Sustentabilidade do BRICS: o que pode conter o avanço das áreas áridas?
Programas conjuntos e investimentos em projetos ambientais podem conter o avanço das secas? Leia na reportagem da TV BRICS
O Dia Mundial de Combate à Seca e à Desertificação é celebrado em 17 de junho. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) e tem como objetivo chamar a atenção para os problemas relacionados à degradação dos solos e à escassez de recursos hídricos.
Segundo dados da ONU, as áreas áridas ocupam mais de 40% da superfície terrestre do planeta. Nas últimas décadas, sua extensão aumentou em 4,3 milhões de km², uma área superior ao território da Índia. Especialistas consideram a rápida expansão das zonas áridas uma das ameaças ambientais mais graves da atualidade.
"De acordo com os dados mais recentes da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação [CNUCD], mais de três quartos [77,6%] da superfície terrestre do planeta apresentaram condições mais secas nas últimas três décadas, até 2020, em comparação com o período anterior de 30 anos. Esse avanço afeta diretamente os países do BRICS, onde coexistem grandes populações e extensas áreas agrícolas", destacou em entrevista exclusiva à TV BRICS Gabriela de Fátima Sia, especialista em desenvolvimento sustentável, cooperação ambiental internacional, gestão de recursos hídricos e ecossistemas florestais, membro da Comissão de Estudantes do BRICS e coordenadora do secretariado juvenil do Centro de Integração e Cooperação Rússia–América Latina (CICRAL).
Nesse contexto, a especialista avalia que a desertificação se tornou não apenas uma questão ambiental, mas também um desafio econômico. Os países do BRICS representam os interesses de mais da metade da população mundial, possuem importantes reservas de água doce, recursos florestais e grandes áreas agrícolas. Isso torna o grupo um dos atores relevantes na agenda climática e ambiental global.
"As secas ocorrem em todos os países do BRICS, incluindo Brasil e Indonésia, localizados na faixa equatorial. A situação é especialmente grave no Irã e em algumas regiões da Índia e da África do Sul. Em determinado ano, uma seca severa pode ameaçar qualquer país do BRICS", ressaltou em entrevista exclusiva à TV BRICS Aleksandra Kudzagova, especialista em legislação ambiental e ativista sociopolítica na área de ecologia.
Secas nos países do BRICS
A China implementa há mais de meio século programas voltados ao combate à desertificação. Apesar dos avanços expressivos na recuperação de áreas verdes, cerca de 27% do território do país ainda são classificados como regiões desérticas ou áridas.
"Embora a China seja líder mundial no desenvolvimento de fontes renováveis de energia e nos investimentos em tecnologias limpas, respondendo por 39% da energia solar global, 40% da energia eólica e até 70% das vendas mundiais de veículos elétricos, o país continua sendo o maior emissor mundial, responsável por aproximadamente um terço das emissões globais de gases de efeito estufa", afirmou Gabriela de Fátima Sia.
A Índia e a África do Sul enfrentam forte pressão sobre seus recursos hídricos, solos e setores agrícolas. Na Índia, os riscos estão associados à desertificação, às ondas de calor extremo e à escassez de água em importantes regiões produtoras, o que representa uma ameaça à segurança alimentar. Na África do Sul, o problema é agravado pela vulnerabilidade histórica a períodos prolongados de seca e pela limitação dos recursos hídricos. Em 2024, a ONU declarou que a região sul-africana enfrentava a seca mais intensa dos últimos 100 anos.
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No Brasil, também é observada uma tendência de aumento dos períodos de seca. O risco é especialmente significativo no Nordeste e em regiões semiáridas, onde a degradação dos solos e a falta de água já afetam a produtividade e a segurança alimentar. A escassez hídrica e os incêndios florestais tornaram-se ameaças recorrentes, principalmente em biomas como a Amazônia e o Pantanal. A principal prioridade do país é o combate ao desmatamento.
"No período entre agosto de 2025 e março de 2026, a destruição das florestas diminuiu 36%. A redução da área de 2.296 para 1.460 km² consolidou o menor nível de desmatamento dos últimos oito anos, alcançando índices que não eram registrados desde 2017", destacou Gabriela de Fátima Sia.
Na Rússia, o problema está menos ligado à desertificação em seu sentido clássico e mais associado à combinação de escassez de água, variações climáticas e degradação dos solos em regiões vulneráveis. Apesar de possuir extensas áreas úmidas, algumas regiões do sul do país enfrentam riscos crescentes de seca. Países como Irã e Emirados Árabes Unidos estão localizados em áreas naturalmente muito áridas e convivem com uma escassez extrema de água.
O que pode conter o avanço dos desertos?
Especialistas apontam os projetos de engenharia hídrica como uma das principais estratégias de combate à seca. Essas iniciativas permitem armazenar e distribuir recursos hídricos, reduzindo os impactos das variações sazonais e dos eventos climáticos extremos. Nos países do BRICS, canais são construídos e barragens são erguidas para garantir o abastecimento de água. No Egito, por exemplo, como parte do grande projeto "Novo Delta", foi construída a maior estação do mundo para tratamento de águas residuais agrícolas: a estação de Al Hamam. As águas residuais ricas em nutrientes são coletadas de áreas agrícolas no norte do Delta do Nilo e transportadas até a unidade por um canal artificial de 174 km.
"Essa estação fornece 7,5 milhões de m³ de água limpa por dia. Depois, essa água é conduzida por canais por dezenas de quilômetros para transformar parte dos territórios do Saara em áreas agrícolas", afirmou Aleksandra Kudzagova.
