Tecnologias agrícolas do futuro: automação da agricultura nos países do Sul Global
Como a digitalização e a IA estão transformando o mercado agrícola global? Quem controlará a nova infraestrutura do setor: os produtores de alimentos ou os detentores de dados e plataformas digitais? Leia na reportagem da TV BRICS
A agricultura está se tornando uma das principais áreas de transformação tecnológica nos países do Sul Global. O crescimento populacional, as mudanças climáticas, a escassez de recursos naturais e a necessidade de aumentar a eficiência da produção aceleram a adoção de tecnologias digitais, inteligência artificial e sistemas automatizados. Essas soluções contribuem para elevar a produtividade, utilizar os recursos de forma mais racional e aperfeiçoar a gestão da produção agrícola.
Em junho de 2026, a Índia sediou uma reunião dos ministros da Agricultura dos países do BRICS, um dos principais fóruns internacionais de discussão sobre a futura arquitetura do sistema alimentar global. A agenda das negociações incluiu temas como segurança alimentar, agricultura resiliente ao clima, agricultura digital, inteligência artificial, aprendizado de máquina, robotização e inovações tecnológicas no setor agrícola.
Segundo o governo indiano, os países do BRICS concentram cerca de 42% das terras agrícolas do mundo. Nesse contexto, a digitalização deixa de ser um elemento de modernização pontual e passa a atuar como um fator de transformação do mercado alimentar global.
Foto: PRASANNAPiX /
iStock
No entanto, a transição para um novo modelo de produção agrícola não é impulsionada apenas por ambições tecnológicas, mas também pela crescente pressão estrutural sobre a agricultura tradicional. O aumento da população amplia a demanda sobre os sistemas alimentares, enquanto as possibilidades de expansão extensiva da produção são limitadas pela escassez de água, terras e recursos produtivos.
As mudanças climáticas constituem outro fator relevante. O aumento da frequência de secas, inundações e anomalias de temperatura torna a produtividade menos previsível e intensifica a volatilidade dos mercados agrícolas. Em muitas regiões, os fenômenos meteorológicos extremos se tornam cada vez mais recorrentes, o que exige novas abordagens para a gestão da agricultura.
Em conjunto, esses processos ampliam a distância entre as capacidades físicas da agricultura tradicional e a estrutura da demanda global. Os modelos convencionais de desenvolvimento são gradualmente complementados por soluções tecnológicas que permitem utilizar os recursos disponíveis de forma mais eficiente. Nesse cenário, a transformação tecnológica deixa de ser apenas um instrumento de modernização e se torna uma das principais condições para a preservação da estabilidade alimentar.
Digitalização como infraestrutura da economia agrícola
A digitalização cria a camada básica de infraestrutura para a transformação do setor agrícola, na qual os dados se tornam um recurso produtivo por si só. Informações sobre solos, clima, umidade, produtividade e logística passam a fundamentar a tomada de decisões. Dessa forma, a agricultura migra gradualmente de um modelo empírico para um sistema de gestão baseado em análise e previsão. Os serviços digitais e as ferramentas analíticas tornam-se componentes importantes da geração de valor agregado, ao lado da produção tradicional.
Segundo Mikhail Khachaturian, doutor em Economia e professor associado do Departamento de Desenvolvimento Estratégico e Inovador da Universidade Financeira do Governo da Rússia, a digitalização está modificando gradualmente a própria estrutura de formação de valor agregado no setor agrícola.
"Os sistemas de internet das coisas e os sensores permitem controlar com maior precisão o uso da água e dos fertilizantes, o que reduz os custos e aumenta a produtividade. Isso eleva o valor agregado por meio de uma utilização mais eficiente dos recursos"![]()
Mikhail Khatchaturian Especialista em economia dos países do BRICS, OCX e ASEAN
De acordo com Khachaturian, as plataformas digitais também estão transformando a logística e a infraestrutura financeira da agricultura.
