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19.12.25 23:00
Sociedade

Cidades inteligentes: como a tecnologia e a ecologia estão moldando o ambiente urbano do futuro

Como os países do BRICS estão desenvolvendo o conceito de cidades inteligentes diante das mudanças climáticas, da transformação digital e do crescimento das metrópoles — confira no material da TV BRICS

As mudanças climáticas e a urbanização acelerada exigem uma revisão dos modelos tradicionais de desenvolvimento urbano. De acordo com especialistas, hoje existem mais de 100 cidades no mundo onde até 70% do fornecimento de energia é proveniente de fontes renováveis. O conceito de cidade inteligente se torna uma das principais ferramentas para a adaptação das metrópoles aos novos desafios sociais, ecológicos e tecnológicos.

Crescimento da urbanização e riscos climáticos

Os processos de urbanização seguem em ritmo crescente. Há cerca de 100 anos, aproximadamente 80% da população mundial vivia em áreas rurais, mas no início do século XXI, segundo dados da ONU, o número de habitantes urbanos superou o de habitantes rurais. Acredita-se que, até 2050, esse índice pode chegar a 66-68%.

As cidades concentram a maior parte da atividade econômica, mas também se tornam fontes significativas de impacto ambiental. De acordo com a ONU, as áreas urbanizadas são responsáveis por cerca de 70% das emissões globais de dióxido de carbono. Mais da metade das cidades do mundo já enfrentam as consequências de fenômenos climáticos extremos, como inundações, incêndios florestais e temperaturas anormais. Nesse contexto, o desenvolvimento de sistemas urbanos sustentáveis se torna uma prioridade para a comunidade internacional.

Cidades inteligentes na agenda dos países do BRICS

A resposta aos desafios ambientais e de infraestrutura foi o desenvolvimento do conceito de cidades inteligentes. A cooperação entre os países do BRICS nesse setor foi iniciada em 2016, durante uma conferência em Jaipur, Índia. Desde então, o tema permanece uma das principais áreas de parceria inovadora e tecnológica do grupo.

"Os países do BRICS+ conseguem cooperar aproveitando as diferenças no nível de urbanização. Em países altamente urbanizados, como o Brasil e a Rússia, estão sendo desenvolvidas e implementadas soluções para a modernização de sistemas inteligentes de serviços públicos e redes de transporte complexas. Por exemplo, no Rio de Janeiro, está em andamento o projeto 'Rio AI City', que utiliza IA para analisar dados do desenvolvimento urbano e mapear áreas, enquanto Moscou aplica IA para gerenciar o tráfego e a eficiência energética, incluindo serviços digitais para os cidadãos. A cooperação também é apoiada pela criação da Associação de Cidades e Municípios dos Países do BRICS+ e o projeto 'Shared City'. Graças a isso, está sendo formada uma biblioteca comum de práticas aplicáveis a diferentes cenários de desenvolvimento urbano", destacou Antonina Gomulina, professora sênior do Departamento de Economia Global e Estatísticas da Universidade Estatal de Iaroslavl Demidov.

A abordagem do BRICS foca no uso de soluções digitais que consideram os interesses dos habitantes das cidades. Essa posição foi formulada pela ex-diretora-geral da Agência de Desenvolvimento Digital de Dubai, Aisha Bin Bishr, no fórum "Cloud Cities".

"As tecnologias, por si mesmas, não tornam o ambiente melhor. Portanto, o principal objetivo de cada cidade deve ser seus moradores, sua confiança e senso de pertencimento. Foi assim que o conceito de cidade inteligente evoluiu nos últimos 10 anos"
Aisha Bin Bishr

Aisha Bin Bishr Ex-diretora-geral da Agência de Desenvolvimento Digital de Dubai

Inteligência artificial como base da transformação digital

O termo "cidade inteligente" apareceu pela primeira vez nas discussões científicas em 1994, mas sua implementação prática só foi possível com o desenvolvimento das tecnologias digitais e da inteligência artificial. Hoje, a IA é vista como a chave para aumentar a eficiência dos sistemas urbanos.

A China tem aplicado ativamente IA em infraestrutura de transporte, saúde e segurança. Em Pequim, o uso de soluções inteligentes reduziu os congestionamentos em 20% e diminuiu o número de acidentes. Em Xangai, foram implementados serviços de telemedicina, e em Guangzhou, a IA é usada para monitorar fluxos de vídeo e reduzir a criminalidade. Até 2030, o governo chinês planeja implantar sistemas de energia inteligente em 60% das cidades do país.

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A Índia, com o uso de IA, implementa o programa "100 Cidades Inteligentes", enquanto o Brasil está projetando a construção de um campus de gigawatt com data centers. A Rússia aplica IA em transporte, saúde, serviços públicos e segurança. O mercado de IA na África do Sul está crescendo rapidamente e, até 2030, espera-se que sua capacidade financeira ultrapasse US$ 8,4 bilhões (cerca de R$ 46 bilhões).

A principal dificuldade para integrar as experiências de diferentes cidades no desenvolvimento comum, segundo os especialistas, está em superar a assimetria tecnológica.

