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24.11.20 15:53
Sociedade

As lentes que capturam a cultura indiana em São Paulo

A fotófraga Elza Cohen se especializou em cobrir eventos culturais da Índia em São Paulo

A fotófraga Elza Cohen se especializou em cobrir eventos culturais da Índia em São Paulo, onde são organizadas a maior parte das festas desse país

Florência Costa

São Paulo sedia a maior parte dos eventos da cultura indiana no Brasil. Afinal, é nesta metrópole que está concentrada a maior parte da comunidade indiana no país. Há um consulado-geral da Índia na cidade, além do Centro Cultural Swami Vivekananda , da Associação dos Indianos de São Paulo e é onde o Bloco Bollywood sai há cinco anos pelas ruas do Centro da cidade. Vários fotógrafos já tiveram a oportunidade de registrar as festas coloridas da comunidade. Mas Elza Cohen é uma das que mais cobre esses eventos indianos.

Nos bastidores de shows de dança ou de apresentações do Diwali (o Festival das Luzes, organizado pela Associação dos Indianos de São Paulo), palestras, workshops de culinária, e outros eventos, Elza Cohen desenvolveu um olhar sensível para cobrir a cultura da Índia no Brasil.

“O que mais me atrai indiana são os contrastes tanto cultural quanto de cores, as texturas, as cerimônias dos festivais e os casamentos”, disse Elza. Ela destaca, entre os eventos que fotografou em São Paulo, os festivais Holi, Onam, Diwali, Durga Puja e os shows de danças Odissi, Kathak, Bharatanatyan e Bollywood.

O primeiro evento que Elza cobriu foi em 2010: a exposição “Urban Manners 2” com diversos artistas contemporâneos da Índia, no Sesc Pompéia. Participaram da exposição artistas indianos que utilizam linguagens tradicionais que também se alinham com as tendências contemporâneas do mundo.

“Meu primeiro contato com a cultura indiana começou ainda nas aulas de história, estudando sobre civilizações antigas na escola. Fiquei fascinada com a Índia e com a sua cultura milenar multifacetada e seus costumes. Ao ler sobre história da arte, me deparei com a arquitetura belíssima dos templos Jainistas, Hindus e Budistas, que para além da espiritualidade são verdadeiras obras de arte. A partir daí comecei a pesquisar sobre a Índia, o período védico, o Império Mughal, os épicos Mahabharata e Ramayana, e as divindades femininas, como Durga, Saraswati, Kali, Shakti, Lakshmi e Parvati, que me fascinam até hoje”, contou a fotógrafa.

Nascida em Minas Gerais, Elza saiu de casa aos 18 anos para morar no Rio de Janeiro, onde trabalhou durante anos no universo da música, da moda e de eventos multiculturais. Elza tem atuado de diversas formas como ativista cultural. Idealizou festivais, dirigiu seu próprio selo na Sony Music, é produtora artística, diretora e curadora de música contemporânea

A fotógrafa lembra que quando saiu de casa para morar sozinha no Rio de Janeiro, em busca de mudanças e novos desafios, a frase que a encorajou a mudar foi: “Você tem que ser o espelho da mudança que está propondo”. Ela foi embora com essa mensagem de Mahatma Gandhi na cabeça. “E até hoje esse conselho me acompanha”, disse.

Ela sempre gostou de clicar com câmera, mas entrou no universo da fotografia como profissional quando foi morar em São Paulo, em 2008. “Comecei fotografando cenas do cotidiano das ruas da cidade, shows de bandas e artistas, lookbooks de pequenas marcas de moda. A partir daí, a fotografia foi virando uma profissão e os trabalhos foram acontecendo naturalmente”, contou. Elza já participou de várias exposições coletivas e fez parte do coletivo artístico Multigraphias, ao lado de artistas e fotógrafos de várias partes do mundo.

“Dessa forma, me reconectei com a Índia num sentido mais amplo. Fui me aprofundando na minha curiosidade sobre a Índia e acabei me deparando com o cinema indiano e sua rica indústria falada em diversas línguas. Os contrastes de antigo e moderno nas artes, na música e na moda me atraem muito. A filosofia de não violência de Gandhi, a filosofia eco-feminista de Vandana Shiva, as poesias de Rabindranath Tagore e de Rupi Kaur, tudo isso me atrai muito”, afirmou.

Ela explica que quando fotografa não se satisfaz apenas o visual. “Quando olho para algo que quero fotografar, penso na textura, na composição, no sentimento, no movimento. Quando fotografo pessoas, quero ir além da imagem, quero saber mais sobre ela, conversar, interagir”, diz.

Além de trabalhos e projetos autorais, ela trabalha como freelancer no eixo Rio – São Paulo em diversos segmentos e formatos da fotografia, como criação de conteúdos audiovisuais para redes sociais de artistas e marcas, books de artistas, ensaios, editoriais, cobertura de eventos culturais etc.

Elza Cohen já cobriu vários shows nacionais e internacionais, espetáculos de teatro, desfiles de moda, além, é claro, dos eventos relacionados à Índia, especialmente os organizados pelo Consulado Geral da Índia em São Paulo e pelo Centro Cultural Swami Vivekananda.

Sua carreira tem um forte componente musical também. Ela participou ativamente de eventos de música do Rio de Janeiro nos anos 90 e 2000, como o Festival SuperDemo e a Zoeira HipHop. “Sempre fui apaixonada por música, cinema, arte contemporânea e arte urbana”, disse.

“Com o SuperDemo, ajudei a revelar muitos artistas como Chico Science e Nação Zumbi, Marcelo D2, O Rappa, Skank, Gabriel O Pensador, Planet Hemp, Pato Fú, Otto, Ultraman, Los Hermanos, Raimundos, Natiruts e outros. Também criei a festa Zoeira HipHop, um marco na história do hip hop do Rio”, contou.

Nesses meses de pandemia, Elza foi obrigada a reinventar sua forma de trabalhar, devido à necessidade de isolamento social, e começou um projeto de fotografia remota por meio das chamadas de vídeo: é o #fotoeAfeto, que consistiu em fotografar a vida em quarentena de mulheres espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, focando em seus sentimentos e aprendizados. Para realizar esse projeto, Elza usou os aplicativos FaceTime e Skype.

“Atualmente estou focada em um projeto autoral de nome provisório, o “Libertas”, que conta a história e trajetórias femininas empoderadas, livres e desconstruídas. A ideia é organizar uma exposição de retratos e instalação em vídeo das falas dessas mulheres em 2021”, disse.

A fotógrafa acalenta um sonho indiano: o de passar um ano no país de Gandhi para cobrir todos os festivais tradicionais e principalmente fotografar as mulheres e seus costumes, das mais tradicionais às mais modernas, de diferentes classes sociais, as rurais e as urbanas, no seu dia-a-dia em casa, no trabalho, nas ruas.

A TV BRICS informa com referência a Beco da India.


Photo: pixabay.com
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