As estratégias nacionais dos principais países do BRICS incluem a criação de uma infraestrutura agrícola digital como elemento de estabilidade econômica e segurança alimentar. O plano chinês de desenvolvimento da agricultura inteligente, previsto até 2028, contempla a criação de uma plataforma nacional de big data, um mapa unificado das terras agrícolas e modelos básicos de inteligência artificial com propriedade intelectual própria. Dessa forma, está sendo estruturado um sistema centralizado de gestão digital do setor agrícola.
No âmbito da Digital Agriculture Mission, a Índia desenvolve a plataforma AgriStack, um sistema que reúne identificadores digitais de agricultores, registros fundiários digitais e ferramentas de monitoramento geoespacial da agricultura. Segundo materiais do governo, a plataforma deverá integrar dados sobre terras, produtividade, crédito e seguros em uma arquitetura digital unificada para o setor agrícola.
Paralelamente, os países do BRICS integram ferramentas digitais aos mecanismos de seguro agrícola e gestão de riscos. Na Índia, programas governamentais utilizam dados de satélites, drones e tecnologias de sensoriamento remoto para avaliar danos, monitorar as condições das lavouras e acelerar o pagamento das indenizações aos segurados. Como resultado, a infraestrutura digital deixa gradualmente de ser um elemento auxiliar e passa a constituir a base sistêmica da economia agrícola.
Foto: Crovik Media /
iStock
Automação como transição para gestão algorítmica
Enquanto a infraestrutura digital permite coletar e integrar informações, os sistemas automatizados passam a utilizá-las para coordenar os processos produtivos em tempo real. Os algoritmos ajudam a otimizar a distribuição de recursos, prever a produtividade, considerar os riscos climáticos e aumentar a eficiência das decisões produtivas.
As tecnologias de agricultura de precisão conduzem o setor de um modelo reativo para um sistema de monitoramento e previsão contínuos. Drones, sensores e sistemas de satélite permitem aplicar fertilizantes de maneira diferenciada, controlar as condições dos solos e identificar rapidamente possíveis ameaças, reduzindo custos e diminuindo o impacto ambiental.
"A robotização e a automação dos processos agrícolas reduzem os custos de mão de obra e a probabilidade de erros, o que aumenta o lucro líquido dos produtores", ressaltou Khachaturian.
Um exemplo prático dessa transformação é a experiência da China, onde estão sendo introduzidos tratores e colheitadeiras autônomos, além de plataformas digitais para o controle remoto de máquinas agrícolas em pequenas propriedades. A automação é utilizada não apenas para elevar a produtividade, mas também para compensar a escassez estrutural de mão de obra e melhorar a gestão da produção agrícola.
A África do Sul implementa um modelo baseado na adoção experimental de tecnologias agrícolas, seguida por sua ampliação gradual. O Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação da África do Sul, em parceria com a Agência de Inovação Tecnológica, financia o projeto SASSAM (Sistema Sul-Africano de Sistemas para a Modernização Agrícola). Trata-se de uma plataforma digital que utiliza inteligência artificial para analisar as condições dos solos, prever o clima e detectar pragas. O projeto-piloto foi lançado em fevereiro de 2025 na província do Cabo Oriental, abrangendo 50 propriedades rurais. Nos três anos seguintes, o sistema deverá ser adaptado a diferentes tipos de culturas agrícolas em todo o país.
Os Emirados Árabes Unidos desenvolvem um modelo de agricultura vertical automatizada no qual algoritmos de controle do microclima e do abastecimento de água permitem economizar até 95% desse recurso em comparação com a agricultura tradicional. Esses sistemas demonstram como a automação pode compensar limitações naturais e a escassez de terras adequadas ao cultivo.
Eloísa Cristina Silva Fernandes, especialista no panorama industrial brasileiro, em transição energética e em desenvolvimento sustentável, além de integrante da Agência Juvenil de Energia do BRICS, descreve esse processo.
