Editora-chefe do portal "Akchabar", Maria Vlasova: "Discurso midiático global se pluralizou, e o espaço global de informação passou a ser mais acessível"
Em entrevista exclusiva à TV BRICS, Vlasova apoiou a ideia de um espaço informacional eurasiático unificado e apontou os principais acontecimentos dos últimos 20 anos que transformaram o jornalismo internacional
A rede internacional de mídia TV BRICS apresenta a "Reunião da mídia global", um projeto especial em comemoração ao 20º aniversário do BRICS. A iniciativa conta com comentários de importantes especialistas dos principais meios de comunicação dos países do BRICS+ e parceiros da rede de mídia sobre questões relacionadas à formação de uma agenda mundial conjunta, à construção de um sistema multipolar de comunicações globais de mídia, às tendências atuais e aos principais acontecimentos dos últimos 20 anos para o avanço do discurso da mídia, bem como previsões sobre a evolução do espaço midiático.
— Qual acontecimento dos últimos 20 anos a senhora consideraria o mais significativo para o desenvolvimento do discurso midiático e a formação de um sistema multipolar de comunicação global?
— Acredito que um dos mais importantes das últimas duas décadas tenha sido o rápido desenvolvimento da internet e das plataformas digitais. A internet tornou-se o principal ambiente de comunicação, acelerando a disseminação da informação e tornando os acontecimentos em diferentes partes do mundo acessíveis praticamente em tempo real.
O surgimento das redes sociais, dos meios de comunicação digital e do conteúdo produzido pelos próprios usuários enfraqueceu o domínio dos centros tradicionais de mídia e permitiu que diferentes países, comunidades e autores independentes construíssem suas próprias narrativas. Como resultado, o discurso midiático global tornou-se mais diversificado e descentralizado.
— Como a imagem do jornalismo internacional mudou ao longo desses 20 anos? Na sua opinião, quais foram as principais tendências e acontecimentos desse período que influenciaram a transformação e o desenvolvimento do discurso midiático no espaço global de informação?
— O jornalismo internacional mudou profundamente com a digitalização e a transformação do ambiente midiático global. Graças ao avanço da internet, das redes sociais e das plataformas digitais, ele se tornou muito mais ágil e multicanal. Os jornalistas passaram a ter acesso direto às fontes primárias de informação e aos relatos de testemunhas, por meio do conteúdo produzido pelos usuários e das comunidades de especialistas on-line.
Também mudou o papel profissional do jornalista internacional. Cada vez mais, ele atua não apenas como fonte de informação, mas também como mediador, analista e verificador de dados em um contexto de excesso de informações. A concorrência com blogueiros e mídias alternativas, assim como a influência dos algoritmos das plataformas digitais, transformou a própria profissão e a forma como a agenda internacional é construída.
Entre as principais tendências dos últimos anos destacam-se o crescimento do jornalismo cidadão, o fortalecimento do papel das redes sociais na cobertura de acontecimentos internacionais e o surgimento de conflitos informacionais e híbridos, nos quais a mídia passou a desempenhar um importante instrumento de influência. Como resultado, o discurso midiático internacional se pluralizou, e o espaço global de informação passou a ser mais acessível ao grande público.
— Qual é a sua previsão para o desenvolvimento das comunicações de mídia e a evolução do espaço da mídia nos próximos 20 anos? Como vão mudar as abordagens, as tecnologias e os significados?
— Nos próximos 20 anos, o desenvolvimento das comunicações midiáticas estará diretamente ligado à integração cada vez maior da inteligência artificial na produção e na distribuição de informações. Hoje, a IA já é amplamente utilizada nas redações jornalísticas e, no futuro, é possível que surjam redações parcial ou totalmente virtuais, nas quais grande parte dos processos rotineiros será automatizada. Esse processo pode ser comparado a uma nova "revolução industrial", que transformará não apenas as tecnologias, mas também a própria estrutura da profissão.
As abordagens do jornalismo e da produção de conteúdo mudarão. Cada vez mais, o jornalista assumirá o papel de operador de sistemas de IA, responsável por definir tarefas, verificar informações, interpretar dados e construir significados. Também ganharão importância as competências relacionadas à checagem de fatos, ao trabalho com algoritmos das plataformas digitais, à visualização de dados e à personalização de conteúdos para públicos específicos.
