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Fábrica de alimentos do planeta: como Brasil está mudando comércio agrícola no mundo e no BRICS

Como o clima favorável e o agronegócio desenvolvido fazem do Brasil um dos principais fornecedores de alimentos do mundo? Para onde vão os volumes recordes de soja, carne, café e açúcar? Confira na matéria da TV BRICS

Gigante do agronegócio

O Brasil é um dos principais atores do agronegócio mundial. Suas extensas áreas agrícolas e o clima favorável ao cultivo fazem do país uma verdadeira "fábrica de alimentos do planeta". Atualmente, o Brasil é o maior exportador mundial de soja e um importante fornecedor de carne, café, açúcar e outros produtos. A presença do país no BRICS contribui para a segurança alimentar e cria condições para o desenvolvimento de mecanismos internos de comércio, como a bolsa de grãos do BRICS.

"O Brasil é hoje um dos protagonistas do agronegócio mundial. O desenvolvimento de uma agricultura tropical com alta produtividade, fez do país um dos maiores exportadores de produtos como soja, café e milho, desempenhando um papel fulcral na segurança alimentar mundial e na balança comercial de diversas nações ao redor do globo", afirma Daniel Vitor, chefe do Conselho Consultivo de Relações do BRICS+ no Observatório Latino-Americano de Geopolítica Energética, em entrevista à TV BRICS.

Como grande fornecedor de produtos agrícolas, o Brasil desempenha um papel importante na garantia da estabilidade alimentar dos países mais populosos do grupo e pode até contribuir para impulsionar o uso de moedas nacionais nas transações comerciais. Apesar dessas vantagens, o comércio agrícola brasileiro ainda enfrenta alguns gargalos. Deficiências logísticas, as dimensões continentais do país e a limitada capacidade de processamento de produtos de maior valor agregado tornam o setor agrícola e, consequentemente, a economia brasileira mais vulneráveis. Ainda assim, há soluções para esses desafios que podem ser implementadas nos próximos anos.

Soja, café e carne bovina

O Brasil é por vezes chamado de segunda "pátria do café" e é líder absoluto mundial no cultivo de grãos de café, posição que mantém há cerca de 150 anos. No entanto, quando se analisam as estatísticas de exportação brasileiras, são os grãos de soja, e não o café, que ocupam o primeiro lugar.

"O Brasil é o maior exportador de soja do mundo. A soja e seus derivados representam cerca de 17% das exportações totais do país. Em maio de 2026, os embarques de soja chegaram a 14,83 milhões de toneladas", afirma Mikhail Khachaturyan, especialista em economia dos países do BRICS, da Organização para Cooperação de Xangai e da ASEAN.

A China é o principal comprador da soja brasileira. No entanto, sua participação nas exportações totais caiu recentemente de 74% para 69%, embora o volume efetivamente fornecido tenha permanecido praticamente inalterado, segundo o especialista. Ao mesmo tempo, o Brasil ampliou os embarques para a Turquia, em 800 mil toneladas, para 2,06 milhões de toneladas; para a Tailândia, em 500 mil toneladas, para 1,69 milhão de toneladas; e para o Paquistão, em 400 mil toneladas, para 1,35 milhão de toneladas.

A carne também representa uma parcela importante das exportações brasileiras. A expectativa é de que o Brasil registre, em 2026, um recorde nas exportações totais de carne, incluindo bovina, suína e de aves. A produção deve chegar a cerca de 33,38 milhões de toneladas, das quais 11,3 milhões de toneladas serão de carne bovina. As exportações do produto podem atingir 4,35 milhões de toneladas, o maior volume em oito anos, segundo especialistas.

Um dos símbolos da culinária brasileira é a picanha, um corte retirado da parte superior da alcatra e caracterizado por uma espessa camada de gordura que, quando assada, proporciona um aroma marcante. No entanto, não são apenas os cortes premium de carne bovina marmorizada que conquistam os mercados internacionais. As exportações brasileiras de carne suína devem crescer 6,1% em 2026, em comparação com 2025, chegando a 1,58 milhão de toneladas, destaca Khachaturyan. Em maio de 2026, por exemplo, os embarques de carne suína para a Rússia cresceram quase nove vezes em relação ao mesmo mês do ano anterior.

