Ela aborda temas como a interação jornalística entre os países do BRICS e o uso da inteligência artificial
Nina Fideles é a diretora-executiva do meio de comunicação Brasil de Fato. Formada em jornalismo em 2005, possui vasta experiência em produção, edição e revisão textual, além de liderança de equipes.
Iniciou sua carreira na assessoria de imprensa do MST, atuando como editora do Jornal Sem Terra e coordenadora da Radioagência NP. Após trabalhar como editora assistente na Editora Caros Amigos, assumiu a coordenação de jornalismo no Brasil de Fato em 2018. Em 2019, tornou-se diretora-executiva do veículo.
Sua experiência abrange mídias impressas, digitais, rádio e audiovisual, além de trabalhos em fotografia e freelance para diversas publicações.
– Qual é o papel dos jornalistas na formação das relações entre os países e como você avalia a interação entre as mídias dos países do BRICS? Como ela pode ser fortalecida e aprimorada?
– Eu acho que não é apenas um papel dos jornalistas nessa pauta do BRICS. É muito importante que todos os governos — não só os que já fazem parte do grupo, mas também aqueles que pretendem construir narrativas ou experiências contra-hegemônicas — não coloquem o papel da comunicação em segundo plano. Portanto, isso dá aos jornalistas um outro papel, uma outra missão em suporte a essas experiências.
Então, na medida em que se entende essa centralidade no debate geopolítico, a gente ganha uma maior responsabilidade. Com rigor jornalístico, acho que é muito importante frisar que, independentemente da ideia que tenhamos enquanto jornalistas, a gente tem uma grande responsabilidade em exercer esse papel.
Nós temos vários valores, mas eu acho que eles funcionam para que isso estabeleça uma responsabilidade em passar informação, em sermos pedagógicos, em explicarmos as nuances e as consequências de cada ação, especialmente na geopolítica, que é um espaço tão complexo.
Então, espero que o BRICS nunca secundarize o papel da comunicação.
– Quais temas têm maior repercussão na audiência brasileira?
– A nossa audiência busca muitas fontes de entendimento, mas, ao mesmo tempo, também é muito empática com esses temas, especialmente com os países do BRICS. Acho que os maiores pontos de interesse estão nas relações entre os países, como Brasil-Rússia, Brasil-China. A nossa audiência sempre está buscando saber que tipo de ações concretas estão sendo feitas entre esses países e quais diálogos estão sendo estabelecidos. Além disso, há um grande interesse pelos aspectos culturais, econômicos e sociais. O interesse é especialmente voltado para o papel, por exemplo, da Rússia na construção de um mundo multipolar. De fato, existe um grande interesse pela compreensão da multipolaridade, um tema que o BRICS tem tratado muito bem.
– O Brasil de Fato busca uma ampla cobertura da agenda internacional. Por que essa linha editorial foi escolhida?
– O Brasil de Fato é fruto de várias pessoas e intelectuais que formulam um pensamento na América Latina, com a perspectiva de que fosse um veículo capaz de reverberar essas ações e esse pensamento. Um desses pensamentos é o internacionalismo, que está presente na teoria socialista, segundo a qual essa construção deve ser global, e não local, pois o local tem suas limitações. Portanto, acho que esse olhar internacionalista é fundamental. Nosso slogan reflete uma perspectiva popular do Brasil e do mundo, compreendendo as diferenças conceituais que, em certos diálogos, especialmente na América Latina e com outros países, podem não fazer tanto sentido. Mas é importante frisar que, para nós, essa abordagem vem de uma perspectiva de olhar o mundo a partir desse lugar, centrado no povo.
– O Brasil de Fato possui um portal digital, publicações impressas, agências de notícias, uma estação de rádio e também contas em sites de hospedagem de vídeos. Qual desses meios de comunicação é o mais procurado?
– Os meios digitais são mais fáceis de se obter retorno e fazer o estudo da audiência. O que a gente pretende fazer é explorar todos os meios possíveis, todos os canais disponíveis, porque, se a gente não atingir alguém pela internet, vamos atingir alguém pela rádio. Ou, às vezes, mudamos o formato. Por exemplo, podemos dar uma notícia específica na rádio, mas tratá-la de forma diferente na TV. São formas de se apropriar de cada linguagem e entender como o público recebe a informação a partir dela. Isso qualifica muito o nosso trabalho, pois falamos com pessoas que têm hábitos diferentes, entendimentos diversos e vêm de lugares distintos.
