vai facilitar muito a cooperação em IA e, consequentemente, o desenvolvimento do mundo digital como um todo"![]()
Nushirwan Zainal Abidin Diretor-geral do Conselho de Segurança Nacional da Malásia
Foto: TV BRICS
O Fórum Internacional de Segurança segue até 29 de maio.
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