"Há o risco de que a cooperação entre os países se restrinja a uma importação unilateral de soluções prontas, em vez de promover o desenvolvimento conjunto de competências. O principal obstáculo é a falta de padrões comuns sobre soberania de dados e cibersegurança, o que é especialmente importante na implementação de sistemas de reconhecimento e controle. Ao mesmo tempo, essas diferenças naturais — no nível de urbanização, na economia e na regulação — podem ser transformadas em um motor para a criação de modelos de 'cidades inteligentes' mais flexíveis, adaptáveis e centrados no ser humano. Tais soluções não serão apenas demandadas dentro do BRICS+, mas também aplicáveis em uma escala global", afirmou Gomulina.

Especialistas preveem que as cidades do futuro funcionarão em dois níveis interconectados: o físico, com espaços públicos, infraestrutura cultural e a vida cotidiana urbana; e o digital, integrado a todos os processos-chave de gestão e serviços das metrópoles.

"A cidade do futuro é formada por sensores, câmeras, algoritmos e serviços que usamos diariamente. Agendamos consultas médicas pelo celular, verificamos o horário do ônibus em tempo real ou obtemos certidões on-line. Mas por trás dessa conveniência, existe uma grande infraestrutura, que integra sistemas de IA e até a Internet das Coisas", comentou um dos principais especialistas russos em centros de dados, Aleksei Rubakov.

Moscou como exemplo de metrópole digital

O conceito de cidade inteligente se baseia em três elementos-chave: tecnologia, ecologia e seres humanos. Dentro da cooperação do BRICS, a troca de experiências e a implementação de soluções digitais comprovadas têm recebido atenção especial.

Moscou, nesse contexto, pode ser considerada um dos exemplos mais notáveis de transformação digital. Em 2022, a ONU incluiu a capital russa no ranking global "Índice de Prosperidade Urbana".

"As cidades inteligentes passam por uma fase natural de amadurecimento. Após a acumulação de inteligência, vem a sabedoria. A cidade sábia implementa tecnologias não por causa das tecnologias em si, mas de maneira consciente, criando uma nova qualidade de vida. Em Moscou, vemos tanto os resultados quanto os efeitos da implementação das tecnologias, e estamos prontos para compartilhar essa experiência com outras cidades do mundo", afirmou Dmitri Ontoev, conselheiro do Departamento de Tecnologia da Informação de Moscou.

Desde mais de dez anos, Moscou tem implementado intencionalmente as tecnologias mais avançadas em todos os aspectos da vida urbana. Hoje, é possível acessar mais de 200 serviços digitais na cidade, e centenas de milhares de câmeras tornam as ruas e estradas mais seguras. A transformação digital da capital russa abrange áreas como saúde, serviços on-line, gestão de cidade, Internet das Coisas, Big Data, entre outras.

"Se olharmos objetivamente para o ranking das cidades inteligentes com base nos dados mais recentes do Smart City Index [IMD], Moscou realmente é a líder na Rússia. E eu concordo que, do ponto de vista global, sua posição é forte, mas não dominante. [...] Moscou ainda tem áreas a melhorar, não apenas nos módulos digitais, mas também na integração profunda das tecnologias com a economia e as práticas sociais do dia a dia", afirmou Lilia Aleeva, especialista em economia digital.

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Vetores ecológicos de desenvolvimento

De acordo com especialistas, as cidades ocupam apenas de 1% a 3% da superfície da Terra, mas são responsáveis por até 80% da poluição ambiental. Em resposta a isso, novas cidades inteligentes estão sendo projetadas com foco nos ecossistemas naturais.

Um claro exemplo: a cidade indiana de Amaravati, que está sendo construída do zero como um centro administrativo e tecnológico. O projeto prevê que mais de 60% de sua área seja destinada a espaços verdes, corpos d'água e zonas recreativas naturais. Esse modelo urbano tem como objetivo não apenas melhorar a situação ecológica, mas também criar um ambiente urbano confortável, adaptado às características climáticas da região.

Na China, a transformação ecológica é exemplificada pela cidade Tianjin Eco-City, construída em uma área anteriormente imprópria para habitação. Hoje, a cidade funciona como uma plataforma experimental para a implementação de tecnologias sustentáveis, com soluções de energia de baixo carbono, rigoroso controle ambiental e grande parte da infraestrutura voltada para a redução de emissões e uso racional de recursos.

Nos Emirados Árabes Unidos, o eco-centro Masdar adota padrões de eficiência energética e hídrica que permitem reduzir o consumo de recursos em quase 40% em comparação com construções tradicionais. A integração de sistemas inteligentes de gestão e o uso de fontes de energia renováveis desempenham um papel essencial neste processo, especialmente em um clima árido.

De forma semelhante, o novo projeto da cidade de Nusaantara na Indonésia será uma megacidade florestal inteligente, com 75% de sua área dedicada a florestas e zonas verdes. Seu sistema energético será baseado em fontes renováveis, e o conceito de desenvolvimento visa minimizar o impacto ambiental e adaptar a cidade aos riscos climáticos, como o aumento do nível do mar e fenômenos climáticos extremos.

Perspectivas de desenvolvimento

Especialistas afirmam que as cidades inteligentes não apenas deixarão de prejudicar o meio ambiente, mas também contribuirão para a recuperação de sistemas naturais perdidos, transformando áreas industriais em parques. Nesse cenário, espera-se que os carros pessoais se tornem uma raridade, substituídos por táxis autônomos, drones e transporte público robotizado movido a energia limpa. Em uma "cidade compacta", nada mais será necessário.

O artigo é de autoria de Igor Severguin.

Fotografia: chombosan, choi dongsu, peshkov / iStock

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