Satélites do BRICS na proteção do meio ambiente: como os países do grupo ajudam a preservar a Terra do espaço
Os países do BRICS estão criando um sistema de satélites de sensoriamento remoto da Terra. Como a observação espacial ajuda a enfrentar desafios ambientais, identificar ameaças, avaliar a dimensão e as possíveis consequências de desastres naturais? Сonfira no material da TV BRICS
Sensoriamento remoto da Terra
O mundo e o meio ambiente ao nosso redor estão mudando mais rápido do que parece. Moradores de cidades frequentemente reclamam de aterros irregulares e da poluição do ar, mas também existem processos globais que provocam transformações aceleradas no planeta: aumento das temperaturas, derretimento das geleiras, secas, tempestades, inundações, desertificação e desmatamento.
Acompanhar a diversidade de fatores e objetos em constante mudança à distância, além de avaliar sua escala, é possível graças aos sistemas de sensoriamento remoto da Terra. Os dados obtidos por meio de imagens espaciais, transmitidos continuamente pelos satélites, são utilizados para resolver questões práticas e científicas relacionadas ao meio ambiente e às mudanças globais no planeta.
As primeiras tentativas de avaliar processos terrestres a partir do espaço, obter imagens das camadas da atmosfera para monitoramento e coletar informações meteorológicas ocorreram na década de 1960. Na época, os satélites meteorológicos foram os primeiros equipamentos na história da ciência a fornecer uma visão da cobertura de nuvens e da estrutura geológica do planeta.
Hoje, as tecnologias avançaram significativamente. Os modernos satélites de sensoriamento remoto da Terra são veículos espaciais que não apenas observam ou fotografam a superfície do planeta a partir da órbita. Eles são equipados com sensores capazes de registrar a radiação eletromagnética refletida ou emitida pelos objetos terrestres.
Satélites em diferentes órbitas captam imagens nos espectros visível, infravermelho e de micro-ondas. Alguns utilizam radares para observar a superfície mesmo através de nuvens e durante a noite. Há também satélites que operam nos espectros ultravioleta e de raios gama.
Novos tipos de sensores continuam sendo desenvolvidos. Dessa forma, as tecnologias modernas de sensoriamento remoto permitem observar aquilo que o olho humano não consegue enxergar. A luz infravermelha identifica calor, revelando incêndios florestais e vulcões. As micro-ondas atravessam nuvens e mostram informações sobre umidade, temperatura dos oceanos e espessura do gelo. Quanto maior for a quantidade de dados coletados, mais complexas são as tarefas que os especialistas em meio ambiente conseguem resolver.
Foto: Negro Elkha / iStock
Sistema de satélites de sensoriamento remoto da Terra do BRICS
Em agosto de 2021, os chefes dos órgãos espaciais dos países do BRICS assinaram um memorando de cooperação na área de uma constelação orbital de satélites de sensoriamento remoto da Terra (SR). O acordo previa o intercâmbio de dados para monitoramento do clima, do meio ambiente, da agricultura e para a resposta às consequências de emergências.
Atualmente, os países do BRICS compartilham imagens obtidas por seus satélites espaciais em operação, incluindo os equipamentos russos Kanopus-V e Resurs-P, além de satélites chineses, indianos e sul-africanos de sensoriamento remoto da Terra.
O projeto conta com a participação dos satélites Gaofen-6 e Ziyuan III-02 (China), CBERS-4 (Brasil e China), Kanopus-V (Rússia) e Resourcesat-2 e 2A (Índia), com estações terrestres localizadas em Sanya, Cuiabá, região de Moscou, Shadnagar, Hyderabad e Hartebeesthoek.
"A estação terrestre em Cuiabá é a parte brasileira do projeto: ela acompanha o satélite durante sua passagem, depois recebe, processa e formata os dados antes de enviá-los ao Centro de Controle de Satélites", explicou, em entrevista à TV BRICS, Gabriela de Fátima Cia, especialista em desenvolvimento sustentável, cooperação ambiental internacional, gestão de recursos hídricos e ecossistemas florestais, integrante da Comissão Estudantil do BRICS e coordenadora do secretariado juvenil do Centro de Integração e Cooperação Rússia-América Latina (CICRAL).
A lógica econômica dessa cooperação é claramente apresentada em uma declaração do Centro Chinês de Dados e Aplicações de Satélites de Recursos (CRESDA): o trabalho em rede reduz os investimentos individuais de cada país em satélites e estações terrestres, ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades de obtenção de imagens de cada equipamento da constelação de sensoriamento remoto da Terra do BRICS.
