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Da Rússia ao Irã, de Tula a Borujerd: a história russo-iraniana do samovar

Origens do samovar na Rússia

O samovar, que pode ser literalmente traduzido como "autoaquecedor", é uma urna metálica com uma torneira próxima à base. Ela é aquecida e usada para ferver água e preparar chá. Embora sua origem exata seja um pouco obscura, a Rússia de meados do século XVIII é apontada como o contexto tecnológico e cultural de surgimento do samovar. Um exemplo disso é o artigo de Robert Smith, "De onde vem o samovar? (Título original: Whence the Samovar?)", que traça o desenvolvimento dessa ferramenta no contexto da cultura russa do chá.

Segundo a tradição russa de manufatura em metal, a cidade de Tula, que se encontra a sul de Moscou, tornou-se o principal centro de produção de samovares. A primeira fábrica local é frequentemente datada de 1778. Tecnicamente, o samovar é entendido como um dispositivo híbrido que combina características de um instrumento ainda mais antigo, chamado sbitennik. Nos lares russos dos séculos XVIII e XIX, o samovar tornou-se um elemento central de hospitalidade, convívio e do ritual de consumo de chá. Ele não era apenas uma chaleira, mas um símbolo do aconchego doméstico, dos rituais sociais e até mesmo da identidade nacional.

Em termos de design, o samovar tradicional, aquecido a carvão ou lenha, possui uma espécie de "lareira", um cano ou tubo central vertical, em torno do qual a água circula e é aquecida. Sobre ele é colocado um bule com chá concentrado, para que se mantenha quente.

Com o tempo, os samovares se diversificaram, passando a ser feitos de latão, cobre e metal prateado. Alguns exemplares eram decorativos; outros serviam como presentes de casamento ou bens de status. Assim, o samovar passou a representar tanto um objeto de uso cotidiano, como chaleira que se aquecia sozinha, quanto um objeto cultural, para rituais de chá e como símbolo de hospitalidade, família e conforto.

O chá chegou à Rússia no século XVII. Ele era inicialmente considerado uma bebida de luxo ou medicinal. À medida que a demanda cresceu e a produção de samovares aumentou, o consumo de chá tornou-se mais comum na meio social.

No final do século XIX, um grande número de lares russos já utilizava chá e samovares, e o objeto entrou na literatura e na cultura visual como símbolo da vida doméstica. Em conclusão, o samovar está inserido em um contexto russo de inovação tecnológica (aquecimento e metalurgia), ritual social (consumo de chá) e simbolismo de hospitalidade e domesticidade.

O samovar no Irã: adoção e tradição local

Embora o samovar seja mais comumente associado à cultura russa, ele também encontrou amplo uso no Irã, onde se tornou parte do ritual doméstico de consumo de chá (do persa چای, "chay") e de hospitalidade.

Segundo o artigo "From Russia with tea: the journey of the Russian samovar into the Iranian tea-drinking culture & national identity" ("Da Rússia com chá: a jornada do samovar russo na cultura do chá e na identidade nacional do Irã"), o Irã foi um dos países onde o samovar russo deixou uma marca cultural e influenciou os padrões de consumo de chá. No Irã, ele é conhecido como samavar (سماور) e é utilizado tanto em contextos cotidianos quanto cerimoniais.

A introdução do samovar no Irã está ligada aos contatos comerciais, políticos e culturais entre a Rússia e o Irã na primeira metade do século XIX. A cultura iraniana das casas de chá (چای‌خانه, "chaykhaneh") e da hospitalidade doméstica adotou o samovar como elemento central do serviço de chá. Segundo fontes do patrimônio iraniano (Herança Persa, 2018): "Tradicionalmente, o chá é servido a partir de um samovar, um recipiente de fervura originalmente importado da Pérsia a partir da Rússia".

Na cidade iraniana de Borujerd, artesãos passaram a produzir samovares utilizando a tradição local de metalurgia de Varsho-Sazi. Algumas oficinas ainda fabricam samovares artesanais.

O samovar em formato de pote é um dos itens artesanais produzidos por meio da metalurgia Varsho em Borujerd. Os habitantes da cidade são tão dedicados à produção e à preservação de samovares que são reconhecidos como um símbolo local. A tradição Varsho em Borujerd é tão antiga que a cidade é considerada o berço dessa arte no Irã. Em 2019, Borujerd foi oficialmente registrada como a Cidade Nacional do Varsho, e em 2020, as técnicas de fabricação dos samovares Varsho em formato de pote foram incluídas na Lista Nacional do Patrimônio Cultural do país.