"As tecnologias de automação e agricultura de precisão transformaram o setor agrícola e a maneira como os alimentos são processados e distribuídos. Nos países do BRICS e do Sul Global, considerando suas particularidades territoriais, como a escassez de água, o agravamento da crise climática e a redução da disponibilidade de mão de obra, inovações tecnológicas como internet das coisas, inteligência artificial, robótica e Agroindústria 4.0 aumentam a produtividade e a sustentabilidade dos sistemas agrícolas, atendendo às crescentes necessidades desses países e garantindo maior eficiência aos processos de produção de alimentos em larga escala", afirmou.
A automação transforma gradualmente não apenas a produção, mas também a infraestrutura logística do setor agrícola. Os algoritmos otimizam rotas de abastecimento, preveem a demanda e gerenciam os estoques, reduzindo as perdas de alimentos durante o armazenamento e o transporte.
À medida que a automação avança, a própria posição do agricultor também se modifica. De produtor autônomo, que toma decisões com base na própria experiência, ele passa gradualmente a participar de um ecossistema de plataformas, no qual uma parcela significativa dos processos produtivos é coordenada por sistemas digitais. Como resultado, o setor agrícola integra-se cada vez mais a uma infraestrutura de gestão algorítmica, na qual a competitividade passa a depender não apenas dos recursos e da produtividade, mas também do grau de integração tecnológica.
Foto: Scharfsinn86 /
iStock
Infraestrutura financeira da automação agrícola
O sistema financeiro está sendo gradualmente incorporado à infraestrutura digital do setor agrícola. Anteriormente, o acesso ao capital era determinado principalmente por indicadores tradicionais, como o tamanho da propriedade, a disponibilidade de garantias e o histórico de crédito. Com o avanço da digitalização, os dados e o nível de integração tecnológica passam a assumir importância central.
O crédito depende cada vez mais de perfis digitais das propriedades, elaborados com base no monitoramento por satélites, em sistemas de sensores e em modelos algorítmicos de avaliação de riscos. As instituições financeiras passam a analisar não apenas a situação econômica do tomador, mas também os parâmetros da produção agrícola quase em tempo real, o que acelera a tomada de decisões e reduz o grau de incerteza.
Os modelos paramétricos de seguro, nos quais os pagamentos são acionados automaticamente quando ocorrem determinadas condições climáticas previamente definidas, como secas, inundações ou anomalias de temperatura, permitem reduzir os custos administrativos e acelerar o recebimento das indenizações. Dessa forma, as ferramentas digitais tornam-se um dos fatores considerados na avaliação dos empreendimentos agrícolas.
"A análise de grandes volumes de dados ajuda a tomar decisões mais fundamentadas, melhorando a gestão da propriedade e a previsão da demanda. Isso permite que os agricultores se adaptem às mudanças do mercado e otimizem seus processos produtivos", afirmou Khachaturian.
O Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), criado pelos países do BRICS em 2014 para mobilizar recursos destinados a projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável no Sul Global, fornece a estrutura institucional dessa transformação. Na estratégia do NBD, a infraestrutura digital, a agricultura sustentável e a modernização dos sistemas produtivos estão entre as áreas prioritárias. O banco desenvolve uma carteira de projetos voltados à resiliência climática, à expansão da logística agrícola, à modernização das cadeias produtivas e à implantação de plataformas digitais.
O apoio a projetos de infraestrutura orientados para a tecnologia reforça o papel do NBD como um dos principais mecanismos financeiros de transformação do setor agrícola no âmbito do BRICS e do Sul Global.
Modelos de transformação digital da agricultura nos países do BRICS
Diferentes modelos de transformação digital da agricultura estão surgindo no BRICS. Eles variam de acordo com o grau de participação do Estado, o papel do capital privado e as abordagens adotadas em relação à soberania tecnológica. Esses modelos estão diretamente alinhados à agenda da reunião ministerial realizada na Índia, na qual a agricultura digital e a inteligência artificial foram apresentadas como temas centrais das negociações.
