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Embaixador da Rússia na Indonésia, Serguei Tolchionov: acordo com UEE pode dobrar comércio em até 5 anos

Em entrevista exclusiva à TV BRICS, o diplomata compartilhou os resultados do primeiro ano da Indonésia no BRICS e as perspectivas para a cooperação russo-indonésia

Serguei Tolchionov é o embaixador da Rússia na Indonésia. Ele nasceu em 1965 e se formou em 1988 no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO), vinculado ao Ministério das Relações Exteriores da Rússia. Tolchionov fala inglês, francês e vietnamita e atua na carreira diplomática desde 1988.

De 2008 a 2013, foi conselheiro da Embaixada da Rússia na Indonésia e, entre 2013 e 2024, foi vice-diretor do 3º Departamento da Ásia do MRE da Rússia. Possui o título de Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário de 1ª classe. Ele já trabalhou nas embaixadas da URSS e da Rússia no Camboja (1988–1992), no Vietnã (1994–1998, 2002–2005) e no Consulado Geral da Rússia em Ho Chi Minh (2000–2002).

– 2025 foi o primeiro ano de participação plena da Indonésia no BRICS. Como o país tem se adaptado ao trabalho dentro do BRICS? Como a adesão ao grupo influenciou as relações entre Moscou e Jacarta?

– 2025 foi, de fato, o primeiro ano de participação da Indonésia no BRICS como membro pleno. Acredito que Jacarta tem demonstrado uma abordagem construtiva e comprometida, integrando-se a várias áreas de cooperação e contribuindo de maneira significativa para o trabalho do grupo. A Indonésia participou ativamente da maioria das reuniões organizadas pela presidência brasileira, e o presidente Prabowo Subianto esteve presente em duas cúpulas: a de julho, realizada no Rio de Janeiro, e a de setembro, realizada em formato on-line.

Os resultados do último ano indicam que os indonésios compartilham os principais posicionamentos do BRICS sobre questões cruciais, como a reforma da OMC, o fortalecimento do sistema multilateral de comércio, o desenvolvimento sustentável, a luta contra os efeitos das mudanças climáticas, a transição energética e a elaboração dos critérios para o uso de inteligência artificial. A juventude indonésia tem se destacado em eventos do BRICS. Os legisladores da Indonésia se uniram ao Fórum Parlamentar do BRICS.

Esperamos que Jacarta participe ativamente das iniciativas de cooperação em geologia, uso de recursos minerais, meteorologia, além dos grupos de trabalho de contraterrorismo e segurança no campo das tecnologias da informação e comunicação. [...] Também esperamos que a Indonésia se una à iniciativa de pagamentos transfronteiriços, à infraestrutura de compensação, liquidação e depósitos, à nova plataforma de investimentos e à bolsa de grãos do BRICS. A Indonésia já expressou sua intenção de aderir ao Novo Banco de Desenvolvimento e atualmente está avaliando essa questão dentro de seus processos internos.

Nossas relações bilaterais só se fortaleceram desde que a Indonésia entrou no BRICS. Surgiram novas vias de contato, inclusive entre vários ministérios e departamentos. Isso complementa e diversifica ainda mais nossas relações multifacetadas.

– O comércio entre a Rússia e a Indonésia aumentou 18% nos primeiros 10 meses de 2025, alcançando US$ 3,6 bilhões [aproximadamente R$ 19 bilhões]. Você mencionou que, até o final do ano, esse valor pode ultrapassar os US$ 5 bilhões [cerca de R$ 26 bilhões], o que representa um crescimento significativo em comparação com os resultados de 2024. Quais fatores estão impulsionando esse aumento contínuo no comércio entre os dois países?

