Países do Sul Global apresentam estratégias para nova arquitetura de cibersegurança
Participantes apontam a ONU e o BRICS como as principais plataformas de estabilidade estratégica no ambiente digital
Os novos desafios e as medidas conjuntas para enfrentar as ameaças cibernéticas foram alguns dos temas debatidos na sessão "Cooperação Internacional no Campo da Segurança da Informação", durante o Fórum Internacional de Segurança, realizado na região de Moscou. Apresentaram relatórios representantes de Rússia, Brasil, Tailândia, Indonésia, Egito e Zimbábue.
Foto: TV BRICS
O vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Aleksandr Alimov, chamou atenção para a necessidade de desenvolver normas juridicamente vinculantes claras no campo da segurança internacional da informação. Segundo ele, as regras de conduta voluntárias adotadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) na década passada já não são suficientes hoje.
"Temos certeza de que a única forma de tornar o espaço informacional mais estável, seguro e previsível é a cooperação internacional. Nenhum país é capaz de enfrentar sozinho as ameaças transfronteiriças de tecnologias da informação e comunicação. É necessário desenvolver regras de jogo comuns a todos, que guiem as ações dos Estados e de suas empresas no âmbito digital. [...] O primeiro passo nessa direção já foi dado com a adoção, em dezembro de 2024, pela Assembleia Geral da ONU, e a assinatura, em outubro de 2025, da Convenção da ONU contra o Crime Cibernético, elaborada por uma proposta da Rússia. Esse é o primeiro tratado universal no campo da segurança internacional da informação. O documento foi assinado por 75 países. Convocamos todos os países a assinar e ratificar essa Convenção"![]()
Aleksandr Alimov Vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia
Foto: TV BRICS
No futuro, a Rússia pretende iniciar o trabalho sobre um protocolo adicional à Convenção para ampliar o escopo das ações ilícitas abrangidas. Alimov também lembrou o Registro Global Intergovernamental de Pontos de Contato para troca de informações sobre ataques e incidentes cibernéticos. Ele foi criado em 2024 sob os auspícios da ONU por iniciativa da Rússia. Trata-se de um serviço de balcão único para diplomatas e especialistas técnicos dos países participantes, com o objetivo de estabelecer comunicação ágil e apurar as fontes e circunstâncias dos ataques cibernéticos. Atualmente, mais de 120 nações fazem parte do registro.
O secretário-executivo do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência do Brasil, Washington Rocha Triani, deu continuidade ao raciocínio do diplomata russo e declarou a necessidade de uma transformação urgente nas abordagens à segurança global da informação.
"A evolução da inteligência artificial, que se transformou de ferramenta funcional em agente atacante autônomo, coloca diante de nós uma tarefa urgente: precisamos criar um mecanismo de governança global para definir normas de comportamento responsável e mecanismos claros de responsabilização no ciberespaço. [...] O Brasil reafirma seu compromisso com a ampliação da cooperação multilateral, especialmente no âmbito do BRICS, voltada para a redução das ameaças cibernéticas e a diminuição da desigualdade tecnológica"![]()
Washington Rocha Triani Secretário-executivo do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência do Brasil
Um dos principais desafios apontados pelo palestrante foi a aproximação da era quântica, quando a tática de "coletar informações agora para decifrá-las depois" coloca em risco segredos de Estado. Nesse contexto, o Brasil insiste na adoção urgente de padrões globais de criptografia.
"É extremamente importante que adotemos padrões globais para algoritmos de criptografia pós-quântica. Para países como o Brasil, essas ações devem ser equilibradas com a busca pela soberania digital. [...] Por isso, propomos uma estratégia de neutralidade ativa, caracterizada pela diversificação de fornecedores e pela implementação de garantias contratuais rigorosas, como auditoria algorítmica e localização de dados", disse Rocha Triani.
O representante brasileiro também destacou a necessidade de tratar a governança da informação espacial como uma extensão da soberania digital.
"A digitalização dos sistemas espaciais os tornou mais vulneráveis a ameaças cibernéticas. [...] Satélites e linhas de comunicação são vulneráveis a agentes mal-intencionados que buscam manipular dados e perturbar seu funcionamento. [...] Operações transparentes e regras claras sobre o armazenamento e uso de dados espaciais são fundamentais para fortalecer a confiança entre os países", ressaltou ele.
Foto: TV BRICS
A secretária-geral adjunta da Agência Nacional de Cibersegurança da Tailândia (NSCA), Waraphorn Promwikon, apresentou um relatório sobre o combate a fraudes, os desafios atuais e as medidas voltadas para garantir um futuro digital seguro.
