Esporte como ferramenta de promoção estratégica dos países do BRICS
Fortalecimento do BRICS por meio do desenvolvimento esportivo
Hoje, o esporte vai além da cultura física; é uma ferramenta de "poder brando" e parte da imagem das nações. As conquistas dos atletas e as grandes competições podem aumentar o prestígio dos países organizadores e participantes, fortalecer a identidade nacional e até se tornar um catalisador para o crescimento econômico. O BRICS utiliza todas essas possibilidades. Desde os primeiros Jogos do BRICS em Guangzhou, na China, há oito anos, o programa de competições se expandiu consideravelmente, e o número de países participantes aumentou. Surgiram também outros projetos esportivos sob a égide do grupo. No entanto, o caminho para competições verdadeiramente grandiosas no Sul Global ainda é longo. O que está impedindo o desenvolvimento? Vamos entender.
Jogos esportivos dos países do BRICS
Os Jogos do BRICS são o principal projeto esportivo do grupo e demonstraram sua viabilidade, segundo especialistas. Ao longo de oito anos, o programa de competições foi constantemente ampliado. Alguns jogos passaram a incluir esportes nacionais e tradicionais, como a capoeira brasileira, o kabaddi, o jogo coletivo mais antigo da Índia, e o wushu chinês. Isso contribuiu não apenas para o intercâmbio esportivo, mas também cultural entre os países participantes. Inicialmente, estava previsto que os Jogos do BRICS acontecessem anualmente. No entanto, os planos precisaram ser ajustados devido à pandemia. Entre 2019 e 2021, os jogos não ocorreram, e em 2022, a China organizou a competição no formato on-line. Em 2020, foi decidido que o país presidente do BRICS organizaria os jogos. Assim, em 2023, a África do Sul sediou os Jogos do BRICS, com competições de natação, tênis, badminton e eventos para atletas com deficiência (tênis de mesa e tênis) em Durban.
As edições mais grandiosas foram os jogos em Kazan, na Rússia, em 2024. Segundo especialistas, eles se mostraram um dos mais representativos na história do evento. Isso é evidenciado pelo número de países participantes (82), o número de atletas (mais de 2,8 mil) e o número de modalidades (27), incluindo esportes olímpicos (ginástica, judô) e modalidades nacionais, como a luta com cintos (kuresh). No entanto, nem todos os especialistas acreditam que a diversidade de modalidades e a constante mudança de esportes sejam justificáveis.
"Enquanto o programa dos Jogos do BRICS, em grande parte, muda conforme os desejos do país anfitrião, que a cada vez inclui novos esportes, incluindo os nacionais, isso é muito bom. Mas talvez já seja hora de definir um programa único para o futuro, pois os países precisam se preparar para ele, e os atletas devem saber com antecedência que seus esportes favoritos estarão presentes. Em Kazan, tivemos 27 modalidades, o que já é um bom número, mas talvez seja necessário adicionar 2-3 modalidades populares de esportes coletivos [...], como vôlei, handebol e polo aquático", disse Vladimir Lednev, vice-presidente da Universidade "Sinergia", em entrevista exclusiva à TV BRICS.
Por outro lado, com o sucesso dos Jogos do BRICS, começam a surgir iniciativas para a criação dos Jogos Estudantis do BRICS e até uma versão de inverno das competições, voltada para entusiastas de patinação artística, biatlo, esqui e trenó.
Liga das Maratonas do BRICS
A Liga das Maratonas do BRICS é outra iniciativa importante. Ela reúne maratonas significativas da Rússia, e, no futuro, de outros países do grupo. O projeto visa desenvolver a cooperação internacional e envolver mais pessoas na prática esportiva. O acordo para a criação da liga foi assinado em junho de 2023, durante o Fórum Econômico de São Petersburgo, com a participação do Ministério do Esporte da Rússia.
A liga começou em 2024 com a maratona de Kazan, que reuniu quase 30 mil participantes de diferentes países. Depois, outras duas maratonas da liga aconteceram em São Petersburgo e Moscou. Todos esses eventos se repetiram em 2025.