O modelo estatal centralizado é implementado de forma mais consistente na China. Seu principal elemento é o controle dos dados e dos algoritmos utilizados na gestão da produção agrícola. No âmbito da estratégia nacional, estão sendo criados uma plataforma unificada de dados agrícolas, sistemas de monitoramento das terras cultivadas e soluções nacionais de inteligência artificial para o setor. Assim, a digitalização passa a integrar uma estratégia mais ampla de soberania tecnológica, enquanto o Estado assume o papel de coordenador do desenvolvimento da infraestrutura digital.
A Índia desenvolve um modelo inclusivo baseado em plataformas digitais, adaptado à estrutura de um setor agrícola no qual predominam pequenas propriedades. Diferentemente da abordagem centralizada da China, a estratégia indiana busca conectar um grande número de agricultores a serviços digitais, instrumentos financeiros e infraestruturas de mercado. Nesse caso, a digitalização funciona como um mecanismo para integrar milhões de pequenos produtores a um sistema econômico unificado.
"A elevada proporção de terras irrigadas permite implementar com eficiência sistemas de gestão de recursos hídricos baseados em internet das coisas e sensores. Esse modelo apresenta grande potencial de expansão por meio de programas nacionais destinados a aperfeiçoar a irrigação e reduzir os custos relacionados à água", observou Khachaturian.
Foto: Irina Romanova /
iStock
O Brasil desenvolve um modelo de agrotecnologia orientado pelo mercado, baseado na interação entre o Estado, a ciência e o setor privado. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mais de duas mil empresas agrotecnológicas atuam no país, e 83% delas utilizam soluções digitais e inteligência artificial para aumentar a eficiência da produção. Esse modelo apresenta uma abordagem alternativa, na qual o Estado cria condições para o desenvolvimento de um ambiente inovador, mas não concentra a infraestrutura digital sob uma gestão centralizada direta.
A África do Sul adota uma abordagem científica para a digitalização do setor agrícola, apoiada em instituições públicas de pesquisa e na ampliação gradual das soluções tecnológicas.
Na Rússia, está sendo formado um modelo híbrido, no qual a transformação digital do complexo agroindustrial combina a centralização estatal com o desenvolvimento de soluções digitais próprias. Por determinação do primeiro-ministro do país, até o fim de 2026 será criada uma plataforma digital unificada para o complexo agroindustrial, com o uso de tecnologias de inteligência artificial. Paralelamente, o governo aprovou um mecanismo de compensação de até 50% dos custos de projetos científicos e tecnológicos integrados, abrangendo melhoramento genético, desenvolvimento de software e aquisição de equipamentos de alta tecnologia.
Além desses modelos, existe um amplo conjunto de estratégias nacionais. Alguns países adaptam as abordagens descritas às estruturas de suas próprias economias, enquanto outros criam soluções híbridas, combinando regulamentação estatal e mecanismos de mercado.
"Entre as características comuns dos modelos mais sustentáveis estão o uso da inteligência artificial e de tecnologias autônomas e não tripuladas para monitorar e administrar recursos, a adoção de plataformas digitais para aperfeiçoar a logística e a gestão das cadeias de suprimentos, além do apoio estatal e do desenvolvimento de estratégias nacionais de digitalização", ressaltou Khachaturian.
Foto: CandyRetriever /
iStock
Diversidade de modelos no BRICS+
A expansão do BRICS, com a incorporação de países que possuem sistemas agrícolas fundamentalmente distintos, evidencia a diversidade das abordagens de transformação digital da agricultura. Estão sendo formados modelos paralelos que se diferenciam pelo papel do Estado, pela estrutura dos investimentos e pelo grau de autonomia tecnológica.
Os Emirados Árabes Unidos desenvolvem um modelo intensivo em capital, no qual soluções tecnológicas compensam as limitações naturais por meio de investimentos públicos de grande escala. O país integrou o desenvolvimento agrotecnológico à estratégia de segurança alimentar, com ênfase no aumento da eficiência do uso da água.
