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Como vai mudar a infraestrutura de transporte do BRICS: novos corredores, hubs e plataforma logística multimodal

Neste material da TV BRICS, você pode ler mais sobre a importância do reequilíbrio das relações comerciais dos países do Sul Global para o desenvolvimento da infraestrutura de transporte

Os chefes de Estado dos países do BRICS reconheceram a importância do uso integrado do transporte para a criação de um sistema sustentável nas nações do grupo ainda na cúpula de Kazan em 2024. Infraestrutura desenvolvida, rotas economicamente eficientes, novas tecnologias e normas devem contribuir para o desenvolvimento dos fluxos comerciais e da mobilidade de pessoas. É justamente com esse objetivo que os países estudam a possibilidade da criação de uma plataforma logística unificada, cuja meta é desenvolver uma logística multimodal entre os países, aprimorar a coordenação e as normas legais. 

Mas quando esse novo sistema pode surgir? Como ele atuará? Que tipos de transporte e quais corredores existentes poderão formar sua base? E por que especialistas falam de um otimismo moderado sobre a integração, além de um complexo compromisso entre ambições e a realidade soberana?

Plataforma logística única

Especialistas afirmam que uma plataforma logística única não significa construir portos, estradas e polos do zero, mas sim utilizar de forma coordenada e eficiente o que já existe. Em tese, esse espaço pode conter informações sobre todas as rotas dos países-membros, tanto de passageiros quanto de cargas. Com base nisso, as empresas podem organizar os melhores percursos em termos de tempo e custo, além de atrair parceiros estrangeiros e criar rotas multimodais que utilizem diferentes tipos de transporte. Além disso, o sistema pode oferecer às empresas de transporte a possibilidade de diversificar os trajetos, evitando a dependência de um único porto ou país. Isso se mostra especialmente útil em situações de congestionamento ou bloqueios em determinadas áreas. Nesse sentido, trata-se mais do compartilhamento de dados e da digitalização do que de uma estrutura física. Segundo Nelly Semionova, especialista em Ciências Políticas e pesquisadora sênior do Departamento de Estudos Econômicos do Instituto Oriental da Academia Russa de Ciências, provavelmente a plataforma não será um centro logístico único no sentido clássico, mas sim uma sobreposição digital e institucional que conecta virtualmente os corredores nacionais e regionais existentes e em desenvolvimento, como a Iniciativa Cinturão e Rota e o corredor Norte-Sul.

"Em sua essência, essa plataforma pode representar um protocolo interoperável de interação, e não uma estrutura monolítica. Seu núcleo é um conjunto de padrões técnicos harmonizados, interfaces digitais [APIs] e regras de troca de dados que permitem que diferentes sistemas nacionais de reserva, rastreamento e despacho aduaneiro 'conversem' entre si", afirma Nelly Semionova, especialista em cooperação energética e de transporte entre Rússia, China, Ásia Central e OCX

Quem compartilha a opinião da especialista russa é o professor associado da Universidade Bernardo O'Higgins, em Santiago do Chile, Erik Escalona Aguilar. Ele acredita que a própria configuração do BRICS — como um fórum que não possui tratado constitutivo, orçamento ou secretariado permanente — favorece naturalmente uma integração gradual, baseada exclusivamente no consenso. Essa lógica também abrange a criação de uma estrutura logística.

"Do ponto de vista da economia e das relações internacionais, o surgimento de uma plataforma logística totalmente centralizada e 'única' para o BRICS parece improvável no futuro imediato; no entanto, um modelo federado, caracterizado por sistemas nacionais e privados interoperáveis e interligados por padrões compartilhados, é concebível e possui uma justificativa político-econômica mais convincente", diz ele.

Ao mesmo tempo, segundo especialistas, a base física do sistema pode não ser constituída por novas vias principais, mas sim por hubs multimodais e pela eliminação de gargalos nos pontos de conexão dos corredores existentes.