– Nossas economias possuem uma base sólida para cooperação em diversos setores, como energia, agricultura, metalurgia, indústria química e tecnologia da informação. O progresso nessas áreas se deve ao intenso diálogo entre os presidentes Vladimir Putin e Prabowo Subianto, que se reuniram três vezes em 2025 para discutir uma ampla gama de questões econômicas. Além disso, em abril de 2025, após uma pausa de sete anos devido a restrições pandêmicas, a Comissão Intergovernamental Rússia-Indonésia foi retomada, além de um importante fórum empresarial bilateral. O estreitamento das comunicações entre os governos e representantes do setor privado tem um impacto positivo no fortalecimento de nossa cooperação. Também foi crucial a Declaração de Parceria Estratégica entre os dois países, assinada em junho de 2025.

– Um dos principais estímulos para o aumento do comércio no futuro é o Acordo de Zona de Livre Comércio entre a Indonésia e a União Econômica Eurasiática [UEE], assinado no final de 2025. Como a ratificação do acordo por todos os signatários afetará o comércio? Quais categorias de produtos serão afetadas pelas preferências comerciais?

A assinatura do Acordo de Livre Comércio entre a UEE e a Indonésia, em 21 de dezembro de 2025, foi um dos eventos econômicos mais importantes do ano. O documento ainda está aguardando a ratificação pelos países signatários, e o governo russo já o enviou para a Assembleia Federal. Esperamos que o processo seja concluído rapidamente e que o acordo entre em vigor em breve.

O acordo não se resume apenas à redução de tarifas, mas cria condições mais previsíveis e vantajosas para o comércio bilateral. Segundo a Comissão Econômica Eurasiática, em 3-5 anos após a implementação do acordo, o comércio mútuo pode dobrar. A Indonésia abrirá acesso preferencial para cerca de 90% de produtos, e a tarifa média aplicada aos produtos da UEE deve cair de 10,2% para 2%.

O documento cobre uma ampla gama de produtos. O principal setor afetado para os exportadores da UEE, incluindo os produtores russos, será o agronegócio, abrangendo produtos como cereais, farinha, pães, peixe, carnes, laticínios e água mineral. Além disso, haverá benefícios para produtos industriais como metalurgia, petróleo, carvão, fertilizantes, polímeros, madeira e outros produtos da indústria florestal, equipamentos de construção e maquinário.

Gostaria de enfatizar que o significado do acordo vai além das reduções tarifárias. Ele oferece novas oportunidades para a eliminação de barreiras técnicas, simplificação dos procedimentos aduaneiros, maior transparência nos requisitos sanitários e fitossanitários e no desenvolvimento da cooperação industrial. Em outras palavras, ele deve não apenas impulsionar o crescimento do comércio, mas também aprimorar a qualidade das relações econômicas, transformando a troca de mercadorias em uma parceria mais profunda nos setores industrial, agrícola, logístico e de investimentos.

– Como a assinatura do Acordo de Zona de Livre Comércio e a abertura do escritório do Centro de Exportação Russo na Indonésia afetarão o número de exportadores russos que trabalham com o país?

– Considerando a ampla gama de produtos que terão suas tarifas alfandegárias reduzidas ou eliminadas de acordo com a zona de comércio, acredito que a criação desse espaço, com a participação de cinco países da UEE, tornará a Indonésia mais atraente para os produtores russos, permitindo estabelecer rotas logísticas mais eficientes para o fornecimento de produtos.

Entretanto, trata-se apenas de uma base jurídico-contratual, cuja implementação requer esforços práticos por parte dos círculos empresariais, o estabelecimento de laços comerciais diretos e a troca de informações sobre as oportunidades existentes. Para acelerar a busca de parceiros para as empresas russas, já existem várias organizações em operação, incluindo a representação comercial em Jacarta. Nesse contexto, a abertura do escritório do Centro de Exportação Russo, que já possui um "portfólio" significativo de iniciativas implementadas, cria uma janela adicional de oportunidades para os exportadores nacionais.

– Segundo a avaliação do Centro Federal Agroexport, o potencial de exportação de grãos para a Indonésia até 2030 ultrapassa US$ 420 milhões [R$ 2 bilhões]. Como a Bolsa de Grãos do BRICS pode afetar o volume das exportações? Jacarta tem demonstrado interesse nesse projeto?

