CEO da Agência de Notícias da Nigéria, Ali Muhammad Ali: "IA vai se tornar um dos principais fatores na formação do futuro da mídia"
Em entrevista exclusiva à TV BRICS, o diretor-geral da NAN fala sobre crescimento da mídia digital, IA e cooperação internacional
A rede internacional de mídia TV BRICS apresenta a "Reunião da mídia global", um projeto especial em comemoração ao 20º aniversário do BRICS. A iniciativa conta com comentários de importantes especialistas dos principais meios de comunicação dos países do BRICS+ e parceiros da rede de mídia sobre questões relacionadas à formação de uma agenda mundial conjunta, à construção de um sistema multipolar de comunicações globais de mídia, às tendências atuais e aos principais acontecimentos dos últimos 20 anos para o avanço do discurso da mídia, bem como previsões sobre a evolução do espaço midiático.
Como o surgimento das tecnologias digitais e do jornalismo cidadão influenciou a estrutura do cenário midiático africano? Qual evento mudou a percepção do continente na mídia global? Por que a comunidade jornalística deve ser cautelosa ao usar tecnologias de inteligência artificial? Essas e outras questões foram respondidas pelo diretor-geral da Agência de Notícias da Nigéria (NAN), Ali Muhammad Ali.
— Qual acontecimento dos últimos 20 anos você consideraria o mais significativo para o desenvolvimento do discurso midiático e a formação de um sistema multipolar de comunicação global?
— Não houve um único evento mais significativo nos últimos 20 anos. O que ocorreu, na verdade, foi uma série de desenvolvimentos que deram origem a um cenário midiático global multipolar.
Da perspectiva africana, a transformação mais profunda foi o surgimento da mídia digital e do jornalismo cidadão. O crescimento das redes sociais e das plataformas digitais deu voz a quem antes não era ouvido. Na África, o jornalismo cidadão foi amplamente potencializado pela expansão digital, reformulando o debate público e contribuindo para um ambiente midiático mais pluralizado.
— Qual foi o evento mais marcante dos últimos 20 anos que impulsionou a busca por soluções não convencionais e permitiu estabelecer a comunicação entre os meios de comunicação e elaborar uma agenda global comum?
— A resposta depende da região e do contexto. Na África, grandes eventos esportivos mundiais uniram a mídia e atraíram a atenção internacional.
Um exemplo claro é a Copa do Mundo de Futebol de 2010, realizada na África do Sul. O evento trouxe a atenção da mídia global para o continente e demonstrou a capacidade da África de sediar uma competição dessa magnitude. Fomentou um sentimento de unidade e otimismo, ao mesmo tempo em que redirecionou o olhar da mídia internacional para a África de forma positiva.
— Como mudou a imagem do jornalismo internacional nos últimos 20 anos? Quais foram as principais tendências e eventos que influenciaram a transformação e o desenvolvimento do discurso midiático e do espaço de informação global como um todo?
— Ao longo das últimas duas décadas, o jornalismo internacional tornou-se mais diverso e mais digitalizado. A expansão das plataformas digitais ampliou a participação e abriu o espaço midiático a um leque maior de vozes e perspectivas.
Na África, o cenário midiático está em crescimento, especialmente no âmbito digital. Muitos países africanos já operam meios de comunicação estatais com alcance internacional. Embora os recursos ainda possam ser limitados, a infraestrutura permite cada vez mais o engajamento com públicos globais.
As parcerias entre organizações de mídia também ganharam maior relevância. A cooperação entre a TV BRICS e veículos africanos como a Agência de Notícias da Nigéria reflete uma tendência mais ampla de colaboração internacional.
— Qual é a sua previsão em relação ao desenvolvimento das comunicações de mídia e à evolução futura do panorama midiático em termos de abordagens, tecnologias, significados e narrativas?
— Acho que os meios de comunicação, especialmente a mídia digital e as redes sociais, desempenharão um papel muito importante. Elas já contribuíram para uma espécie de renascimento e reativação da mídia.
A inteligência artificial vai se tornar um dos fatores mais significativos na formação do futuro da mídia. A IA já está integrada às operações dos meios de comunicação e sua influência continuará crescendo.
Ao mesmo tempo, haverá maior atenção às plataformas digitais, crescimento contínuo da mídia africana e aumento na produção de conteúdo localizado com alcance global. Meios de comunicação da Nigéria, por exemplo, já podem distribuir conteúdo internacionalmente por meio de parcerias como a firmada com a TV BRICS. No geral, podemos esperar mais conteúdo gerado por IA, integração digital mais robusta e expansão contínua do cenário midiático africano.