Ela informou sobre a aprovação, em agosto de 2025, do plano nacional de resposta a incidentes cibernéticos e a realização de exercícios com a participação de mais de mil pessoas. No âmbito do plano quinquenal (2022–2027), foram definidas quatro estratégias: formação de capacidade nacional em cibersegurança (pessoal, tecnologia, inovação), integração de esforços internos e internacionais, garantia da resiliência dos serviços públicos e da infraestrutura crítica, e fortalecimento da capacidade dos órgãos para o cumprimento de padrões de qualidade. Ela destacou que o número de ataques cibernéticos no país caiu de 215 em 2024 para 27 em 2025. A principal conquista foi o avanço no Índice Global de Cibersegurança, em que a Tailândia subiu da 45ª para a 7ª posição. Os planos do país incluem uma nova versão da lei de cibersegurança e a formação de profissionais na área.
Foto: TV BRICS
O diretor de estratégia da Agência de Cibersegurança e Criptografia da Indonésia (BSSN, na sigla em inglês), Sigit Kurniawan, destacou o compromisso do país com uma cooperação igualitária no ciberespaço. Jacarta propõe unir os esforços de governos, empresas, companhias tecnológicas e sociedade civil para coordenar os procedimentos de interação e compartilhamento de informações em incidentes cibernéticos.
"A Indonésia está convicta de que a cooperação internacional deve ser baseada no princípio da igualdade soberana dos Estados. O ciberespaço não deve se tornar um campo de batalha. Deve possuir qualidades que beneficiem todos os Estados e povos. [...] Por isso, o fortalecimento de capacidades é uma de nossas prioridades estratégicas. [...] Enfatizamos a importância do direito internacional, incluindo os princípios estabelecidos na Carta da ONU: respeito à soberania, à igualdade, à integridade territorial e à não ingerência nos assuntos internos de outros Estados. [...] E apoiamos a ONU como principal plataforma para as discussões em cibersegurança. Saúdo as conquistas de todos os grupos de trabalho e a criação de mecanismos inclusivos no âmbito da ONU"![]()
Sigit Kurniawan Diretor de estratégia da Agência de Cibersegurança e Criptografia da Indonésia (BSSN)
O chefe do comitê de combate ao crime cibernético no departamento de cooperação internacional do Ministério da Justiça do Egito, Mohammad Elzend, falou sobre o papel da Convenção da ONU no combate ao crime cibernético.
No âmbito da implementação da Convenção, o Egito deu início à criação do Centro Egípcio-Africano de Prevenção e Combate ao Crime Cibernético. O centro está sendo criado em colaboração com o Escritório da ONU (UNODC) e tem como objetivo tornar-se uma plataforma regional única para o fortalecimento de capacidades e apoio técnico aos países africanos, compartilhamento de boas práticas e instrumentos jurídicos, e coordenação de esforços regionais em cibersegurança.
Além disso, no Egito, com base na Convenção, já funciona o Comitê Nacional de Combate ao Crime, uma plataforma unificada que reúne o Ministério do Interior, o Ministério Público, o Ministério da Justiça, os serviços de inteligência e os reguladores de mídia.
"Assinar a Convenção não é suficiente. Primeiro, é preciso ratificá-la e, segundo, é preciso cumpri-la. E isso deve ser feito com a real intenção de construir as pontes entre os países que permitirão usar esta Convenção como pedra angular da busca por justiça no combate ao crime cibernético. [...] A cooperação internacional não pode ser eficaz sem coordenação no nível nacional. A coordenação nacional é algo fundamental"![]()
Mohammad Elzend Chefe do comitê de combate ao crime cibernético no departamento de cooperação internacional do Ministério da Justiça do Egito
A segunda parte da sessão ocorreu em formato fechado e foi dedicada ao rápido desenvolvimento da inteligência artificial, bem como aos aspectos técnicos da segurança da informação.
Como observou em um comentário exclusivo à TV BRICS o diretor-geral da organização autônoma sem fins lucrativos "Diálogo", Vladimir Tabak, a informação não tem fronteiras, vistos ou passaportes e, por isso, é impossível isolar o espaço informacional nacional.
"Para formar um espaço informacional seguro, é preciso primeiro definir as regras; e hoje elas não existem. Falamos muito sobre guerras de informação. Na ONU, por exemplo, comissões se reúnem regularmente para discutir a conformidade de determinadas ações [...] com a Convenção de Genebra ou com a Carta da ONU. Mas não falamos sobre isso no contexto da 'informação'. E deveríamos, porque hoje a influência informacional é colossal em todas as esferas: a capitalização das empresas pode desabar ou, ao contrário, disparar por causa da informação, das notícias. [...] Há um grande segmento ligado à atividade criminosa que se realiza na internet. [...] Por isso, as plataformas também devem sentir essa responsabilidade", destacou ele.
A segunda parte da sessão ocorreu em formato fechado e foi dedicada ao rápido desenvolvimento da inteligência artificial, bem como aos aspectos técnicos da segurança da informação.
O Fórum Internacional de Segurança segue até o dia 29 de maio.
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