– Observando a situação, posso afirmar que a Indonésia, como membro pleno do BRICS, com suas prioridades voltadas para a segurança alimentar e a diversificação das relações econômicas externas, tem demonstrado um interesse contínuo pela infraestrutura agroindustrial que está sendo desenvolvida no âmbito do BRICS. Jacarta compartilha a visão de que a criação da Bolsa de Grãos no grupo ajudará a proteger os mercados nacionais dos países-membros contra interferências externas, além de garantir preços justos para os grãos e permitir a implementação de contratos de longo prazo. Isso é de grande interesse para a Indonésia, que é um dos maiores importadores de grãos.

– O uso de moedas nacionais nos pagamentos mútuos foi discutido no âmbito do grupo de trabalho sobre bancos e finanças da Rússia e da Indonésia. Em que estágio estão as negociações hoje? O que está sendo discutido sobre essa questão?

– O estabelecimento de pagamentos diretos, incluindo o uso das moedas nacionais, é uma das principais metas da colaboração entre a Rússia e a Indonésia. A criação de canais de pagamento estáveis, independentes de moedas e bancos de países terceiros, é essencial para aumentar o comércio bilateral e realizar grandes projetos conjuntos de investimento e criar condições favoráveis para turistas e cidadãos que viajam para a Rússia e Indonésia.

É igualmente importante garantir o equilíbrio entre a segurança do sistema de pagamentos e sua conveniência para os negócios. O mecanismo de pagamento deve ser acessível e eficiente para todas as partes interessadas, que são diversas e têm demandas distintas, e refletir os avanços modernos na proteção de dados.

– O setor criativo é considerado um vetor importante para o aumento da cooperação com a Indonésia, conforme apontado pelo Ministério de Desenvolvimento Econômico da Rússia. Os dois países estão negociando a criação de um grupo de trabalho conjunto nesse setor. Quais áreas da economia do conhecimento e das indústrias criativas são mais demandadas na Indonésia? Como essa parceria impactará a exportação de produtos e a criação de empregos em ambos os países?

– Recentemente, o tema da economia criativa tem sido frequentemente abordado pelos parceiros indonésios, que possuem um departamento separado dedicado a esse setor. Entre as áreas promissoras estão o cinema, o design, a moda e a gastronomia. Por exemplo, já ouvimos diversas vezes o desejo de estabelecer uma coprodução cinematográfica conjunta. Dada a proximidade de nossos países em termos de valores espirituais e culturais, acredito que um projeto sobre a história dos povos de ambos os países e sua colaboração seria de grande interesse. Além disso, a Indonésia está disposta a fornecer seus locais para filmagens de obras de cineastas russos.

Anualmente, estilistas e designers indonésios participam de desfiles de moda na Rússia, exibindo coleções que refletem o perfil cultural do país. Sei que representantes locais gostariam de apresentar ao público russo o famoso batik indonésio, um tecido tingido que, além de ser um elemento do patrimônio cultural nacional, é amplamente utilizado tanto em eventos formais quanto no dia a dia.

Outro tópico relevante é a culinária nacional. Em outubro de 2025, uma delegação de especialistas da indústria de restaurantes e hotéis de Kazan e do Tartaristão participou da competição internacional de chefs de cozinha halal realizada em Jacarta.

Não podemos esquecer também a literatura e as traduções de obras literárias. Nas prateleiras das livrarias indonésias, é possível encontrar obras de Tolstói, Dostoiévski, Tchekhov e outros clássicos russos. O próximo desafio é promover autores russos contemporâneos. A literatura indonésia é menos conhecida na Rússia, embora, no ano passado, o autor local Denny JA, presidente da União dos Escritores da Indonésia, tenha sido premiado na categoria 'Por Inovação em Literatura' no Prêmio Literário Internacional do BRICS. Além disso, o livro 'Indonésia. O léxico literário', que apresenta mais de 900 escritores do país, foi publicado na Rússia com o apoio da Sociedade de Amizade com a Indonésia.

