"Sol artificial", transporte autônomo, comunicação quântica e tecnologias de satélite. Que outras invenções dos países do BRICS podem transformar o futuro? Saiba mais neste material da TV BRICS
Novo centro de cooperação científico-tecnológica
A China se destaca como o principal polo tecnológico, a Índia amplia sua atividade científica e outros países contribuem com potencial para a diversificação regional das conexões. Com grandes recursos à disposição, o BRICS vem se consolidando como um novo centro internacional de desenvolvimento científico e tecnológico. Nesse caminho, os pesquisadores apontam alguns desafios, como a falta de financiamento, a dependência de recursos naturais e a saída de profissionais qualificados da área científica.
Por outro lado, há vantagens significativas. Entre elas estão o aumento do número de inovações e a expansão das empresas que adotam tecnologias avançadas. A parceria formalizada entre os países do BRICS também fortalece consideravelmente o potencial do grupo no campo científico. O memorando de cooperação em ciência, os programas-quadro e as declarações aprovadas ao final das reuniões anuais dos ministros de Ciência, Tecnologia e Inovação do BRICS contribuem para unir as abordagens ocidentais e orientais na realização de projetos científicos ambiciosos, capazes de transformar o futuro tecnológico global.
China: digitalização e energia verde
A economia chinesa apresenta crescimento consistente, impulsionado em grande parte pela ciência e pela tecnologia. Em 2025, segundo informou a Xinhua News Agency, parceira da TV BRICS, o PIB do país cresceu 5% em comparação com o ano anterior e ultrapassou pela primeira vez a marca de 140 trilhões de yuans (cerca de R$ 107,7 milhões). Especialistas apontaram como principais motores desse avanço a modernização industrial por meio da robotização e automação, o desenvolvimento da infraestrutura digital, a transição para uma economia de baixo carbono e o avanço da inteligência artificial.
"Na área de inteligência artificial, o Estado investe ativamente em grandes centros de pesquisa, laboratórios nacionais e na formação de especialistas. Como resultado, a IA é amplamente aplicada em cidades inteligentes, transporte, produção industrial e serviços financeiros", afirmou Abed Amiri, especialista em cooperação econômica e tecnológica no âmbito do BRICS, transformação digital e uso da IA nos negócios.
A China é uma das principais potências não apenas no campo da inteligência artificial, mas também no desenvolvimento da computação quântica. A criação de processadores quânticos próprios e de redes de comunicação quântica é vista pelo país como uma base estratégica para a soberania digital e a liderança tecnológica.
Em 2025, cientistas chineses apresentaram o protótipo do computador quântico supercondutor "Zuchongzhi 3.0", um avanço que chamou atenção internacional. O sistema foi capaz de executar tarefas de amostragem aleatória de circuitos um quatrilhão de vezes mais rápido do que o supercomputador mais potente do mundo, marcando um novo salto no desenvolvimento da computação quântica na China.
Em 2027, a China pretende lançar o chamado "Sol artificial". O nome é usado para se referir ao tokamak BEST ("Burning Plasma Experimental Superconducting Tokamak", em inglês), um reator que poderá gerar eletricidade por meio da fusão termonuclear controlada.
No final de julho de 2026, a China anunciou a criação de um ímã de fusão capaz de confinar plasma com temperatura superior a 100 milhões de graus Celsius. O avanço representa uma etapa importante no caminho para o desenvolvimento do "Sol artificial".
"A fusão nuclear é a promessa de uma fonte de energia limpa praticamente ilimitada, e os chineses conseguiram estabilizar o plasma por 1.066 segundos, um resultado extremamente inovador. A fusão nuclear, assim como a inteligência artificial, por muito tempo pertenceu ao campo da ficção científica. Quando finalmente for controlada, poderá transformar os fundamentos da sociedade moderna, remodelando a indústria, a segurança energética e nossa relação com o planeta, e talvez até possibilitar a exploração espacial", disse Isabela Rocha-Dashicheva, especialista em Ciência Política e soberania tecnológica dos países do BRICS e do Sul Global
O projeto do "Sol artificial" prevê a criação não apenas de uma fonte de energia praticamente inesgotável, mas também ambientalmente limpa. A tecnologia não geraria resíduos radioativos perigosos nem apresentaria risco de grandes catástrofes globais. O combustível para a reação seria obtido a partir da água, sem emissão de dióxido de carbono. Além disso, o reator seria desligado automaticamente em caso de qualquer falha, eliminando riscos de explosões ou vazamentos de radiação, como ocorre em usinas nucleares convencionais.
Outra área promissora da ciência chinesa são os veículos elétricos e o transporte autônomo. O especialista em transformação digital Abed Amiri acredita que a integração entre carros elétricos, redes inteligentes de recarga, baterias modernas e sistemas de assistência ao motorista baseados em IA demonstra que a China considera o transporte elétrico um elemento essencial de uma visão ampla de cidades inteligentes e indústria inteligente.
