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"BRICS: no espelho dos tempos". Como se desenvolveram as relações entre a Rússia e o Brasil

O 17º episódio do projeto conjunto da TV BRICS e GAUGN é dedicado à história do desenvolvimento das relações entre a Rússia e o Brasil

Na 17ª edição do projeto conjunto da rede internacional TV BRICS e GAUGN (Universidade Acadêmica Estatal de Ciências Humanas) "BRICS: no espelho dos tempos", dedicado à história do desenvolvimento das relações entre a Rússia e o Brasil, conversaremos sobre a história da aproximação entre os dois países com Boris Martynov, Doutor em Ciência Política, Chefe do Departamento de Relações Internacionais e Política Externa Russa da Faculdade de Relações Internacionais do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO) do Ministério das Relações Exteriores da Rússia.

O projeto conjunto da TV BRICS e GAUGN é financiado pelo Ministério da Educação e Ciência da Rússia, no âmbito do projeto federal "Popularização da Ciência e Tecnologia".

Não há dúvida de que a cooperação cultural, econômica e científica entre a Rússia e o Brasil continuará se desenvolvendo ativamente nos próximos anos. Isso será facilitado, entre outras coisas, pela parceria dentro dos marcos do BRICS. Como se originaram os laços entre a Rússia e o Brasil? E quais eventos históricos ao longo do caminho foram decisivos? Conversaremos sobre isso tudo e muito mais aqui em nosso estúdio.

A partir de quando devemos começar a considerar as relações russo-brasileiras?

As relações foram estabelecidas em 1828, seis anos após a independência do Brasil. Como o país foi um império até 1889, em 1828 o imperador russo Nicolau I estabeleceu relações com o Brasil enquanto um país monárquico, já que todos os outros países latino-americanos eram repúblicas. O Brasil era diferente nesse aspecto.

A proximidade real de nossos interesses tornou-se evidente (o que é um fato digno de atenção) na 2ª Conferência de Paz de Haia. Ela foi convocada em 1907 por iniciativa de Nicolau II. As questões tratadas diziam respeito ao fim da corrida armamentista e ao direcionamento dos fundos assim liberados para as necessidades dos países pobres. E aqui se deu, ao que parece, um caso um tanto particular, quando se decidia a composição do Tribunal de Arbitragem Internacional (agora Tribunal Internacional de Justiça das Nações Unidas, também localizado em Haia).

Em 1907, se deu a primeira tentativa de criar-se um tribunal internacional. A Alemanha e a Inglaterra propuseram que o tribunal fosse composto por membros permanentes e irrevogáveis, representantes das grandes potências.

As grandes potências da época são conhecidas: Grã-Bretanha, França, Itália, Rússia, Áustria-Hungria e Japão.

E apenas um representante de uma grande potência, da Rússia, o embaixador russo na França, que então chefiava a delegação russa em Haia, Alexander Ivanovich Nelidov, se opôs a essa estrutura.

A Rússia poderia ter exercido esse direito e permanecido como membro eterno da corte internacional. No entanto, nosso país preferiu seguir a norma da lei internacional, que fixava a igualdade internacional dos Estados.

E é muito interessante que, intervindo na assembleia geral da 2ª Conferência de Haia, o delegado do Brasil tenha declarado que era inadmissível dividir os Estados com base no princípio da força militar, pois isso lançava as bases para uma corrida armamentista, o que contradizia o próprio objetivo daquela conferência.

Essa foi a primeira vez que a Rússia e o Brasil se encontraram do mesmo lado da barricada. E essa foi a base objetiva para o estabelecimento de relações amistosas entre a Rússia e o Brasil.

Em 1917, elas foram interrompidas. Esse foi um período difícil de nossa história. O Comissário do Povo para Relações Exteriores, Georgy Chicherin, propôs uma política que mais tarde seria chamada de coexistência pacífica, cujos princípios eram a não interferência em assuntos internos, a observância da paz, o comércio mútuo e as relações amistosas.

Mas a Internacional Comunista ardia em uma sede pela revolução mundial. Naturalmente, os países latino-americanos se recusaram a seguir essa política, especialmente porque, em 1935, a Internacional Comunista tentou um levante comunista no Brasil, o que também não favorecia a confiança mútua.

As relações só foram retomadas em abril de 1945. O Brasil participou da 2ª Guerra Mundial como parte da coalizão anti-Hitler, e não apenas simbolicamente. Não se limitaram a romper relações com a Alemanha e ficar só nisso. Não, em 1944 o Brasil enviou seu corpo expedicionário para o teatro de guerra europeu. 25.000 homens. Era pouco? Claro que era pouco, mas era a primeira vez que um país latino-americano enviava tropas para lutar na Europa.

Eles lutaram com sucesso, a aviação brasileira combateu, assim como os artilheiros, os pilotos de tanques. A propósito, no Rio de Janeiro há um monumento aos pilotos, soldados de infantaria e marinheiros, feito pelo famoso escultor Oscar Niemeyer. Sua memória é honrada.