No Egito, em parceria com uma empresa chinesa, também está prevista a construção de uma fábrica de membranas para dessalinização da água do mar. A informação foi divulgada pelo Sada El-Balad, parceiro da TV BRICS. As membranas funcionarão com base na tecnologia de osmose reversa, na qual filtros permitem a passagem das moléculas de água, mas retêm o sal. Com essa tecnologia, o país pretende dessalinizar 9 milhões de m³ de água por dia até 2050.
De modo geral, segundo especialistas, todos os projetos ambientais voltados à redução dos riscos de desastres naturais e ao fortalecimento da resiliência climática podem contribuir para enfrentar a expansão das áreas áridas.
É justamente nessa direção que os países do BRICS vêm intensificando seus esforços e ampliando a cooperação nos últimos anos. Em 2009, durante a primeira cúpula do BRICS, realizada em Ecaterimburgo, os países demonstraram interesse em promover um diálogo construtivo sobre as mudanças climáticas. Posteriormente, na quinta cúpula do BRICS, realizada em Durban, em 2013, os membros do grupo concordaram em coordenar esforços nas áreas de energia e infraestrutura. Desde 2015, são realizados encontros regulares dos ministros do Meio Ambiente dos países do BRICS, além da atuação do Grupo de Trabalho do BRICS sobre Meio Ambiente (BRICS Environment Working Group).
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"Esse movimento é importante, pois a expansão das áreas áridas não pode ser resolvida apenas com medidas isoladas. É necessário um planejamento de longo prazo, a integração entre políticas agrícolas, ambientais e de gestão dos recursos hídricos, além de financiamento contínuo para a adaptação", afirmou Gabriela de Fátima Sia.
Ao mesmo tempo, essas iniciativas vêm ganhando forma concreta por meio do financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). Criado em 2015, o banco já aprovou mais de 120 projetos, com valor total de cerca de US$ 40 bilhões (mais de R$ 203 bilhões), com foco em infraestrutura e desenvolvimento sustentável. O NBD também lançou títulos verdes no valor aproximado de US$ 450 milhões (cerca de R$ 2 bilhões) em 2016 e US$ 1,25 bilhão (R$ 6,35 bilhões) em 2025. Esses títulos atraem recursos de investidores para financiar projetos ambientais, climáticos e de infraestrutura nos países membros do banco.
De Erzurum a Ulan Bator: novo foco nos ecossistemas de pastagens
Em 2026, a atenção internacional ao problema da degradação das terras ganhou novo impulso com o projeto Silk Road Caravan (Caravana da Rota da Seda), lançado pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação. A iniciativa teve início na Turquia e atravessa diversos países da Eurásia, incluindo Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, China, Uzbequistão e Mongólia. A jornada da Caravana será concluída durante a COP17 da CNUCD, que será realizada em Ulan Bator, na Mongólia, entre 17 e 28 de agosto de 2026.
O projeto tem como objetivo chamar atenção para o estado dos ecossistemas de pastagens e para o papel das comunidades pecuaristas na preservação dos recursos naturais. As áreas de pastagem ocupam mais da metade da superfície terrestre do planeta, garantem meios de subsistência para cerca de dois bilhões de pessoas e respondem por uma parcela significativa da produção mundial de alimentos. Ao mesmo tempo, até metade dessas áreas já está degradada ou sob risco de degradação.
A questão tem importância especial para os países do BRICS. As estepes da Eurásia, que se estendem por mais de 8 mil km do Mar Negro até a Mongólia e o nordeste da China, representam cerca de um quarto das áreas de pastagem do mundo. Por isso, a recuperação dos solos, a preservação dos recursos hídricos e a gestão sustentável das pastagens vêm sendo cada vez mais consideradas elementos essenciais para a adaptação climática e o combate à desertificação.
A passagem da Caravana pela Rota da Seda dá continuidade ao impulso estabelecido em 2024 durante a COP16, realizada em Riade, quando os países aprovaram pela primeira vez um conjunto específico de medidas para a gestão sustentável das pastagens. As decisões incluem o aumento dos investimentos na recuperação de terras, a prevenção da degradação dos ecossistemas e o apoio às comunidades locais, cuja qualidade de vida depende diretamente da preservação dos recursos naturais.
Parceria do BRICS para recuperação de terras
Segundo especialistas, merece atenção especial o lançamento da "Parceria do BRICS para Recuperação de Terras", em 2025. A iniciativa foi apresentada em Brasília durante a segunda reunião do Grupo de Trabalho do BRICS sobre Agricultura. O projeto prevê a criação de um mecanismo estruturado de financiamento, com possível participação de organizações internacionais, para apoiar ações de conservação dos solos e recuperação de áreas degradadas, como manguezais, margens de rios, várzeas e zonas úmidas, afirmou Gabriela de Fátima Sia, especialista em desenvolvimento sustentável, em entrevista à TV BRICS.
Entre as prioridades da parceria estão a correção da acidez do solo, o controle da salinização e os investimentos em pesquisa, infraestrutura e assistência técnica para agricultores e comunidades rurais. Dessa forma, a iniciativa busca transformar compromissos políticos em ações concretas, fortalecer a participação dos países do Sul Global na agenda do desenvolvimento sustentável e oferecer uma resposta estruturada ao avanço das áreas áridas.
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A coordenação de esforços, o financiamento adicional, a aplicação de soluções científicas e o desenvolvimento da chamada agricultura inteligente são apontados pelos especialistas como medidas cada vez mais necessárias diante das previsões de expansão das regiões afetadas pela aridez.
"O aquecimento global continua avançando e, em algumas regiões, esse processo provoca escassez de água. Ao mesmo tempo, o crescimento populacional e o desenvolvimento econômico dos países do BRICS aumentam a demanda por recursos hídricos e ampliam a retirada de água dos sistemas naturais", concluiu Kudzagova.
Este artigo foi elaborado por Svetlana Khristoforova.
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