Gerente de mídia etíope, Admasu Damtew: "O futuro do jornalismo está em parcerias que ultrapassam fronteiras nacionais"
Em entrevista exclusiva à TV BRICS, ele aborda a evolução do jornalismo internacional, o papel da Etiópia no diálogo multilateral e a importância de uma agenda global compartilhada para a mídia
A rede internacional de mídia TV BRICS apresenta a "Reunião da mídia global", um projeto especial em comemoração ao 20º aniversário do BRICS. A iniciativa conta com comentários de importantes especialistas dos principais meios de comunicação dos países do BRICS+ e parceiros da rede de mídia sobre questões relacionadas à formação de uma agenda mundial conjunta, à construção de um sistema multipolar de comunicações globais de mídia, às tendências atuais e aos principais acontecimentos dos últimos 20 anos para o avanço do discurso da mídia, bem como previsões sobre a evolução do espaço midiático.
Segundo Admasu Damtew, gerente de mídia da Etiópia, a ampla disseminação das tecnologias digitais e da internet foi o principal fator que transformou a estrutura do cenário informativo.
Na sua opinião, qual foi a mudança mais marcante e criativa dos últimos 20 anos que ajudou a aproximar a mídia e contribuiu para a formação de uma agenda global compartilhada?
Nas últimas duas décadas, o jornalismo internacional passou por uma profunda transformação, impulsionada tanto pelas inovações tecnológicas quanto pelos acontecimentos globais. Essa mudança envolveu tanto o conteúdo quanto as tecnologias utilizadas pela mídia. A ampla adoção e integração das tecnologias digitais de comunicação, especialmente a internet, os smartphones e as plataformas de redes sociais, modificaram profundamente o cenário da informação. Essas ferramentas descentralizaram os fluxos de notícias e permitiram a produção de conteúdos mais multiculturais, transformando o jornalismo de um modelo centralizado, no qual poucos atores controlavam a seleção e a distribuição das informações, para um ambiente mais diverso e plural. Nesse processo, surgiram centros regionais e redes de mídia asiáticas, contribuindo para um fluxo de informações mais multidirecional, capaz de refletir diferentes perspectivas culturais e geográficas.
Qual é sua previsão para o desenvolvimento das comunicações midiáticas e para a evolução do cenário da mídia nos próximos 20 anos em termos de abordagens, tecnologias, significados e narrativas?
Acredito que as comunicações midiáticas continuarão evoluindo em quatro dimensões principais: abordagem, tecnologia, significado e narrativa. Esses elementos definirão o futuro do setor.
Em relação à abordagem, os públicos deixarão de ser apenas consumidores de conteúdo e participarão cada vez mais da sua criação e disseminação por meio do jornalismo cidadão e de plataformas colaborativas. A confiança e a credibilidade terão papel central, incentivando as organizações de mídia a adotar práticas mais transparentes e éticas.
No campo tecnológico, a inteligência artificial, a realidade aumentada e o blockchain transformarão a forma como a informação é produzida e distribuída. A IA permitirá personalizar conteúdos e criar experiências jornalísticas mais imersivas, enquanto o blockchain poderá contribuir para a verificação de fontes e o combate à desinformação. A integração dessas tecnologias acelerará a descentralização da comunicação, dando mais espaço para indivíduos e comunidades participarem da formação do debate público.
A terceira dimensão é o significado. A mídia terá cada vez mais um papel como instrumento de identidade, inclusão e defesa de direitos, com narrativas que reflitam diferentes perspectivas culturais. O papel do jornalismo se ampliará para além da cobertura de acontecimentos, tornando-se também uma ferramenta de diálogo, aproximação entre grupos e promoção da empatia global.
A quarta dimensão é a narrativa. Questões globais, como as mudanças climáticas, estarão no centro do debate, mas serão abordadas cada vez mais por meio de histórias centradas nas pessoas e orientadas para soluções.
Em conclusão, nos próximos 20 anos, a comunicação midiática será mais descentralizada graças às inovações tecnológicas e estará cada vez mais associada a narrativas que valorizem a cooperação e as experiências humanas compartilhadas.
Quais elementos fundamentais uma agenda global compartilhada deve incluir do ponto de vista do desenvolvimento do discurso midiático?
A agenda global da mídia deve se basear em vários princípios fundamentais.
Primeiro, deve priorizar a inclusão e a diversidade de vozes, garantindo que perspectivas de diferentes regiões e culturas sejam respeitadas. Segundo, deve enfatizar a credibilidade e a transparência, pois a confiança no jornalismo é essencial para um diálogo significativo entre sociedades.
