Integração dos sistemas de pagamentos permitirá ao continente reduzir custos em transações internacionais e acelerar as operações
Instituições africanas deveriam apresentar oficialmente, durante a cúpula do BRICS em Nova Délhi, uma iniciativa para criar uma ponte técnica entre o Sistema Pan-Africano de Pagamentos e Liquidações (PAPSS) e a Iniciativa do BRICS para Pagamentos Transfronteiriços (BCBPI). A proposta foi defendida por Fapano Fasha, presidente do Centro de Pensamento Político e Econômico Alternativo, em um artigo publicado pela IOL.
Segundo ela, essa integração permitiria reduzir os custos das transações, diminuir a dependência de moedas estrangeiras no comércio intra-africano e nas relações comerciais entre a África e os países do BRICS, além de acelerar a integração financeira.
A especialista destacou que a África chega à cúpula com ativos próprios. A Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) abrange um mercado de 1,4 bilhão de pessoas e representa um espaço econômico de US$ 3,4 trilhões (cerca de R$ 17,58 trilhões). Já o Sistema Pan-Africano de Pagamentos e Liquidações (PAPSS) oferece uma plataforma para realizar transações internacionais em moedas nacionais.
Fasha também ressaltou que três países africanos — África do Sul, Egito e Etiópia — já são membros do BRICS, enquanto outros estão na fila para obter o status de países parceiros do grupo. Segundo ela, essa presença confere ao continente maior peso diplomático para negociar em condições de igualdade.
A poucas semanas da cúpula, marcada para 12 e 13 de setembro, os investimentos estrangeiros nos setores bancário, de financiamento não bancário, seguros e tecnologia financeira da Índia chegaram a US$ 13,1 bilhões (cerca de R$ 67,7 bilhões). A especialista classificou esse resultado como um exemplo para o Sul Global e um modelo que poderia ser reproduzido na África.
A Índia, que ocupa a presidência do BRICS desde 1º de janeiro de 2026, definiu como prioridades, durante a reunião de ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais realizada em meados de agosto, em Jaipur, a estabilidade financeira, os pagamentos transfronteiriços, a cooperação em tecnologia financeira e a mobilização de capital privado. Posteriormente, os ministros do Comércio concentraram-se em financiamento comercial, serviços digitais e cadeias de suprimentos sustentáveis.
No início de 2026, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), ou Banco do BRICS, aprovou um empréstimo de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,17 bilhões) para projetos de infraestrutura municipal na África do Sul. Fasha propôs que os países africanos membros do BRICS defendam a criação, dentro do NBD, de um fundo de infraestrutura especializado para a África, utilizando a experiência da Índia em operações de cofinanciamento com capital privado dos países-membros.
Na avaliação da especialista, os órgãos reguladores africanos também deveriam estudar os limites adotados pela Índia para investimentos estrangeiros, os requisitos de licenciamento e as abordagens de regulamentação de tecnologias financeiras, adaptando essas práticas às condições locais.
Entre os resultados esperados da cúpula, Fasha citou a criação de um grupo de trabalho conjunto para promover a interoperabilidade entre as soluções de tecnologia financeira do BRICS e da África, incluindo a integração do PAPSS aos mecanismos de pagamento do grupo. Ela também defendeu a criação de uma estrutura para atrair capital privado de bancos e investidores dos países do BRICS para instituições financeiras africanas, tendo como referência acordos firmados entre a Índia e os Emirados Árabes Unidos.