Em 2022, foi criado o Comitê Conjunto do BRICS para Cooperação Espacial. Já na cúpula realizada no Rio de Janeiro, foi anunciada a criação do Conselho Espacial do BRICS. A iniciativa representa uma perspectiva promissora para o desenvolvimento pacífico do espaço, considerando que a constelação conjunta dos países do BRICS reúne cerca de 1,5 mil equipamentos espaciais, enquanto os países-membros contam com 21 centros de lançamento e complexos espaciais em seus territórios.
Desafios ambientais
Os satélites dos países do BRICS orbitam a Terra em diferentes altitudes, estudam o planeta em diversos espectros e ajudam os Estados a enfrentar uma ampla variedade de desafios ambientais.
"Sem os satélites de sensoriamento remoto da Terra, atualmente não é possível resolver as questões ambientais. E não se trata apenas do fato de que muitos países do BRICS possuem grandes territórios, onde seria simplesmente impossível organizar um controle ambiental abrangente apenas com equipes de fiscalização. Trata-se também do volume de informações diversificadas que esses satélites fornecem", destacou, em entrevista à TV BRICS, Aleksandra Kudzagova, especialista em legislação ambiental e ativista sociopolítica na área de ecologia.
Em primeiro lugar, os satélites de sensoriamento remoto ajudam a agir de forma preventiva. Ao observar a Terra a partir do espaço, é possível identificar ameaças com antecedência, avaliar a dimensão de um incidente ambiental, elaborar um plano de resposta e acompanhar posteriormente o andamento das ações.
Os satélites permitem monitorar processos de desertificação, degradação do permafrost, medir a extensão de áreas de descarte de resíduos e regiões alagadas, além de avaliar a área atingida por incêndios florestais e, com base nos dados obtidos, definir medidas para combatê-los.
Mas, principalmente, os satélites podem se tornar uma parte integrante dos sistemas estatais de combate às violações ambientais, avalia Aleksandra Kudzagova. Segundo a especialista, na Rússia, os satélites de sensoriamento remoto já ajudaram a prevenir violações relacionadas ao uso de redes de pesca fixas na ilha de Sacalina e a registrar despejos de embarcações no Mar Cáspio.
"O principal efeito desse monitoramento contínuo é a redução do número de violações: quando o usuário dos recursos naturais sabe que qualquer infração será identificada e que a punição será inevitável, torna-se mais vantajoso modernizar suas práticas e cumprir as normas", disse Kudzagova.
Foto: aapsky / iStock
Amazônia, Gobi e as florestas da Rússia
Atualmente, os satélites de sensoriamento remoto da Terra já desempenham um papel fundamental no estudo e na proteção de regiões naturais únicas dos países do BRICS, como a Amazônia. As florestas tropicais da bacia amazônica são monitoradas 24 horas por dia a partir do espaço. Isso permite detectar incêndios florestais com antecedência, acompanhar o estado dos ecossistemas, o nível dos rios, as mudanças climáticas e, principalmente, monitorar a dimensão do desmatamento.
"Segundo os dados do programa oficial de monitoramento por satélite do desmatamento na zona biocenótica amazônica Prodes, o desmatamento na Amazônia caiu de 13 mil quilômetros quadrados [13.038 km²] em 2021 para menos de 6 mil quilômetros quadrados [5.796 km²] no período de 2024–2025. Isso representa uma redução de mais de 55% em quatro anos e o menor índice em 11 anos. Apenas entre 2024 e 2025, a queda foi de 11,08%", compartilhou Kudzagova.
As florestas amazônicas são monitoradas por satélites de diferentes países e organizações, incluindo equipamentos espaciais do Brasil (por meio do programa nacional do INPE) e os satélites de cooperação sino-brasileira CBERS.
A vantagem dos satélites sino-brasileiros está na câmera de grande campo de visão, capaz de registrar uma faixa de 890 quilômetros de largura com resolução de 260 metros. O equipamento garante a cobertura completa da Terra aproximadamente a cada cinco dias em dois espectros: verde e infravermelho próximo.
Paralelamente, a câmera chinesa CCD (Charge-Coupled Device) oferece uma resolução muito mais alta (20 metros, com faixa de cobertura de 113 quilômetros), mas precisa de 26 dias para realizar a cobertura completa do planeta.
É justamente essa combinação — de baixa resolução com revisitas rápidas, por um lado, e alta resolução com revisitas mais espaçadas, por outro — que está na base do sistema brasileiro de monitoramento, explica Gabriela de Fátima Cia.
Os satélites da Terra também desempenham um papel fundamental no monitoramento do deserto de Gobi. Eles registram a expansão das áreas arenosas, que avançam sobre solos férteis e pastagens, além do desmatamento e dos grandes projetos de plantio de árvores no âmbito da iniciativa "Grande Muralha Verde".