Então, eu não saberia dizer qual é o mais procurado, mas certamente todos esses meios são muito utilizados no Brasil.
– A inteligência artificial (IA) já faz parte de nossas vidas e pode ser utilizada no jornalismo. Quais são os benefícios ou riscos que a IA traz para o jornalismo?
– Bem, acho que esse é um debate extremamente importante e que deve ser tratado com muita responsabilidade. Estamos lidando com comunicação, com informação. Como mencionei no começo, entendo a profissão jornalística como uma tarefa de alta responsabilidade. E a IA não pode subverter esses valores, para que a gente faça mais rápido, faça mais, enfim, faça muito mais conteúdo e que a gente não abra mão dessa responsabilidade na comunicação.
Acredito que a comunicação vem mudando rapidamente ao longo dos últimos anos. Precisamos nos adequar, nos apropriar de novas ferramentas, e a IA é uma dessas ferramentas que devemos incorporar.
No entanto, espero que esse debate seja feito com rigor ético, nessa perspectiva de que a gente não subverta valores que, para nós, são fundamentais no exercício jornalístico, em troca, talvez, de audiência, talvez de produzir mais, produzir mais rápido. Mas eu entendo que a gente tem uma expressão que diz: "A gente não pode parar o verão; o verão vem, ele vem". E assim como a IA já vem chegando. A gente já utiliza muito no nosso dia a dia, nas escolas, então acho que há uma apropriação que deve ser feita em todas as áreas com a IA, mas com muita responsabilidade, garantindo que ela esteja a nosso serviço e não o contrário. A IA opera com probabilidades, algoritmos, matemática – uma lógica que devemos entender e controlar, e não ser subjugados por ela.
Portanto, precisamos ter controle sobre como vamos implementar a IA nas redações, algo que já está acontecendo.
Então, acho que a gente tem que ter controle desse debate de como a gente vai implementar a IA em todas as redações; algo que já vem acontecendo.
– No processo de redação, no processo de comunicar alguma ideia, alguma informação, que tarefas podem ser confiadas à IA e quais devem permanecer sob o controle do ser humano?
– Eu entendo que ao longo do fluxograma de uma cadeia produtiva da notícia, existem pontos em que a IA pode ser muito bem aproveitada e qualificar bastante, especialmente em uma perspectiva de conexão entre países, como a tradução e a transcrição. Acho que há tarefas nas quais a IA certamente qualificará o trabalho humano na produção daquele conteúdo. Então, acredito que devem existir pontos de checagem humana ao longo dessa cadeia produtiva. Mas, de maneira geral, acho que podemos nos apropriar bastante disso. A transcrição, a questão do idioma, para romper essas barreiras idiomáticas, acho que será muito importante o uso da IA, ou mesmo uma edição, um script, mas acredito que a maioria dessas etapas exige, certamente, um olhar mais técnico e humano. No entanto, considero que muitas etapas desse fluxo podem ser completamente absorvidas pela IA, sem abrir mão desse olhar humano.
– Quando falamos sobre as novas gerações de profissionais de mídia e jornalistas, há alguma característica que os diferencia das gerações anteriores? E quais habilidades e aprendizados devem ser priorizados na formação desses novos profissionais de comunicação?
– Eu sou muito apaixonada pelo fazer jornalismo, então tenho um carinho e um zelo profundos por esse exercício, e acredito que ele envolve um debate ético, uma boa formação nas universidades, mas também o acesso das pessoas a essa técnica. Acho extremamente importante democratizar e tornar possível que outras pessoas, muitas vezes em situações diferentes, possam se apropriar dessa técnica.
No Brasil, por exemplo, o diploma de jornalismo não é mais exigido para o exercício da profissão. Acho que isso é ambíguo, porque às vezes se argumenta que isso vai democratizar, já que qualquer pessoa pode se comunicar. Essa perspectiva de espalhar esse conhecimento é importante, mas acredito que existem pilares fundamentais que não devem ser esquecidos: ética, credibilidade e checagem. Jornalistas têm um poder, e por isso todo esse exercício deve ser feito com muito zelo, responsabilidade e muitas etapas de checagem e compreensão. O objetivo final deve ser garantir que a mensagem chegue a alguém.
Confira a entrevista na íntegra aqui.
Fotografia: TV BRICS