Efeito econômico dos eventos esportivos do BRICS
Especialistas calcularam que o efeito econômico direto e indireto da Liga das Maratonas do BRICS no primeiro ano de existência foi de 4,8 bilhões de rublos (cerca de R$ 312 milhões). Os participantes das corridas (mais de 100 mil pessoas em 2024) contribuíram com 1,9 bilhões de rublos (mais de R$ 123 milhões) para as cidades, com gastos em hospedagem, alimentação e transporte. Assim, o evento se mostrou não apenas um mecanismo de popularização do esporte, mas também um potente instrumento de estímulo econômico para as regiões.
"O impacto econômico dos eventos esportivos organizados pelo BRICS, nesta fase, deve ser avaliado por meio do efeito multiplicador. [...] No contexto do esporte internacional, estão sendo criadas condições favoráveis para o desenvolvimento do turismo, infraestrutura, saúde, educação, etc. Isso destaca o papel fundamental do esporte nos países do BRICS também na esfera econômica", afirma Serguei Skorokhodov, especialista em marketing esportivo e digital.
Esporte como ferramenta de "poder brando"
O sucesso dos eventos esportivos, no entanto, não é medido apenas pelos lucros obtidos. As conquistas dos atletas geram um grande orgulho nacional em cada país, o que fica evidente nas altas audiências das transmissões de competições importantes. Por exemplo, os Jogos Olímpicos de 2022 em Pequim foram assistidos por mais de dois bilhões de pessoas, enquanto a final da Copa do Mundo de Futebol de 2022 teve 1,5 bilhão de telespectadores. Nenhum evento político ou econômico internacional se compara a esses números. Nesse contexto, a criação de competições esportivas sob a égide do BRICS representa uma proposta de ir além dos valores e significados exclusivamente humanitários.
"Os países do BRICS estão aproveitando ativamente o potencial do esporte, buscando realizar projetos culturais, sociais e econômicos conjuntos. Além disso, em um contexto de turbulência política mundial, o esporte deixa de ser uma atividade puramente competitiva e se transforma em uma ferramenta de diplomacia", afirma Skorokhodov. O especialista também destaca que os formatos de competições esportivas ajudam a estabelecer contatos de parceria.
"Hoje, o esporte pode ser visto como um 'poder brando'. Isso se deve ao estabelecimento de boas relações entre atletas, treinadores e torcedores de diferentes países. O esporte aproxima as pessoas quando os princípios fundamentais da atividade esportiva são aplicados corretamente", complementa Vladimir Lednev.
No entanto, para que possamos ver e sentir plenamente o efeito multiplicador cultural, econômico e político das iniciativas esportivas do BRICS, os especialistas sugerem que será necessário ter paciência. Afinal, todos os projetos internacionais bem-sucedidos passaram por um longo processo de desenvolvimento que levou décadas.
Dificuldades e perspectivas do desenvolvimento das iniciativas esportivas do BRICS
De acordo com especialistas, à medida que as competições esportivas do BRICS se expandem, elas inevitavelmente enfrentarão dificuldades. Como aponta Serguei Skorokhodov, a logística é bastante complexa, pois a geografia dos países participantes é vasta, o que cria desafios nos voos. Além disso, ainda não existe uma lista única de esportes, e torná-la interessante para todos os países é difícil. Na Índia, o esporte número um é o críquete, na Rússia é o hóquei no gelo, na China o tênis é muito popular e no Brasil, o futebol.
No entanto, os especialistas consideram que o potencial das iniciativas esportivas do BRICS é elevado. A expansão do BRICS pode impulsionar ainda mais a área esportiva. Os países do Oriente Médio podem se tornar centros financeiros para a realização de torneios regulares, enquanto as nações africanas têm potencial para intensificar a programação de atletismo.
Atualmente, especialistas acreditam que é necessário um esforço coordenado entre os países participantes para criar um programa único para os jogos, definir uma lista de esportes e aumentar o fundo de prêmios. Se isso acontecer, nos próximos vinte anos, os Jogos do BRICS e outras iniciativas esportivas do grupo terão grande potencial para atingir um nível global e se destacar na hierarquia dos grandes eventos esportivos internacionais.
O artigo foi elaborado por Svetlana Khristoforova.
Fotografia: Natalia Kirsanova, ZamoraA, bingdian / iStock
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