O projeto tem como objetivo proteger três regiões do norte da China contra o avanço dos desertos. A expectativa é que, até 2050, a "Grande Muralha Verde" se estenda por aproximadamente 4,5 mil quilômetros. Equipamentos de sensoriamento remoto e satélites multiespectrais já registram mudanças significativas nos ecossistemas.
Os satélites de sensoriamento remoto da Terra também ajudam a acompanhar o estado das florestas russas, cuja área ultrapassa 790 milhões de hectares. O monitoramento espacial permite observar incêndios florestais, avaliar danos e controlar a recuperação de áreas verdes com base em dados da Roscosmos e da Agência Florestal Federal da Rússia (Rosleskhoz).
Além disso, a inteligência artificial é amplamente utilizada nesse trabalho. Ela analisa terabytes de informações e identifica, por meio de algoritmos, alterações que não são perceptíveis ao olho humano.
O monitoramento abrange todas as florestas russas onde há atividade de extração de madeira. Isso permite identificar e prevenir com muito mais rapidez os casos de desmatamento ilegal. Graças a esse sistema, em 2023, o volume de madeira extraída ilegalmente no país caiu mais de 1,6 vez em comparação com 2022, de 343,5 mil para 212,2 mil metros cúbicos. As maiores áreas da Rússia sob monitoramento espacial estão localizadas na Sibéria, nos Urais, no Extremo Oriente e no Distrito Federal Noroeste. Em 2026, a área de monitoramento remoto contínuo do uso das florestas realizada pela Rosleskhoz alcançou 99 milhões de hectares, um aumento de 10% em relação ao ano anterior.
Além disso, os satélites de sensoriamento remoto da Terra acompanham ativamente as áreas agrícolas e as colheitas na Índia. Na África do Sul, os equipamentos espaciais são utilizados para monitorar reservas de água, medir o nível de umidade do solo, a área ocupada por rios e lagos, o volume e a capacidade de armazenamento dos reservatórios, além dos campos gravitacionais da Terra para avaliar aquíferos subterrâneos.
Nos Emirados Árabes Unidos, é utilizado o satélite "Arab Satellite 813", equipado com um scanner hiperespectral. O projeto é desenvolvido pelo Centro Nacional de Ciência e Tecnologia Espacial (NSSTC), com apoio financeiro da Agência Espacial dos Emirados Árabes Unidos. O satélite possui um scanner hiperespectral (HSI), que abrange 205 canais espectrais na faixa de 400 a 1700 nanômetros e oferece uma alta relação sinal-ruído (SNR ≥ 150). Isso permite obter dados espectrais detalhados para o monitoramento de águas costeiras, avaliação do estado dos solos e da vegetação, além da identificação de fontes de poluição. O equipamento também inclui uma câmera pancromática para obtenção de imagens de alta resolução e um polarímetro atmosférico para correção dos dados, o que aumenta a precisão geral das observações. Este é o primeiro satélite dos Emirados Árabes Unidos com tecnologia hiperespectral, oferecendo capacidades únicas para análise da superfície terrestre.
Foto: Alones Creative / iStock
No final de 2025, o Egito lançou com sucesso o satélite de sensoriamento remoto SPNEX a partir do Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan, na China. O equipamento foi desenvolvido para coletar imagens de alta resolução destinadas ao monitoramento de áreas agrícolas, recursos hídricos e planejamento urbano. Engenheiros egípcios participaram do desenvolvimento e da integração do SPNEX, o que demonstra o interesse do país em ampliar suas próprias capacidades tecnológicas. Em abril de 2026, o Egito também enviou à Estação Espacial Internacional uma câmera multiespectral ClimCam, equipada com algoritmos de inteligência artificial. Sua principal função é monitorar mudanças climáticas, o estado da vegetação e os recursos hídricos.
Segundo avaliações dos especialistas entrevistados, a cooperação espacial do BRICS continuará se desenvolvendo. A construção de um mundo multipolar não será possível sem o avanço dos programas espaciais dos países da associação, tanto individualmente quanto em conjunto.
Os especialistas esperam novos passos no desenvolvimento da parceria do BRICS nas áreas de sensoriamento remoto e proteção ambiental. Entre eles está, por exemplo, a transição do uso de satélites de sensoriamento remoto adaptados para a criação de uma constelação de equipamentos espaciais desenvolvida e lançada conjuntamente. Segundo Gabriela de Fátima Cia, isso exigirá coordenação técnica, orçamentária e política. No entanto, é justamente nesse ponto que será definido se a cooperação espacial do BRICS será apenas um gesto diplomático bem-sucedido ou uma infraestrutura permanente para enfrentar a crise climática nos países do Sul Global.
Este artigo foi elaborado por Svetlana Khristoforova.