O próprio espaço midiático sofrerá profundas transformações. É provável que os sites tradicionais dos veículos de comunicação enfrentem uma crise semelhante à vivida pela imprensa escrita, enquanto o consumo de conteúdo ocorrerá predominantemente por meio das redes sociais.
Do ponto de vista dos significados, os meios de comunicação deixarão gradualmente de ser apenas fontes de notícias para se tornarem instrumentos de orientação em um cenário de saturação informacional. O principal valor deixará de ser a velocidade e passará a ser a confiança e a capacidade de oferecer contexto.
— A quais temas da agenda interna e externa do seu país, iniciativas nacionais da sociedade civil e eventos futuros a mídia estrangeira deveria dedicar atenção para demonstrar plenamente o papel e a contribuição do seu país para o desenvolvimento das relações multilaterais e o fortalecimento da compreensão entre os povos?
— Para demonstrar plenamente o papel e a contribuição do Quirguistão para o desenvolvimento das relações multilaterais e o fortalecimento da compreensão entre os povos, é importante que a mídia estrangeira dê atenção a diversos aspectos fundamentais da agenda interna e externa do país.
No âmbito interno, merece destaque a imagem do Quirguistão como um dos Estados mais progressistas da região. Isso se reflete no desenvolvimento da legislação e das instituições econômicas. O país foi um dos primeiros da Ásia Central a regulamentar o mercado de criptomoedas, lançou uma stablecoin lastreada em ouro e utiliza ativamente seu potencial hidrelétrico, consolidando-se como um ator importante no setor de energia limpa. Também merecem destaque a estabilidade da moeda nacional e as elevadas taxas de crescimento econômico, que fizeram com que a república passasse a figurar entre as economias de crescimento mais acelerado dos últimos anos e ocupasse posições de liderança em diversos indicadores da União Econômica Eurasiática (UEE).
No plano externo, é importante que a mídia internacional analise o papel do Quirguistão nos processos de integração regional. Em meio às intensas transformações da política externa e da economia internacional nos últimos anos, o país fortaleceu significativamente sua posição na região, defendendo de forma consistente seus próprios interesses e participando ativamente da construção de uma agenda comum no espaço eurasiático e internacional. A cobertura desses processos permitirá apresentar o Quirguistão não como um ator periférico, mas como um sujeito relevante das relações internacionais.
As iniciativas da sociedade civil e os projetos nacionais também merecem atenção, especialmente o desenvolvimento do empreendedorismo, dos projetos digitais e das iniciativas ambientais. Esses temas ajudam o público internacional a compreender melhor a dinâmica social do país e a superar estereótipos.
Entre os eventos que contribuem para fortalecer a compreensão entre os povos, um destaque especial vai para os Jogos Mundiais Nômades. A cobertura desse tipo de iniciativa permite mostrar a identidade cultural do Quirguistão, apresentar as tradições dos povos nômades e evidenciar sua contribuição para o diálogo intercultural.
De modo geral, a cobertura desses temas pela mídia estrangeira contribui para formar uma imagem mais abrangente, atual e equilibrada do Quirguistão.
— Que estereótipos sobre o seu país ainda predominam hoje na percepção pública de outros países e o que jornalistas estrangeiros podem fazer para desconstruí-los e contribuir para uma imagem mais atual do Quiguistão?
— Atualmente, existem diversos estereótipos persistentes sobre o Quirguistão na percepção pública internacional. Em grande parte, estão relacionados à história do país após a independência. O período de intensa mobilização política, marcado pelas revoluções de 2005, 2010 e 2020, consolidou a imagem do Quirguistão como um Estado instável e pouco seguro para o turismo e os investimentos.
Outro estereótipo comum está relacionado à situação das mulheres no país. Por causa de práticas como o sequestro de noivas (ala kachuu) e dos casos trágicos associados a elas, o Quirguistão é frequentemente visto como uma sociedade rigidamente patriarcal. Mas essa percepção não retrata toda a realidade social do país e acaba ignorando as transformações e a mobilização da sociedade civil que vêm ocorrendo nos últimos anos.
Entre turistas e empresários estrangeiros também é frequente a percepção de que o Quirguistão é um país extremamente pobre, com serviços muito baratos e baixo nível de desenvolvimento. Embora a economia da república tenha enfrentado dificuldades durante muitos anos, inclusive devido ao peso da economia informal, essa visão simplifica a realidade e desconsidera a renda efetiva da população, o desenvolvimento de diversos setores econômicos e o crescimento da atividade empresarial.