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Hubs logísticos

Os hubs logísticos são outro tema em discussão no âmbito do BRICS. Na prática, eles devem ser áreas que abrigam depósitos, centros de embalagem, postos alfandegários, instalações industriais, isto é, toda a infraestrutura necessária para concentrar mercadorias e distribuir o fluxo de cargas.

Atualmente, está sendo considerada a possibilidade de abertura de um terminal de grãos no Egito. A Rússia já é o principal fornecedor de trigo para esse país. Além disso, no futuro, esse hub logístico poderia atender cargas para outros países do continente. Semelhantes polos de transporte poderiam surgir futuramente em outros países-membros.

Regras gerais do jogo

Os responsáveis pela criação da plataforma logística multimodal do BRICS precisarão dedicar uma atenção especial à sua arquitetura, considerada uma das tarefas mais complexas pelos especialistas. Para integrar os fluxos em uma rede única, será fundamental estabelecer regras gerais do dinâmica, destaca a especialista em cooperação de transporte Nelly Semionova.

"A plataforma não deve substituir os sistemas nacionais, mas criar regras gerais para eles: corredores digitais integrados com procedimentos alfandegários simplificados, mecanismos para harmonização de tarifas, plataforma para pagamentos em moedas nacionais e um registro comum de operadores confiáveis. Isso deve funcionar como uma rede federada, em que cada participante mantém o controle sobre sua infraestrutura e dados, mas delega à plataforma as funções de coordenação e garantia do cumprimento dos protocolos comuns", explica Semionova.

Por isso, segundo especialistas, não se deve esperar, nos próximos anos, o surgimento de uma "plataforma de plataformas" capaz de conectar instantaneamente todas as rotas marítimas, ferroviárias e rodoviárias dos países do BRICS. Ainda assim, é provável que surjam projetos-piloto em trechos que conectem logisticamente países específicos do grupo. No mais, parte dos especialistas acredita que a iniciativa possa ter início pelo desenvolvimento de rotas e do transporte marítimo.

"Na prática, a integração logística dentro do BRICS provavelmente terá inicialmente ênfase no transporte marítimo e nos portos, pois são a base dos fluxos comerciais internacionais e constituem um centro natural para a padronização da documentação, transparência e indicadores de eficiência em nível internacional. Depois, prioridade costuma ser dada ao transporte ferroviário, que é crucial para garantir a conectividade dos corredores e a integração do transporte interno", destaca Erik Escalona Aguilar, em entrevista à TV BRICS.

O transporte rodoviário, voltado à entrega da "última milha", e o transporte aéreo, destinado a cargas de alto valor e urgentes, provavelmente serão incorporados à plataforma logística em uma etapa posterior.

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Rota Marítima do Norte

Atualmente, cerca de 90% do comércio mundial ocorre por via marítima. Para os países do BRICS, dada a distância geográfica entre seus membros, esse modal também tem importância decisiva. Nesse contexto, o grupo dispõe de um trunfo estratégico: a Rota Marítima do Norte (RMN), um corredor sob jurisdição russa. O interesse crescente dos países do BRICS por essa via já foi destacado em 2024, impulsionado pelas significativas vantagens econômicas do transporte pelo Oceano Ártico.

A rota conecta o porto livre de gelo de Murmansk, às margens do Mar de Barents, à Baía de Providenia, no Estreito de Bering. No entanto, a Rota Marítima do Norte é frequentemente descrita como uma ponte entre Vladivostok e Murmansk — e, potencialmente, também São Petersburgo. A extensão desse trajeto é de cerca de 14 mil quilômetros, quase duas vezes menor do que a rota pelo Canal de Suez, que soma aproximadamente 23 mil quilômetros. Dessa forma, o corredor garante acesso aos mercados asiáticos, consolidando-se como o caminho marítimo mais curto entre a Europa e a Ásia.

