Embaixador do México em Moscou, Eduardo Villegas Mejías: "Nosso objetivo é ampliar a cooperação econômica com a Rússia"
O diplomata mexicano concedeu uma entrevista exclusiva à TV BRICS sobre a cooperação entre os dois países em comércio, cultura, ciência e educação
Eduardo Villegas Mejías é embaixador extraordinário e plenipotenciário do México na Rússia desde 4 de abril de 2022. Doutor em Filosofia, possui ampla experiência nas áreas acadêmica e política.
Entre 2018 a 2022, foi coordenador da Direção de Memória Histórica e Cultural do México. Atuou também como editor independente.
— Como o senhor avalia o atual nível das relações entre a Rússia e o México?
— Vale destacar que, em 2025, celebramos os 135 anos do estabelecimento das relações entre Rússia e México, um ano importante para fortalecer a cooperação.
Falando sobre os vínculos bilaterais, eu os classificaria como sólidos e duradouros. Houve períodos em que as relações entre os dois países foram tensas: durante a era soviética, inclusive, chegou a haver uma suspensão nas relações diplomáticas. No entanto, após a retomada, essa parceria tornou-se mais equilibrada. No campo político, os laços continuam saudáveis, calorosos, baseados no respeito mútuo e na busca de benefícios recíprocos. Esperamos que isso continue assim no futuro.
— O México é um dos principais parceiros comerciais da Rússia na América Latina. Em 2024, o comércio bilateral cresceu. Há perspectivas de expansão?
— Uma das principais missões da Embaixada do México é promover os interesses comerciais e financeiros de ambos os países. Por isso, buscamos anualmente novas formas de expandir essa cooperação comercial de maneira mutuamente benéfica. Contudo, enfrentamos desafios, como a logística complexa e os sistemas de pagamento. Estamos trabalhando para superá-los.
Neste ano, temos dois objetivos principais no campo comercial: apoiar tanto a atuação de empresários russos no México quanto o trabalho da embaixada aqui em Moscou. Mantemos cooperação constante com diversas instituições, como a Câmara de Comércio e Indústria da Rússia, a Câmara de Comércio e Indústria de Moscou, o Centro de Exportação de Moscou, entre outras. Promovemos encontros virtuais e buscamos formas de conectar agentes do mercado mexicano com o contexto russo. Tudo isso com o objetivo de fortalecer os laços comerciais.
É importante reconhecer que o comércio entre nossos países, no momento, é mais vantajoso para a Rússia: ela exporta para o México de três a quatro vezes mais do que importa. Ainda assim, essa situação é positiva para o México, pois estamos adquirindo o que realmente precisamos. Nosso objetivo é ampliar a escala da cooperação econômica e explorar seu potencial em outras áreas.
— Em 2024, Rússia e México assinaram um programa bilateral de cooperação nas áreas de cultura, educação, juventude e esportes. Quais são os primeiros resultados dessa iniciativa?
— Esses acordos têm caráter geral e servem para estabelecer as bases e diretrizes do relacionamento entre os países. A embaixada já está implementando cada um dos aspectos desse acordo. Eles abrem caminho para que instituições mexicanas e russas firmem parcerias mais específicas no futuro.
Um exemplo prático: como resultado desses acordos, a Rossotrudnichestvo oferece anualmente cerca de 35 bolsas de estudo para estudantes mexicanos; número esse que cresce a cada ano.
Isso reflete o interesse mútuo entre as nações. Vários estudantes chegam ao país, e muitas universidades estão envolvidas nesse processo. Hoje, cerca da metade da comunidade mexicana residente na Rússia é composta por estudantes, o que mostra a importância desses programas.
— O ensino superior na Rússia é atrativo para os estudantes mexicanos? Quais áreas têm maior demanda?
— Na era soviética, o foco principal era a economia. Embora essa área ainda desperte bastante interesse, hoje os estudantes mexicanos também se dedicam a outras áreas.
A medicina, por exemplo, é bastante procurada, pois é fundamental que os jovens estudem esse campo e possam contribuir com o sistema de saúde. Além disso, áreas como tecnologia da informação, relações internacionais e estudos regionais sobre a Rússia também têm despertado interesse.
— Os russos demonstram interesse pela cultura mexicana? E os mexicanos pela cultura russa? Há necessidade de mais eventos conjuntos nessa área?