O Brasil também continua entre os líderes mundiais na produção e exportação de café, além de ser o maior exportador de cana-de-açúcar e de seus derivados. O país responde ainda por cerca de 27% das exportações mundiais de milho. Em 2025–2026, os volumes exportados ficaram em torno de 34 a 35 milhões de toneladas.

pishchevaya-fabrika-planety-kak-braziliya-menyaet-mirovuyu-agrarnuyu-torgovlyu-i-torgovlyu-vnutri-br (3).jpgFoto: kupicoo / iStock

Transporte e logística

A China tem sido, nos últimos anos, o principal importador de produtos brasileiros, sobretudo de soja, carne e açúcar. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior e Relações Internacionais, anteriormente vinculada ao antigo Ministério da Economia do Brasil, apresentados à TV BRICS por Daniel Vitor, entre janeiro e dezembro de 2024, a China importou do Brasil aproximadamente US$ 67,8 bilhões (R$ 351,2 bilhões) em produtos, valor superior à soma das importações provenientes dos três países seguintes.

O rápido crescimento da demanda exige a criação de uma cadeia logística nacional integrada, que inclua infraestrutura de armazenamento, sistemas de transporte e portos marítimos para o envio da produção ao exterior. Atualmente, o transporte rodoviário é a base da logística brasileira. Segundo estimativas de especialistas, ele responde por cerca de 60% de todo o transporte de cargas no país. Os corredores de exportação conectam as regiões produtoras aos mercados internacionais.

Um exemplo são os corredores rodoviários que conectam a nova fronteira agrícola do Brasil — a região de Matopiba, formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — aos principais portos do país, como Santos, em São Paulo, Paranaguá, no Paraná, e os portos do Arco Norte.

No caso da soja e do milho produzidos na região Centro-Oeste, uma parcela significativa da produção é transportada por rodovias até terminais ferroviários e hidroviários e, de lá, segue para os portos de Itaqui, Santarém e Barcarena ou para portos tradicionais, como Santos e Paranaguá. Já as cadeias logísticas do café, produzido principalmente nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, dependem em grande parte do transporte rodoviário até os portos de Santos e do Rio de Janeiro, responsáveis por uma parcela significativa das exportações do produto.

A partir desses portos, as cargas seguem pelo Atlântico, principal rota marítima do comércio exterior brasileiro.

A logística de exportação de produtos agrícolas do Brasil é um processo complexo e envolve várias etapas, exigindo planejamento cuidadoso e atenção às características geográficas, climáticas e administrativas do país. Como especialistas têm destacado com frequência, também é necessário modernizar e ampliar significativamente a infraestrutura existente. Para Daniel Vitor, um dos pontos mais críticos para o Brasil continua sendo a capacidade de armazenamento e o desenvolvimento dos corredores de transporte.

"Nos últimos anos, projetos de otimização logística como a Ferrovia Norte-Sul, a Ferrogrão e a ampliação da infraestrutura do Arco Norte refletem a guinada de investimentos em ferrovias, hidrovias e terminais portuários que tem como objetivo a redução dos custos logísticos e aumentar a competitividade internacional do comércio agrícola brasileiro", afirma Daniel Vitor.

pishchevaya-fabrika-planety-kak-braziliya-menyaet-mirovuyu-agrarnuyu-torgovlyu-i-torgovlyu-vnutri-br (3).jpgFoto: Joao Bento da Silva / iStock

Relações comerciais com os países do BRICS

Por sua posição de destaque no mercado agrícola mundial, o Brasil é um importante parceiro comercial para os países do BRICS.

"Mais de 30% do volume total das exportações do país têm como destino parceiros do BRICS", compartilha Guillermo Miguel Rocafort Pérez, especialista em economia e relações internacionais.

O principal parceiro do Brasil dentro do grupo é a China, que há muito tempo ocupa a posição de maior importador de produtos agrícolas brasileiros. Em 2025, o Brasil exportou para a China US$ 55,3 bilhões (R$ 286,5 bilhões) em produtos agrícolas. Em 2022, China e Brasil atualizaram os protocolos de controle fitossanitário, abrindo o mercado chinês para o milho brasileiro e consolidando a posição do Brasil como principal fornecedor de produtos agrícolas.