Em 2024, foram transportadas 37,9 milhões de toneladas de cargas pela Rota Marítima do Norte. Mais da metade desse volume correspondeu ao gás natural liquefeito (57,7%), enquanto o petróleo respondeu por outros 21,4%. De acordo com o plano de desenvolvimento da RMN até 2035, esse volume deverá alcançar 220 milhões de toneladas em 10 anos. Ainda assim, especialistas ressaltam que, nesse estágio, os volumes transportados não são o indicador mais importante para o desenvolvimento desse corredor.

"A principal importância da Rota Marítima do Norte para o BRICS não está no volume comercial imediato, que ainda é relativamente pequeno, mas na oferta de uma rota alternativa, mais curta e soberana, que conecta diretamente o Nordeste Asiático à Europa e é controlada predominantemente pela Rússia, reduzindo a dependência das rotas marítimas tradicionais", avalia Semionova.

Além disso, para os países do BRICS, a rota também funciona como um projeto demonstrativo para a criação de uma logística independente, inclusive para cargas estrategicamente sensíveis.

No entanto, o desenvolvimento desse corredor enfrenta limitações. Entre elas estão os riscos ao frágil ecossistema da região, como acidentes, vazamentos de petróleo e poluição sonora.

Corredor Norte–Sul

No que diz respeito ao transporte rodoviário e aos corredores internacionais de transporte, um dos mais relevantes para o BRICS é o corredor Norte–Sul, que já assegura o transporte de cargas da Rússia para Irã, Índia, países do Golfo Pérsico e Sul da Ásia. Esse corredor internacional conecta mais de 10 países e abre perspectivas para a formação de mercados comuns de produtos agroindustriais com países da Ásia, da África e da América Latina, inclusive no âmbito das iniciativas BRICS+ e OCX+ (Organização para Cooperação de Xangai).

No entanto, especialistas destacam que a importância do corredor Norte–Sul vai muito além de uma simples rota comercial, assumindo um papel estratégico e estruturante.

"O Norte–Sul é uma estrutura de integração que estabelece a base material para a transição do comércio de commodities para a formação de cadeias produtivas e logísticas compartilhadas. Seu valor final será definido não pelo volume de trânsito, mas pela capacidade de transformar o eixo geográfico Norte–Sul em um eixo de crescimento econômico e de aproximação política para os países da maioria global que compõem o núcleo do bloco. Sem enfrentar esse desafio, o corredor corre o risco de permanecer um projeto localizado, enquanto sua implementação bem-sucedida pode se tornar um modelo e um catalisador para a criação de todo o sistema de conexões meridionais dentro do BRICS em expansão", explica Semionova.

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Iniciativa Cinturão e Rota

A Iniciativa Cinturão e Rota foi lançada em setembro de 2013 pelo presidente da China, Xi Jinping. Ele propôs integrar rotas comerciais terrestres e marítimas para transportar mercadorias de forma rápida e econômica para países do Sudeste Asiático, Oriente Médio e Europa. Para isso, torna-se necessário aprimorar os corredores comerciais e de transporte existentes e criar novos, conectando mais de 60 países.

No total, mais de 150 países e mais de 30 organizações internacionais assinaram acordos de cooperação no âmbito da iniciativa. Isso impulsiona o crescimento das economias locais, estimula o comércio sustentável e abre novos mercados de oferta e demanda para os países do BRICS, especialmente a Rússia e a China. Além disso, o trabalho conjunto no desenvolvimento do Cinturão e Rota fortalece a associação como um centro alternativo de poder, contribuindo para a formação de um mundo multipolar.

Segundo especialistas, contudo, atualmente a iniciativa representa mais um conjunto de conexões bilaterais entre a China e o resto do mundo, em que a maioria dos participantes atua como elos de trânsito, e não como criadores plenos de valor agregado nas novas cadeias produtivas.