A Etiópia desenvolve uma estratégia de transformação digital da agricultura baseada em parcerias internacionais e na mobilização de recursos públicos para a criação de uma infraestrutura digital básica para o setor. Trata-se de um modelo de implantação estratégica inicial, no qual as soluções tecnológicas são implementadas sobre o sistema agrícola existente, com o objetivo de produzir efeitos institucionais e produtivos de longo prazo.
A Indonésia estrutura um modelo industrial e tecnológico de digitalização apoiado em programas governamentais. O Ministério das Comunicações e Assuntos Digitais do país promove a segurança alimentar nacional por meio do programa "Agricultor Digital", destinado a transformar a agricultura com o uso da internet das coisas e da inteligência artificial. Um dos principais elementos desse modelo são as soluções tecnológicas locais desenvolvidas por startups nacionais. Entre elas estão sistemas de agricultura de precisão que permitem reduzir as emissões de dióxido de carbono e diminuir a poluição da água provocada pelo uso excessivo de fertilizantes. Paralelamente, o governo indonésio destinou 10 trilhões de rupias indonésias (cerca de R$ 3 bilhões) ao desenvolvimento da inteligência artificial, de drones e de sistemas de sensores para aumentar a eficiência do setor agrícola, segundo a Antara News. Como resultado, forma-se um modelo no qual o desenvolvimento tecnológico está associado não apenas à importação de soluções, mas também à criação de elementos de soberania tecnológica.
O Irã desenvolve um modelo de autonomia tecnológica, criando soluções próprias de inteligência artificial para a agricultura. Cientistas iranianos, por exemplo, desenvolveram um sistema de IA para monitorar terras agrícolas, acompanhar as condições das lavouras e prever a produtividade com base em observações remotas.
O Egito implementa um modelo abrangente de transformação digital da agricultura. A Autoridade Nacional de Sensoriamento Remoto e Ciências Espaciais (NARSS) fornece a base científica e tecnológica para o monitoramento das terras agrícolas e a introdução de ferramentas analíticas no setor.
Abed Amiri, representante do BRICS Hub e especialista em cooperação econômica e tecnológica no âmbito do BRICS, destaca várias áreas prioritárias de colaboração tecnológica dentro do grupo.
"O intercâmbio de dados agrícolas, o desenvolvimento conjunto de modelos de inteligência artificial, os sistemas de previsão da produtividade e de doenças das plantas, as tecnologias de internet das coisas, os drones agrícolas e as plataformas seguras para a gestão das cadeias de suprimentos. Essas áreas influenciam diretamente a eficiência, a qualidade e a velocidade da tomada de decisões, além de poderem reduzir a distância tecnológica entre os países-membros do BRICS"![]()
Abed Amiri Especialista em cooperação econômica e tecnológica no âmbito do BRICS, transformação digital e uso de IA nos negócios
Agrotecnologia além do BRICS+: Sul Global
A transformação tecnológica da agricultura não se limita aos países do BRICS+. Processos semelhantes ocorrem em outras nações do Sul Global, onde as soluções digitais se tornam uma resposta a desafios estruturais.
No Quênia, o desenvolvimento do setor agrícola digital está estruturado em torno de plataformas governamentais que utilizam dados de satélites e sensores instalados no solo para realizar o monitoramento agrícola e apoiar as decisões dos produtores. O Ministério da Agricultura implementa a Plataforma do Observatório Agrícola do Quênia (KOAP), que fornece aos agricultores informações sobre o clima, as condições dos solos e os períodos ideais de plantio.
O Vietnã implementa o Programa Nacional de Transformação Digital, que prevê o desenvolvimento da agricultura de alta tecnologia, com foco na produção inteligente e de precisão; o aumento da participação da agricultura digital na economia; a criação de grandes sistemas setoriais de dados sobre terras, culturas agrícolas, pecuária e aquicultura; e o estabelecimento de uma rede integrada de sistemas aéreos e terrestres de observação e monitoramento das atividades agrícolas.