A Índia também é um parceiro importante e um mercado promissor para o Brasil. Em 2024, a Índia assinou acordos de longo prazo com o Brasil para a importação de leguminosas. Já a Rússia é uma fonte de fertilizantes para o Brasil, insumos fundamentais para manter a produtividade agrícola, especialmente no cultivo de soja, milho e café. Ao mesmo tempo, o Brasil exporta para a Rússia soja, carne, café e outros produtos.

O comércio agrícola do Brasil com outros países do Sul Global também está se desenvolvendo de forma ativa, incluindo os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Egito, o Paquistão, Bangladesh, México e Filipinas.

"Nesse sentido, as relações dos países do BRICS e do Sul Global no comércio agrícola brasileiro, é pautada por um fluxo comercial pujante. mercados emergentes da Ásia e África têm crescido rapidamente, evidenciando um deslocamento do eixo comercial brasileiro", afirma Daniel Vitor.

O fortalecimento da China como principal parceiro comercial, na avaliação do especialista, assim como a abertura de novos mercados na Ásia, no Oriente Médio e na África, constitui uma importante estratégia para reduzir a dependência do Brasil em relação a grandes compradores e atenuar os riscos econômicos.

Problemas antigos e novas soluções

Embora os avanços na produção e no comércio agrícola sejam evidentes, as exportações brasileiras continuam enfrentando desafios significativos. O primeiro deles é a volatilidade dos preços internacionais e a instabilidade cambial. A isso se somam as barreiras comerciais impostas por alguns países. Além disso, as tarifas e normas sanitárias de diferentes Estados exigem negociações diplomáticas constantes.

Nesse contexto, o desenvolvimento da cooperação com o BRICS pode, no futuro, contribuir para solucionar esses problemas. Isso porque, no âmbito dos países participantes do grupo, há um trabalho contínuo para simplificar os procedimentos comerciais, desenvolver a infraestrutura e fortalecer a cooperação em tecnologias agrícolas. Além disso, a criação de uma bolsa de grãos do BRICS e, posteriormente, de uma bolsa de commodities poderia contribuir para ampliar o comércio em moedas nacionais.

Outro desafio importante, tanto para o setor agrícola quanto para a economia brasileira como um todo, é a predominância de produtos primários na pauta de exportações, uma questão que vem sendo cada vez mais destacada por especialistas. Segundo dados de 2024, 77% das exportações brasileiras para os países do BRICS eram compostas por commodities.

pishchevaya-fabrika-planety-kak-braziliya-menyaet-mirovuyu-agrarnuyu-torgovlyu-i-torgovlyu-vnutri-br (3).jpgFoto: Biserka Stojanovic / iStock

"Isso está relacionado a vários fatores, como o baixo grau de processamento dos produtos. O Brasil é especializado na exportação de produtos não processados, como soja, café, açúcar, carne etc., o que o torna vulnerável às oscilações dos preços das commodities no mercado mundial", observa Mikhail Khachaturyan.

Isso muitas vezes faz com que, em vez de desenvolver sua própria indústria de processamento, o Brasil compre produtos acabados, mantendo, ao mesmo tempo, sua dependência das exportações de matérias-primas como fonte de receita.

Outro desafio importante é a situação das rodovias, responsáveis por mais de 60% do transporte de cargas no país. Segundo especialistas, esse cenário exige um conjunto amplo de medidas, que vão desde investimentos em infraestrutura, como a modernização dos portos e a construção de ferrovias, até a adoção de novas tecnologias, incluindo soluções digitais para o rastreamento de cargas, a automação de armazéns e o uso de blockchain para otimizar os processos aduaneiros. Na avaliação de especialistas de diferentes países, essas iniciativas devem ser acompanhadas por programas de apoio governamental, simplificação dos mecanismos regulatórios e, naturalmente, diversificação dos mercados de destino.

"A modernização da rede logística e de transportes é de grande importância como investimento no futuro para fortalecer o crescimento sustentável. Para alcançar esse objetivo, é fundamental manter uma política estável voltada para investimentos de longo prazo em uma estrutura econômica moderna, melhorar as finanças públicas e fortalecer o crescimento econômico em um contexto de intensificação das relações comerciais com os países do BRICS", conclui Guillermo Miguel Rocafort Pérez.

Este artigo foi elaborado por Svetlana Khristoforova.