Foto: David Cameron / iStock
Índia: satélites e medicina personalizada
A Índia segue ampliando sua atividade científica no setor espacial, promovendo o conceito de "espaço para o bem comum". O país desenvolve tecnologias de satélite apoiadas pela agência espacial nacional e por um setor privado em crescimento.
As principais áreas incluem sistemas nacionais de comunicação, satélites de sensoriamento remoto e lançamentos comerciais de pequenos satélites por empresas privadas. A Índia também avança em projetos lunares e se prepara para lançar o primeiro módulo de sua estação espacial nacional Bharatiya Antariksh. O lançamento está previsto para 2028, segundo a IANS, parceira da TV BRICS, com base em dados do governo indiano. A estação será formada por cinco módulos e deverá entrar em operação até 2035.
A Índia também alcançou avanços significativos no desenvolvimento de soluções inovadoras de fintech. Especialistas consideram especialmente promissoras para o BRICS as tecnologias voltadas a transações instantâneas, como o sistema UPI. A plataforma funciona por meio de um endereço virtual (UPI ID) e QR code, permitindo integrar diferentes contas bancárias em um único aplicativo móvel.
Em entrevista à TV BRICS, Isabela Rocha-Dashicheva afirmou que o UPI deve ser visto como uma expressão moderna da tradição matemática da Índia, pois simplificou transações, ampliou o acesso aos serviços financeiros e tornou os mercados mais abertos. Segundo a especialista, a cooperação entre o sistema indiano UPI e o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos PIX pode contribuir para a criação de uma infraestrutura de pagamentos compatível, ampliar o uso de moedas locais e reduzir os custos das transações internacionais entre os países do BRICS.
Além disso, os avanços em biotecnologia, inteligência artificial e genômica indicam o surgimento de uma nova era da medicina personalizada na Índia. O país possui condições únicas para estudar genomas devido à grande diversidade genética de sua população. Por meio do programa Genome India, foram sequenciados os genomas de 10 mil habitantes. A meta de longo prazo é alcançar um milhão de genomas analisados.
Esse tipo de pesquisa permitirá que cientistas e médicos façam diagnósticos mais precisos, prevejam riscos à saúde e, principalmente, desenvolvam tratamentos personalizados com base no perfil genético de cada paciente. Pesquisadores indianos acreditam que o futuro da medicina está justamente no desenvolvimento de medicamentos adaptados individualmente para cada pessoa.
Rússia: energia nuclear, biomedicina e IA
A Rússia possui uma sólida tradição científica e uma infraestrutura de pesquisa desenvolvida. Isso garante ao país posições de destaque em áreas como energia nuclear e medicina nuclear, biomedicina, inteligência artificial, tecnologias espaciais e computação quântica.
Em 2025, o Instituto de Física Lebedev da Academia de Ciências da Rússia (FIAN) concluiu os testes do primeiro computador quântico russo de 50 qubits. Desenvolvido com base na tecnologia de íons frios, o equipamento utiliza 25 íons de itérbio, mantidos por lasers e resfriados a temperaturas próximas ao zero absoluto. O controle desses sistemas é feito por meio de pulsos de laser, que permitem executar algoritmos quânticos formados por sequências precisas de estímulos.
Ao mesmo tempo, sua eficiência foi comprovada pelo desenvolvimento de uma abordagem nacional única para a arquitetura de computadores quânticos: o uso de "ququartes": sistemas da mecânica quântica nos quais um íon pode existir simultaneamente não em dois estados, como ocorre nos qubits tradicionais, mas em quatro estados. Isso permite armazenar e processar o dobro de informações.
A Rússia também ocupa posição de destaque no uso mundial da energia nuclear. Em 2021, cientistas do Instituto Kurchatov lançaram o "PIK", o reator de pesquisa com o mais intenso fluxo de nêutrons do mundo. Com essa "pequena usina nuclear", astrofísicos buscam compreender como o Universo é formado. Isso porque os nêutrons permitem estudar a composição e a estrutura de praticamente qualquer material, desenvolver instrumentos de alta precisão, destruir células cancerígenas e realizar diversas outras aplicações.
Em 2025, teve início a primeira sessão do acelerador de partículas NICA, em Dubna, onde são realizadas pesquisas avançadas em física fundamental. O principal objetivo do colisor é estudar as propriedades da matéria bariônica densa, que existiu nos primeiros instantes após o Big Bang. O estudo é considerado essencial para compreender a evolução do Universo.
Entre os avanços russos na área médica estão o primeiro medicamento do mundo contra a espondilite anquilosante, desenvolvido para combater diretamente os mecanismos da doença, e não apenas aliviar os sintomas, além do primeiro medicamento russo de terapia gênica não viral contra tumores, o "AntionkoRAN-M". A tecnologia atua na eliminação de células cancerígenas por meio da ativação do sistema imunológico e apresenta potencial de aplicação contra diferentes tipos de câncer.