Os brasileiros faziam a escolta de navios no Atlântico Sul, afundando, segundo várias estimativas, mais de dez submarinos italianos e alemães.

O Brasil também fornecia matérias-primas estratégicas.

Mas em 1947, as relações foram interrompidas, por iniciativa do lado brasileiro.

Por quê?

Era o auge da Guerra Fria.

A Perestroika, o colapso da URSS - como isso afetou as relações?

Foram fortemente afetadas porque, durante muito tempo, o Brasil soube aproveitar as contradições entre os dois polos durante a Guerra Fria, e obter várias vantagens para si, de ambos os lados.

Não havia nada que os americanos pudessem fazer a respeito - caso contrário, o Brasil poderia se voltar para a União Soviética. E os EUA não estavam nem um pouco interessados nisso.

O mesmo aconteceu com a América Latina: toda a América Latina seguia a mesma linha.

Após o colapso da URSS, a América Latina se viu novamente sozinha com os EUA, como no século XIX. Não havia mais ninguém em quem se apoiar, a possibilidade de manobra ficou muito reduzida.

É por isso que os brasileiros lamentaram o colapso da URSS: eu me encontrava no Brasil em 1990, e tive a chance de conversar com pessoas ligadas ao governo e com professores - todos eles, mesmo aqueles que eram anticomunistas, estavam francamente insatisfeitos com o colapso da União Soviética.

O Brasil começou a se sentir como uma grande potência em ascensão a partir da década de 1950, quando começou a industrialização no país. E isso não foi por acaso: um enorme território, uma população enorme, um desenvolvimento industrial muito rápido e dinâmico.

O país passou de agrário para agroindustrial, e depois para industrial-agrário. A propósito, o Brasil, hoje, é a sétima maior economia do mundo. Ou seja, a autoconsciência política e social dos brasileiros começou a crescer.

Sobre os dias de hoje, vejam: nosso último conceito de política externa é que a Rússia é um país-civilização. E a China é um país-civilização, e a Índia e o Brasil também são. Em outras palavras, se trata da formação de um mundo multipolar, do qual falamos muito, mas não concretizamos. E já está na hora.

Não se trata apenas um mundo multipolar, mas de um mundo multi-civilizacional. São muitas, várias culturas que existem em pé de igualdade. Ninguém força ninguém a nada, ninguém impõe seus estereótipos culturais ou políticos - nada disso.

Esse é exatamente o mesmo princípio de igualdade de direitos, mas levado a horizontes mais amplos, que o Brasil e a Rússia defenderam juntos em 1907, na 2ª Conferência de Haia.

Além de ser membro do BRICS e do Mercosul, o Brasil também deseja, desde 1945, tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.

Para o mundo, o que isso irá mudar?

Será bom, acima de tudo, porque a América Latina, como tal, é de fato o continente mais pacífico, se começamos a analisar. É o continente mais pacífico do nosso planeta.

O Brasil foi o país que iniciou o processo de tornar a América Latina a primeira zona livre de armas de destruição em massa do mundo.

Os brasileiros, em 1911, foram os primeiros a realizar reduções reais nos armamentos navais. Nas relações com a Argentina, por exemplo, foram realizados acordos em que ambos os lados abriam mão dos navios de guerra adicionais que planejavam adquirir.

E isso enquanto o resto do mundo estava estocando armamentos, às vésperas da 1ª Guerra Mundial.

Os brasileiros declararam o Atlântico Sul uma zona de paz e cooperação.

Em todas as conferências internacionais, começando pela própria Conferência de Haia, os brasileiros defenderam os princípios tradicionais do direito internacional: igualdade, soberania, não-interferência, solução pacífica de controvérsias, enfim.

Infelizmente, o Brasil e a América Latina como um todo não estão apenas geograficamente distantes da Europa, onde a política mundial é feita.

Portanto, muitas coisas permanecem fora de nossa atenção. Por exemplo, o Brasil resolveu pacificamente todas as suas disputas territoriais. Isso deveria ser registrado no Livro Guinness dos Recordes.

O Brasil compartilha fronteiras com todos os países da América Latina, exceto Chile e Equador. E houve disputas com todos eles, e não apenas na América Latina, houve disputas também com a Guiana Francesa e com a Guiana Britânica (atual Guiana, mas que na época era colônia britânica). De forma pacífica, o Brasil conseguiu anexar um território quase do tamanho da França. É um recorde. Mas poucas pessoas sabem disso.

Poucas pessoas sabem sobre esse diplomata tão notável da América Latina - o Barão do Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos). Ele foi ministro das Relações Exteriores do Brasil de 1902 a 1912, e foi sob sua liderança que todas essas disputas foram resolvidas.

Então, aí está. Precisamos expandir nossa visão de mundo, torná-la mais relevante historicamente e mais estereoscópica.

Fotografia: IStock
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