– A cultura russa sempre encontra uma recepção especial na Indonésia, como afirmou a ministra da Cultura da Rússia, Olga Liubimova. Em Jacarta, no final de 2025, ocorreram os Dias da Cultura Espiritual da Rússia, e agora a Biblioteca Nacional está criando um serviço eletrônico para que os indonésios possam ter acesso aos livros em russo. O que explica o interesse dos indonésios pela cultura russa? Como as trocas culturais entre os dois países evoluirão no futuro próximo?

– O interesse dos indonésios pela cultura russa, na minha opinião, tem uma base profunda e natural. Em primeiro lugar, o vasto patrimônio literário do nosso país, a música clássica dos compositores russos, a rica tradição filosófica, o balé, o teatro e o cinema russos transmitem uma mensagem humanitária poderosa, com princípios de bondade e respeito mútuo compreensíveis para toda a humanidade. Além disso, o público indonésio percebe a Rússia não apenas por meio de estereótipos, mas por meio de uma experiência cultural viva, incluindo eventos culturais e humanitários organizados com o apoio da representação diplomática russa em Jacarta. Eles podem ver claramente a sintonia entre os valores fundamentais de nossos povos, como o respeito pelas tradições, pela família, pelo patrimônio espiritual e pela diversidade de culturas e religiões. Ambos os países são civilizações multinacionais e multiconfessionais, onde a cultura se formou como um espaço de diálogo entre diferentes povos, línguas e tradições. Essa diversidade é o que torna a cultura russa compreensível e fascinante para os indonésios.

Recentemente, Jacarta foi palco de vários eventos culturais, incluindo o concerto de gala realizado em abril de 2025, com a participação de artistas russos e indonésios, dedicado à 13ª sessão da Comissão Conjunta de Cooperação Econômica e Técnica Rússia-Indonésia. Artistas do Conjunto Nacional de Danças Populares "Lezginka" e do Coro Nacional de Música Popular Russa "Piatnitski" se apresentaram. No ano passado, também aconteceram o projeto cultural e educacional internacional "A Palavra do Coração Russo", os Dias da Cultura Espiritual da Rússia na Indonésia, além de exibições de filmes e outros eventos culturais organizados pela nossa embaixada em colaboração com organizações públicas e estudantis indonésias. Todos esses eventos têm gerado grande interesse e participação do público.

– O amor recíproco dos russos pela Indonésia pode ser observado no aumento do turismo. Em 2025, foi registrado um recorde de mais de 219 mil turistas. Atualmente, apenas um voo regular conecta Moscou a Denpasar. Há negociações para expandir as conexões aéreas, aumentar os voos regulares ou abrir novos destinos, além de simplificar o regime de vistos?

– A expansão das conexões aéreas está sendo tratada pelo Ministério dos Transportes da Rússia. Hoje, apenas uma companhia aérea russa realiza voos para a Indonésia. As autoridades locais frequentemente mencionam o desejo de ver outras companhias aéreas russas operando, mas ainda não houve iniciativas concretas nesse sentido.

Um projeto de acordo intergovernamental bilateral para simplificação do regime de vistos está em andamento. As negociações estão em curso para definir as disposições específicas. Por outro lado, é importante lembrar que a Indonésia está na lista de países cujos cidadãos podem obter um visto eletrônico único para entrar na Rússia, além de poderem solicitar um visto de turismo múltiplo de até seis meses, com base em uma reserva de hotel ou outro tipo de acomodação.

– Durante encontro no Kremlin, em dezembro de 2025, o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, convidou o presidente russo para visitar Jacarta em 2026 ou 2027. Como estão os preparativos para essa visita pelos órgãos dos dois países?

– Durante a reunião de 10 de dezembro de 2025, em Moscou, o presidente russo Vladimir Putin aceitou o convite de seu homólogo indonésio Prabowo Subianto para realizar uma visita recíproca em 2026 ou 2027. Essa visita exigirá uma preparação detalhada, principalmente no que diz respeito à implementação prática dos acordos alcançados entre os dois líderes. As datas específicas serão definidas por canais diplomáticos, levando em consideração a agenda de ambos os presidentes.