No mais, cientistas russos estão desenvolvendo tecnologias para a criação de tecidos vivos destinados à medicina do futuro por meio da bioimpressão e implementam programas de inteligência artificial para diagnóstico.
A adoção da IA também avança na Rússia em setores como varejo, transporte e construção. Especialistas apontam como principais avanços do país na área de inteligência artificial a criação de grandes modelos de linguagem próprios, o desenvolvimento de IA generativa para negócios e a criação de uma arquitetura própria com atenção linear, capaz de processar grandes volumes de dados com maior rapidez.
"Na área de inteligência artificial, a Rússia se apoia em fortes escolas matemáticas, tradições de programação e experiência em setores de alta tecnologia, como energia, indústria de defesa e espaço. Com essa base, estão sendo criados sistemas de análise de dados, visão computacional e controle inteligente para os setores energético, de transporte e industrial", afirma Abed Amiri em entrevista à TV BRICS.
Foto: peshkov / iStock
Brasil: biocombustíveis e medicina
Os principais avanços científicos do Brasil estão relacionados à bioenergia, medicina tropical e aviação. Atualmente, quase 90% da eletricidade do país é obtida a partir de fontes renováveis. O Brasil possui uma matriz energética bastante diversificada, com destaque para a geração hidrelétrica, eólica e solar, além da produção de biocombustíveis, setor que vem recebendo investimentos crescentes.
Entre os projetos e desenvolvimentos mais promissores, especialistas destacam a produção de combustível de aviação sustentável a partir da palmeira macaúba. O método ajuda a reduzir emissões prejudiciais e não exige o desmatamento de áreas florestais para cultivo, pois as palmeiras são plantadas em antigas áreas de pastagem, e não em regiões de floresta.
Além disso, em entrevista à TV BRICS, a presidente do BRICS+ Forum for Strategic Technology no Brasil, Isabela Rocha-Dashicheva, destacou que o projeto JetBio será a maior unidade comercial do mundo dedicada à produção de combustível sustentável para aviação a partir do etanol.
"O JetBio utiliza etanol brasileiro, que apresenta emissões de dióxido de carbono significativamente menores. Além disso, a cana-de-açúcar, o milho de segunda safra e os resíduos agrícolas celulósicos representam diversas fontes de etanol, garantindo maior sustentabilidade", afirma a especialista.
O Brasil também desenvolve pesquisas inovadoras na área médica. Graças aos esforços de cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, liderados pela professora Tatiana Coelho de Sampaio, pesquisadores brasileiros avançaram no desenvolvimento de um tratamento para paralisia por meio da aplicação de uma proteína chamada polilaminina, obtida da placenta. Atualmente, o medicamento passa por testes de segurança.
Cidades inteligentes, digitalização da agricultura e radioastronomia
Projetos inovadores e a implementação bem-sucedida de novas tecnologias estão avançando em todos os países do BRICS. A África do Sul, por exemplo, é um dos principais centros mundiais de radioastronomia. Entre seus principais projetos estão o poderoso conjunto de 64 antenas MeerKAT, utilizado para estudar buracos negros e buscar megamasers cósmicos, e o telescópio global em construção Square Kilometre Array (SKA), ambos localizados na região desértica e livre de interferências de Karoo.
Os Emirados Árabes Unidos são líderes mundiais no desenvolvimento de cidades inteligentes. Com a ampla aplicação de IA nos serviços públicos, plataformas blockchain para gestão documental e sistemas inteligentes de controle de tráfego, Dubai ocupa o segundo lugar no ranking global Intelligent Cities Index 2026. Abu Dhabi, por sua vez, entrou em 2025 na lista das 20 cidades mais inteligentes do mundo segundo o IMD Smart City Index.
Os Emirados também avançaram nas tecnologias de dessalinização. O país atende grande parte da demanda por água potável por meio da osmose reversa e da destilação térmica da água do mar.
A Etiópia aposta nas tecnologias digitais. Diferentemente dos Emirados Árabes Unidos, o foco do país está não na gestão urbana, mas no setor agrícola. Por meio da estratégia "Etiópia Digital 2030", o país desenvolve plataformas especializadas para agricultores, sistemas de monitoramento da saúde do gado, ferramentas digitais de gestão de sementes e soluções para ampliar o acesso a previsões meteorológicas e mercados.
Dessa forma, os países do BRICS possuem tradições científicas complementares, recursos naturais, potencial industrial e grandes mercados internos, tornando a cooperação tecnológica uma área promissora. Isso é especialmente relevante para a criação de uma infraestrutura conjunta de pagamentos, a implementação de inteligência artificial, projetos espaciais e iniciativas na área da medicina.
Segundo especialistas, o intercâmbio nesses setores pode impulsionar o desenvolvimento acelerado, permitindo adaptar e aplicar em todo o grupo as inovações criadas em cada país.
Este artigo foi elaborado por Svetlana Khristoforova.