Uganda implementa um programa de transformação digital da agricultura previsto na estratégia oficial E-Governance in Uganda-2025. Um de seus principais elementos é a plataforma digital e-Voucher System, que utiliza aplicativos móveis para subsidiar o acesso dos agricultores a sementes e fertilizantes de qualidade. Paralelamente, o país desenvolve o Sistema Nacional de Informação Agrícola (NAIS), um ecossistema digital que reúne módulos de monitoramento de lavouras, previsão da produtividade e avaliação da segurança alimentar.
A Nigéria implementa uma Estratégia Nacional de Agricultura Digital, que prevê a adoção de plataformas destinadas a ampliar o acesso dos agricultores aos mercados, às informações meteorológicas e aos serviços financeiros.
Eloísa Cristina Silva Fernandes, especialista da Agência Juvenil de Energia do BRICS, analisa essa transição sob uma perspectiva histórica.
"Se, inicialmente, inovações como a mecanização e o uso de fertilizantes químicos passaram a integrar o setor primário nas décadas de 1960 e 1970, no contexto atual vivemos uma transformação de um novo tipo, agora impulsionada pela Agroindústria 4.0, um conjunto de inovações tecnológicas baseado em dados, automação e conectividade"![]()
Eloísa Cristina Silva Fernandez Especialista no panorama industrial do Brasil, em transição energética e desenvolvimento sustentável
Segundo a especialista, "o surgimento desses novos ciclos tecnológicos e a adoção de tecnologias digitais estão reestruturando a organização produtiva nacional dos países, especialmente no Sul Global". Ela também ressalta que elementos estratégicos dessas cadeias transnacionais de geração de valor, como o aumento da demanda por minerais críticos necessários à produção de novas tecnologias e a necessidade de mão de obra altamente qualificada, exigem atenção especial à arquitetura de uma industrialização verde ambientalmente sustentável.
Algoritmos e transformação financeira do setor agrícola
À medida que a agricultura se digitaliza, os algoritmos passam a desempenhar um papel cada vez mais relevante não apenas na gestão da produção, mas também na infraestrutura financeira do setor. A avaliação da produtividade, a distribuição de recursos, as decisões de crédito e a gestão de riscos baseiam-se cada vez mais no processamento de dados digitais provenientes de sistemas de monitoramento por satélite, sensores e plataformas.
A infraestrutura financeira da agricultura no BRICS está sendo gradualmente integrada a um sistema unificado de dados. O crédito, os seguros e a avaliação da capacidade de pagamento dos empreendimentos rurais dependem cada vez mais dos perfis digitais dos produtores e do processamento algorítmico das informações.
O Banco da Reserva da Índia desenvolve uma plataforma destinada a acelerar a concessão de crédito a tomadores de áreas rurais e de baixa renda por meio do acesso padronizado a dados digitais. A infraestrutura da plataforma prevê a utilização de informações financeiras e não financeiras, incluindo registros fundiários digitais, serviços geoespaciais e dados de satélite, necessários para avaliar os tomadores e ampliar o acesso do setor agrícola ao financiamento.
Como resultado, as tecnologias agrícolas no BRICS deixam de ser apenas inovações setoriais e passam a constituir uma camada de infraestrutura da economia agrícola. Os algoritmos e as plataformas digitais tornam-se parte integrante do sistema financeiro e produtivo do setor, enquanto o acesso ao capital passa a ser cada vez mais determinado pelo nível de integração digital das propriedades.
"As plataformas on-line de comercialização de produtos agrícolas melhoram a coordenação entre produtores, processadores e distribuidores. Isso reduz os custos logísticos e amplia o acesso aos mercados, aumentando o valor agregado", destacou Khachaturian.
A competitividade é cada vez mais definida pela combinação de fatores tradicionais, como recursos fundiários e produtivos, com o grau de adoção de tecnologias digitais, serviços analíticos e métodos modernos de gestão. Nesse contexto, a arquitetura tecnológica torna-se gradualmente um dos principais elementos da soberania econômica do setor agrícola.