Os jornalistas estrangeiros podem desempenhar um papel fundamental na desconstrução desses estereótipos e na formação de uma imagem mais atual do país. Para isso, é importante ir além de reportagens superficiais e de clichês consolidados, recorrendo a dados oficiais, estabelecendo parcerias com meios de comunicação e especialistas locais e incorporando aos seus trabalhos as opiniões dos próprios cidadãos locais.
Além disso, a divulgação de temas positivos e ainda pouco conhecidos — como o fortalecimento da sociedade civil, o desenvolvimento das indústrias culturais e criativas, do turismo regional, do empreendedorismo e das iniciativas digitais — pode contribuir significativamente para projetar uma imagem mais contemporânea do Quirguistão.
— Como a senhora vê a ideia da criação de um espaço informacional eurasiático unificado? Em que formatos pode e deve evoluir a cooperação entre os meios de comunicação de diferentes países? A senhora possui experiência de cooperação internacional com jornalistas e veículos estrangeiros? Essa experiência é útil e importante?
— Vejo de forma positiva a ideia de criar um espaço informacional eurasiático unificado, porque, em um contexto de integração econômica e política entre os países da região, isso representa uma continuação natural dos processos que já vêm ocorrendo no âmbito da UEE. Como o Quirguistão integra a UEE desde 2015, as decisões e os acontecimentos no âmbito da União têm impacto direto sobre a realidade do país. Nesse contexto, a formação de um espaço comum de informação é importante não apenas para a troca de notícias, mas também para a produção de análises, previsões e para promover um debate público mais consciente.
A cooperação entre os meios de comunicação de diferentes países pode e deve ocorrer em diversos formatos, dependendo dos objetivos e do público. Isso pode incluir projetos multimídia conjuntos, produção colaborativa de conteúdo em vídeo, investigações jornalísticas transfronteiriças, debates entre especialistas e análises com a participação de profissionais de diferentes países da região, além de boletins digitais e plataformas compartilhadas com informações sobre os processos da UEE. Esses formatos ajudam a aproximar as agendas informativas, reduzir a desinformação e fortalecer a confiança entre os públicos de diferentes países, sempre preservando a independência editorial e as especificidades nacionais.
Tenho experiência em cooperação internacional com jornalistas e meios de comunicação de outros países, embora de forma esporádica. Ainda assim, mesmo esse tipo de colaboração foi extremamente útil para compreender melhor o contexto em que trabalham colegas de outras nações e para elevar a qualidade das reportagens, graças a uma apresentação das informações mais precisa e equilibrada.
— Como a senhora entende a expressão "jornalismo verdadeiro"?
— Para mim, o jornalismo verdadeiro é, antes de tudo, uma atividade profissional responsável, voltada para informar a sociedade sobre os acontecimentos da cidade, do país e do mundo. O jornalista não é apenas alguém que transmite informações; ele é um profissional capaz de identificar fatos relevantes, separá-los do ruído informacional e apresentá-los ao público por meio da linguagem, dos recursos visuais e das novas tecnologias de comunicação.
Na minha opinião, o jornalismo verdadeiro é impossível sem pensamento crítico e elevados padrões éticos. O jornalista é responsável não apenas pela veracidade das informações que publica, mas também pelas consequências sociais de seu trabalho. Ele não aceita declarações sem verificação, sabe distinguir conhecimento especializado de populismo, não busca atenção momentânea por meio de sensacionalismo ou escândalos e compreende o valor de cada reportagem na construção da agenda pública.
Considero que uma das principais missões do jornalismo verdadeiro é servir ao interesse público. Seu papel não é impor interpretações ou julgamentos prontos, mas ajudar as pessoas a analisar os acontecimentos por conta própria, formular suas próprias conclusões e participar de um diálogo público consciente. Nesse sentido, o jornalismo desempenha não apenas uma função informativa, mas também educativa e social.
Para mim, o principal indicador de um jornalismo de qualidade é a existência de um público ativo e crítico, capaz de continuar debatendo os temas apresentados, fazer perguntas e promover discussões construtivas. É justamente esse diálogo entre jornalista e leitor que, na minha visão, define a essência do jornalismo verdadeiro.
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