Terceiro, a agenda deve destacar desafios globais e soluções coletivas. Questões como mudanças climáticas e saúde pública devem ser apresentadas de forma a estimular a cooperação. Quarto, é necessário incorporar a inovação tecnológica, utilizando plataformas digitais, inteligência artificial e narrativas imersivas para conectar públicos de maneira mais eficiente, ao mesmo tempo em que se protege o ambiente informativo contra a desinformação.
Por fim, a agenda deve promover narrativas centradas nas pessoas, capazes de inspirar empatia e solidariedade. Ao destacar experiências e conquistas compartilhadas, o discurso midiático pode superar divisões políticas e culturais, contribuindo para uma ordem comunicacional verdadeiramente multipolar e colaborativa.
Quais questões relacionadas à agenda interna e externa da Etiópia, às iniciativas nacionais e aos próximos eventos devem receber atenção da mídia estrangeira para demonstrar plenamente o papel do país no desenvolvimento das relações multilaterais?
Existem muitas pautas importantes em meu país, mas gostaria de destacar algumas delas. A mídia estrangeira deve prestar atenção a áreas que demonstram o papel da Etiópia no fortalecimento das relações multilaterais e da compreensão mútua. No âmbito interno, destacam-se os processos de construção nacional e as principais prioridades sociais. A participação cidadã e a inclusão social também são elementos centrais, com programas voltados ao fortalecimento da presença de mulheres e jovens, promovendo valores democráticos e desenvolvimento inclusivo.
Na agenda externa, a liderança da Etiópia na União Africana e suas iniciativas relacionadas à resiliência climática e ao desenvolvimento sustentável merecem atenção. Essas ações mostram como o país atua como ponte no diálogo diplomático internacional e como voz ativa diante dos desafios globais.
Eventos como diálogos regionais sobre migração, programas de diplomacia cultural e conferências internacionais realizadas em Adis Abeba também devem receber cobertura. Eles demonstram o papel da Etiópia como centro de diálogo e cooperação, fortalecendo sua contribuição para o espaço informativo global e promovendo maior entendimento entre as nações.
Quais estereótipos sobre a cultura, ciência e educação da Etiópia existem atualmente no exterior e como jornalistas de outros países podem ajudar a superá-los?
Infelizmente, a Etiópia ainda é frequentemente apresentada no exterior por meio de narrativas limitadas. Essas representações deixam em segundo plano a riqueza da cultura etíope, a resiliência de sua população e os avanços alcançados em ciência, tecnologia e educação.
Por exemplo, embora as tradições centenárias da Etiópia em literatura, música e artes sejam reconhecidas internacionalmente, muitas vezes não recebe a mesma atenção o fato de que universidades e instituições de pesquisa do país desenvolvem trabalhos inovadores em agricultura, resiliência climática e tecnologia digital.
Jornalistas estrangeiros podem desempenhar um papel fundamental ao abordar a Etiópia para além das narrativas de crise. É importante destacar histórias de sucesso nas áreas de cultura, ciência, educação, iniciativas sociais, inovação juvenil, paz regional e cooperação multicultural. Essa abordagem ajuda a apresentar uma imagem mais equilibrada e atualizada do país. Ao valorizar a diversidade, a criatividade e as iniciativas voltadas para o futuro, a mídia internacional pode mostrar a Etiópia não apenas como uma nação que enfrenta desafios, mas também como uma participante ativa do diálogo global, da produção de conhecimento e da promoção da compreensão mútua
Como você avalia a ideia de criar um espaço informativo unificado eurasiático ou global? Em quais formatos a cooperação entre veículos de diferentes países deve se desenvolver?
No mundo interconectado atual, o discurso midiático não pode permanecer limitado às fronteiras nacionais. Um espaço informativo compartilhado permite maior intercâmbio cultural, narrativas mais equilibradas e uma representação mais precisa de diferentes perspectivas.
A cooperação entre veículos de comunicação deve evoluir por meio de formatos colaborativos e inovadores, apoiados pela tecnologia e pelo engajamento global. Entre eles estão projetos conjuntos de reportagem, jornalismo investigativo transnacional, programas compartilhados de capacitação e o uso de plataformas digitais para distribuição de conteúdo. Essas iniciativas fortalecem padrões profissionais e promovem confiança e compreensão mútua entre as nações.
Na minha visão, o futuro do jornalismo está em parcerias que ultrapassam fronteiras, nas quais narrativas compartilhadas destacam desafios e conquistas comuns, contribuindo para relações multilaterais mais fortes e maior entendimento entre os povos. A confiança no jornalismo não depende apenas da cobertura dos acontecimentos, mas também da capacidade de contextualizar questões e combater a desinformação. Por isso, ela desempenha um papel fundamental na aproximação entre diferentes sociedades.