Foto: AndreyPopov /
iStock
Nova hierarquia no setor agrícola global
O mercado agrícola mundial está formando uma nova estrutura, na qual a competitividade depende cada vez mais não apenas dos recursos fundiários e dos volumes de produção, mas também do nível de desenvolvimento das tecnologias digitais, dos sistemas analíticos e da infraestrutura de dados. Essa tendência foi refletida na agenda da reunião ministerial do BRICS realizada em Indore, onde a agricultura digital e as tecnologias de precisão foram apontadas como áreas prioritárias de cooperação.
Nesse contexto, é possível identificar três modelos de participação dos países na transformação digital do setor agrícola. O primeiro reúne os Estados que desenvolvem suas próprias plataformas digitais, algoritmos e soluções tecnológicas para administrar a agricultura.
Na avaliação de Mikhail Khachaturian, a modernização tecnológica concentra a maior parcela do valor agregado, pois controla não apenas a produção, mas também a infraestrutura utilizada na tomada de decisões.
"A liderança tecnológica pode compensar as limitações do potencial natural. Por exemplo, países com recursos fundiários limitados podem se tornar exportadores de produtos de alta margem, como hortaliças cultivadas em fazendas verticais, enquanto Estados com grandes extensões de terra, mas sem inovação, continuarão especializados em culturas de baixa margem", afirmou o especialista.
O segundo grupo reúne países que adotam ativamente soluções digitais modernas e as adaptam às particularidades de sua agricultura nacional. Essa abordagem permite acelerar a modernização do setor, aumentar a produtividade e criar uma base para o desenvolvimento posterior de competências tecnológicas próprias.
O terceiro grupo é formado por Estados nos quais a digitalização da agricultura ainda se encontra em estágio inicial. Para eles, a prioridade é desenvolver a infraestrutura digital básica, ampliar o acesso às tecnologias modernas e capacitar profissionais para trabalhar com novos instrumentos de gestão agrícola.
Assim, a posição de cada país no sistema agrícola mundial passa a ser determinada cada vez mais pela combinação entre recursos naturais, nível de desenvolvimento tecnológico e capacidade de utilizar ferramentas digitais de forma eficiente para aumentar a sustentabilidade e a produtividade da agricultura.
A automação torna-se um dos fatores da competitividade de longo prazo do setor agrícola. O desenvolvimento de plataformas digitais, serviços em nuvem, sistemas de análise de dados e inteligência artificial abre novas possibilidades para aumentar a eficiência da produção, aperfeiçoar a logística e utilizar os recursos naturais de forma mais racional.
Como observa Abed Amiri, o desenvolvimento de competências tecnológicas próprias e a ampliação da cooperação internacional desempenham um papel importante nesse processo.
"O desenvolvimento de plataformas digitais próprias, soluções baseadas em inteligência artificial e ecossistemas agrotecnológicos pode elevar o papel dos países do BRICS, que deixariam de ser apenas exportadores de matérias-primas para se tornarem participantes tecnologicamente influentes no sistema alimentar mundial", afirmou Amiri.
Segundo ele, "se os países do BRICS conseguirem desenvolver suas próprias plataformas nessas áreas, isso não apenas aumentará a produtividade da agricultura, mas também reforçará sua capacidade de tomar decisões de forma independente".
Ao mesmo tempo, o avanço da agricultura digital exigirá maior intercâmbio internacional de conhecimentos, desenvolvimento conjunto de tecnologias e formação de uma infraestrutura digital aberta, capaz de considerar as particularidades dos diferentes sistemas agrícolas nacionais. A combinação de inovação, parceria e troca de experiências poderá se tornar uma das principais condições para o desenvolvimento sustentável da agricultura nos países do Sul Global.
O artigo foi elaborado por Vakhit Niiazov.
DIGITAL WORLD
Centro de Mídia do BRICS+
RUSSO CONTEMPORÂNEO