Voltando a falar do papel do samovar. No Irã, ele desempenhou, e ainda desempenha, uma função central na hospitalidade doméstica e nos rituais de servir chá. O chá é oferecido com frequência aos convidados, as refeições costumam terminar com chá, e existem casas de chá onde as pessoas se reúnem socialmente. O samovar é fundamental nesses rituais, pois ele mantém a água quente por um longo período de tempo e permite servir água quente e preparar o chá concentrado em um bule colocado sobre ele.

Além disso, os samovares no Irã tornaram-se objetos de artesanato e arte decorativa. Versões ornamentadas da era Qajar ainda existem, e há um museu de samovares que exibe exemplares do Irã, da Rússia e de regiões vizinhas.

Comparação entre os usos no Irã e na Rússia

Existem semelhanças e diferenças entre os usos russo e iraniano do samovar.

Quanto às semelhanças, em ambas as culturas, o samovar está associado ao aquecimento da água para o chá e à facilitação de um ritual social de consumo da bebida. Ele carrega um simbolismo de hospitalidade, convívio, família e conforto.

Enquanto na Rússia o samovar se tornou um símbolo cultural nacional, no Irã ele se tornou parte do ritual doméstico e da arte local.

Além disso, ambos adaptaram o item ao longo do tempo para acompanhar as mudanças tecnológicas: do carvão e da lenha ao óleo, ao gás e à eletricidade. No Irã, por exemplo, são comuns samovares a óleo, a gás ou elétricos.

Quanto às diferenças, pode-se dizer que, na Rússia, o samovar surgiu dentro de uma indústria urbana de metalurgia (notadamente em Tula), e sua disseminação esteve ligada à popularização do chá. No Irã, o samovar foi importado e depois fabricado localmente com desenhos artesanais tradicionalmente persas.

Outra diferença está na cultura russa do chá, fortemente associada ao samovar, com amplo simbolismo social e literário, como em obras de Nikolai Gogol. No Irã, embora a cultura do chá seja profundamente enraizada, o samovar está mais ligado à hospitalidade do que à consagração como um símbolo nacional na literatura, embora possua grande valor artesanal e museológico.

Por fim, em termos de padrões de uso, o design russo tradicional apresenta a "lareira" central aquecida a carvão, o tubo e o bule no topo, enquanto no Irã predominam tecnologias mais recentes (gás, eletricidade) e maior destaque ao aspecto decorativo (como desenhos persas e acabamento prateado).

Significado e observações contemporâneas

A importância histórica do samovar não reside apenas em sua função tecnológica, mas em seu papel como marcador de ritual social: o ato de reunir-se, oferecer chá, hospitalidade e promover a conversa.

Na Rússia, tornou-se quase um ícone da vida doméstica. No Irã, integrou-se à tradição do chá, enriquecida pela arte e pelo artesanato iranianos e incorporada ao ritual de servir a bebida.

Ainda hoje, embora chaleiras elétricas e eletrodomésticos modernos tenham substituído amplamente os samovares tradicionais em muitos contextos, eles continuam sendo apreciados como artefatos culturais, peças decorativas e objetos de museu, e, em alguns lares, seguem sendo usados em ocasiões especiais.

No Irã, oficinas em Borujerd ainda produzem samovares artesanais; na Rússia, Tula permanece sendo reconhecida por sua tradição na fabricação desses utensílios.

O samovar é um exemplo de como um objeto técnico pode se tornar um símbolo cultural e social. Surgido na Rússia no século XVIII como uma urna autoaquecida para o preparo do chá, difundiu-se e encontrou um lugar profundo na vida doméstica e nos rituais sociais russos. A trajetória do samovar até o Irã ilustra como objetos culturais atravessam fronteiras, sendo adotados, adaptados e carregando as sensibilidades artísticas locais, enquanto preservam sua função essencial: aquecer a água para o chá e promover a hospitalidade. Compreender o uso do samovar no Irã enriquece nossa percepção da cultura do chá como um fenômeno transnacional. Mais precisamente, a mesma urna que adorna uma mesa russa pode também estar presente em uma mesa iraniana, onde, embora tenha sido persianizada, continua a ser amplamente utilizada e apreciada.

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