— Que aspectos fundamentais devem constar na agenda global coletiva em termos de desenvolvimento do discurso midiático?
— Uma agenda global comum deve incluir questões que afetam a humanidade como um todo. A mudança climática é um exemplo evidente, pois representa uma ameaça real e urgente.
Outros elementos fundamentais incluem o comércio global, o desenvolvimento sustentável e o acesso equitativo à informação. A agenda deve também contemplar os direitos humanos, a paz global, o acesso à tecnologia e relações comerciais justas. Esses temas devem formar o núcleo de um discurso midiático global verdadeiramente compartilhado.
— Que temas relacionados à agenda interna do seu país, à política externa, às iniciativas civis e, possivelmente, a eventos concretos futuros deveriam atrair mais atenção dos meios de comunicação estrangeiros, a fim de demonstrar plenamente as capacidades do seu país? E o seu papel no cenário mundial?
— A riqueza cultural, a hospitalidade, o potencial agrícola e as indústrias criativas da Nigéria merecem maior atenção. O governo criou o Ministério da Indústria Criativa para apoiar esse setor.
A indústria cinematográfica nigeriana, Nollywood, é uma das mais produtivas do mundo e ocupa o segundo lugar em volume de produção, atrás apenas de Bollywood. O país também possui uma cultura empreendedora consolidada. Nigerianos com habilidades especializadas atuam em diferentes partes do mundo, incluindo áreas profissionais e técnicas.
A Nigéria conta com um capital humano expressivo, que inclui profissionais da saúde e engenheiros. A mídia estrangeira deveria destacar essa capacidade, assim como a resiliência econômica do país e seus esforços de reforma. O foco não deve recair apenas sobre os desafios, mas também sobre o progresso, as oportunidades e o desenvolvimento.
— Quais são os estereótipos sobre a cultura, a ciência e a educação do seu país que existem atualmente no imaginário coletivo? E como os jornalistas de outros países podem ajudar a dissipá-los?
— A Nigéria frequentemente é associada a doenças, pobreza e insegurança. Embora desafios existam, essa percepção é incompleta. Por vários anos consecutivos, a Nigéria teve a maior economia da África e ainda figura entre as três maiores do continente, ao lado da África do Sul e do Egito.
A Nigéria também é um grande produtor de petróleo e possui forte potencial agrícola. O setor de tecnologia do país está em rápido desenvolvimento, especialmente em fintech e sistemas de pagamento digital. Além disso, o país abriga a maior refinaria de trem único do mundo, com capacidade para processar várias centenas de milhares de barris por dia. Esses avanços têm grande relevância para investidores internacionais e para o setor energético global.
Os jornalistas podem contribuir apresentando um retrato equilibrado e atualizado, que destaque as reformas, os avanços tecnológicos e o dinamismo empreendedor ao lado dos desafios existentes.
— O que é o jornalismo de verdade para você, e há algum meio de comunicação ou personalidade de autoridade inquestionável que poderia citar?
— A cooperação internacional é essencial. Parcerias como a firmada entre a TV BRICS e a Agência de Notícias da Nigéria demonstram como a colaboração pode ajudar a corrigir equívocos e ampliar perspectivas.
Há também espaço para uma cooperação mais aprofundada por meio de intercâmbios de jornalistas, programas conjuntos de formação e iniciativas de capacitação. Na era digital, a colaboração é fundamental para o compartilhamento de boas práticas, padrões profissionais e expertise tecnológica, incluindo o uso responsável da IA.
Um maior engajamento internacional fortalece o entendimento mútuo e eleva a qualidade do discurso midiático global.
— O que é o jornalismo verdadeiro, e há algum meio de comunicação ou personalidade de autoridade inquestionável que você possa citar?
— Identificar um único nome é difícil, pois a credibilidade é moldada pelo contexto e pela perspectiva.
Para mim, o verdadeiro jornalismo é a busca pela verdade e pela justiça. Significa dar voz aos que não têm voz e dar atenção a questões pouco noticiadas.
O jornalismo também deve destacar os avanços positivos que frequentemente passam despercebidos. Na África, por exemplo, as fortes tradições comunitárias, os sistemas de tutoria e a solidariedade social são traços sociais importantes que merecem maior cobertura.
Em última análise, o jornalismo se define pelo compromisso com a verdade, a imparcialidade e a responsabilidade pública.
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