— Sem dúvida, o interesse cultural é forte de ambos os lados. Compartilho uma história pessoal: meu falecido irmão era pianista, e em seu recital de formatura no conservatório, no México, ele interpretou o Concerto nº 3 para piano e orquestra de Serguei Rachmaninoff. Isso mostra o quanto os mexicanos apreciam a cultura russa, especialmente na música clássica. Também há grande interesse pela literatura russa e, claro, pelo balé do Teatro Bolshoi, entre outros aspectos culturais.
Os russos também se interessam muito pela cultura mexicana. Lembro que, em minha primeira visita a Kazan, encontrei uma loja de lembrancinhas com uma estante inteira dedicada a Frida Kahlo: a célebre artista mexicana, muito valorizada em nosso país. Os russos conhecem suas obras, a música mariachi e outras expressões culturais do México.
É verdade que o México é conhecido por suas praias e sol, mas isso não é tudo. Há muitos outros elementos culturais que despertam forte interesse no público russo. No ano passado, por exemplo, trouxemos uma marimba – um instrumento musical de percussão de madeira, semelhante ao xilofone – e gravamos um vídeo com ela próximo ao Kremlin. O vídeo alcançou 2,5 milhões de visualizações na principal plataforma de vídeos da internet.
— Em 2023, físicos mexicanos e russos iniciaram projetos conjuntos em tecnologias nucleares aplicadas à medicina, meio ambiente e ciência dos materiais. Essa colaboração continua? Quais áreas científicas são prioritárias atualmente?
— A cooperação científico-tecnológica é de grande interesse para o México. A física, em particular, desperta muito interesse.
Diversos cientistas mexicanos, como Ana María Cetto, Efraín Chávez e outros, vêm regularmente à Rússia para desenvolver projetos conjuntos. Recentemente, pedi a Efraín Chávez que apresentasse os resultados do seu trabalho de um ano no país. Ele atua em uma área chamada "física de fronteira", ciência voltada a ampliar os limites do conhecimento atual.
Dr. Chávez busca aplicar os conhecimentos científicos de físicos mexicanos e russos em soluções práticas. Ele chegou a me explicar, por exemplo, que suas pesquisas podem contribuir para reduzir os efeitos da radiação cósmica em astronautas. Pesquisas como essa ajudam a encontrar maneiras de resolver esse desafio, e a colaboração com centros de pesquisa russos traz benefícios tanto para o México quanto para a Rússia – e, mais amplamente, para toda a humanidade.
— Na sua opinião, quais áreas da parceria bilateral ainda estão pouco desenvolvidas? Em que os dois países deveriam focar para aprofundar sua cooperação?
— Há várias áreas em que nossa cooperação ainda pode se fortalecer. Acredito que os setores prioritários devem ser medicina e agricultura. Recentemente, um novo campo tem ganhado destaque: a inteligência artificial e sua aplicação prática, embora ainda não saibamos até onde isso nos levará.
Tanto o México quanto a Rússia já têm uma longa trajetória de pesquisa independente nessas áreas. Por isso, qualquer passo adicional em direção à colaboração mútua será fundamental, pois estamos falando de áreas estratégicas para o futuro de nossos países e do planeta.
— Segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores do México, o país acompanha com interesse o desenvolvimento do BRICS. Com quais países do grupo o México mantém relações mais ativas?
— Os Estados Unidos ainda ocupam uma posição privilegiada nas relações internacionais do México. No entanto, o país sempre demonstrou abertura a alternativas e, por isso, mantém boas relações com os países do BRICS.
A China é um parceiro comercial relevante para o México, assim como é para muitos outros países. Também mantemos cooperação com o Brasil, a maior economia da América Latina. E, evidentemente, com a Rússia, que é um parceiro importante do México no grupo BRICS.
— Recentemente, países latino-americanos como Bolívia e Cuba tornaram-se parceiros do BRICS. Que perspectivas você vê para uma eventual aproximação entre o México e o grupo?
— O ex-presidente Andrés Manuel López Obrador e a atual presidente, Claudia Sheinbaum, afirmaram publicamente que, no momento, não há perspectiva concreta de adesão do México ao BRICS. Contudo, reconhecemos que o BRICS, assim como o MIKTA (grupo formado por México, Indonésia, Coreia do Sul, Turquia e Austrália) e outras iniciativas multilaterais, têm papel importante ao representar diferentes visões sobre as relações internacionais.
Quanto mais robustas forem essas organizações, mais ricas serão as relações entre os Estados. Nesse sentido, a existência de associações como o BRICS oferece alternativas valiosas de cooperação internacional para diversos países.
A versão completa da entrevista pode ser conferida aqui.
Fotografia: TV BRICS
DIGITAL WORLD
Centro de Mídia do BRICS+
RUSSO CONTEMPORÂNEO