Novos corredores de transporte

Além dos corredores já existentes, os países do BRICS começam a implementar rotas transcontinentais. Por exemplo, o Brasil e a China anunciaram a criação de um corredor transcontinental, ou melhor, trans-Pacífico, ao qual a Rússia também está se conectando. O projeto prevê o desenvolvimento do corredor integrado Brasil – Peru – China. A base desse corredor é uma ferrovia de aproximadamente 500 km, ligando a região fronteiriça entre Brasil e Peru ao porto de Chancay, próximo à capital peruana. A ferrovia deve entrar em operação até 2028, reduzindo em cerca de 10 dias o tempo de transporte dos produtos brasileiros para a Ásia, assim como o tempo das entregas no sentido contrário.

Esse corredor também está conectado aos portos atlânticos do Nordeste brasileiro, que se tornam hubs na área de trânsito comum do BRICS no trajeto Atlântico – Brasil – Pacífico – Ásia-Pacífico. Dessa forma, os setores atlântico e pacífico do projeto estão vinculados à criação de rotas marítimas regulares entre Rússia e Brasil. Vale destacar que, em 2024, o comércio bilateral entre esses dois países atingiu níveis recordes.

Existe também a concepção de um grande corredor transcontinental que vai de Murmansk até o extremo sul da África. Essa proposta foi apresentada pelo arquiteto Ilia Zalivukhin. Segundo o projeto, o desenvolvimento da infraestrutura de transporte do BRICS poderá ganhar um novo pilar por meio de uma rota que conecta a Rota Marítima do Norte, o Irã, os países do Golfo Pérsico e toda a vertical do continente africano.

O principal elemento desse esquema proposto é um túnel multimodal submarino de 50 km entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, na região do Estreito de Ormuz. Esse túnel deve garantir a conexão ferroviária entre o Irã e a Península Arábica. Segundo os idealizadores, ele abrirá um corredor de trânsito pela Arábia Saudita e Omã, com saída para os portos africanos de Jidá e Salalah. No futuro, o corredor poderá ser estendido pelo eixo central da África, alcançando Senegal e África do Sul.

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Perspectivas para o desenvolvimento da infraestrutura de transporte do BRICS

Apesar do número de projetos e propostas promissoras, os especialistas concordam que, atualmente, as conexões de transporte dentro do BRICS são um mosaico de elementos desconexos e pouco coordenados.

"As relações bilaterais historicamente estabelecidas e as cadeias regionais predominam, muitas vezes integradas a fluxos logísticos globais voltados para as direções atlântica e pacífica", explica Nelly Semionova.

Além disso, segundo a especialista, existe um descompasso entre o potencial declarado e a conectividade efetiva. As rotas transcontinentais diretas entre os principais centros econômicos do grupo, como Brasil e Índia, ou África do Sul e China, ainda são pouco desenvolvidas e apresentam menor eficiência econômica em comparação com as tradicionais rotas marítimas pelo Canal de Suez e Canal do Panamá. O desenvolvimento de uma infraestrutura logística unificada para o BRICS enfrenta diversos desafios, como diferenças nas bitolas ferroviárias, incompatibilidades nos padrões de material rodante, além de procedimentos aduaneiros e normas fitossanitárias radicalmente distintos. Esses pontos críticos representam os principais obstáculos a serem superados, e, ao que tudo indica, esse trabalho já está em progresso.

"A declaração dos ministros dos transportes do BRICS reconhece oficialmente iniciativas voltadas para a formação da Aliança Logística Internacional do BRICS, o que é uma evidência pragmática de que o grupo prioriza a integração e a cooperação por meio de uma plataforma que reúne entidades interessadas, tanto governamentais quanto privadas", afirma Erik Escalona Aguilar.

Por isso, nos próximos 10 anos, os especialistas aguardam uma evolução que leve da atual fragmentação de projetos para um sistema mais integrado e coordenado. Os corredores Norte–Sul e a Rota Marítima do Norte, em conjunto com a Iniciativa Cinturão e Rota da China, devem ser os primeiros a se conectarem mutuamente. No entanto, esse processo será gradual e progressivo.

Este artigo é de autoria de Svetlana Khristoforova.

Fotografias: metamorworks, 12963734, Ake Ngiamsanguan, metamorworks, Rost-9D / iStock

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