A sincronista falou sobre o que os prêmios recebidos em Kazan significam para ela
Svetlana Kolesnichenko nasceu em 1993 em Gatchina, na região de Leningrado. Aos seis anos de idade, começou a praticar natação sincronizada e, a partir dos 13 anos, treinou em Moscou sob a orientação de Olga Vasilchenko.
Em 2010, ela entrou para a equipe nacional russa de natação sincronizada e, na Universíade de Verão de 2013, em Kazan, ganhou medalhas de ouro em competições de pares (com Svetlana Romashina) e de grupo.
Em 2016, ela se tornou campeã olímpica em eventos coletivos pela primeira vez. Nos Jogos Olímpicos de 2021, ela ganhou duas medalhas de ouro - em dueto e em grupo.
A nadadora sincronizada é 16 vezes vencedora do Campeonato Mundial e 11 vezes campeã europeia. Nos Jogos do BRICS de 2024, em Kazan, ela trouxe três medalhas de ouro para a equipe russa.
Em uma entrevista exclusiva à rede TV BRICS, a atleta falou sobre suas impressões dos jogos, bem como sua atitude em relação ao trabalho e à vida.
Svetlana, nos Jogos do BRICS 2024 você conquistou o primeiro ouro para o time da Rússia. Como você se sentiu naquele momento?
Foi inesperado e é algo que lembrarei pelo resto da minha vida. Normalmente, na programação de eventos esportivos de grande escala, como os Jogos Olímpicos, por exemplo, a competição de nado sincronizado fica no final. Dessa vez, eu não sabia que seríamos as primeiras e, se soubesse, teria ficado ainda mais preocupada. É claro que é muito honroso ganhar a primeira medalha de ouro dos Jogos para o seu país.
Você fica nervosa antes de cada competição?
Provavelmente não tanto quanto no início da minha carreira. Quando ainda somos jovens e acabamos de entrar para a seleção nacional, temos medo de decepcionar a equipe e os técnicos. Não estamos competindo por nós mesmos, estamos representando o país. A calma vem com a experiência. Porém, nos Jogos do BRICS eu senti uma forte onda de adrenalina, meu coração estava agitado. E não tem como não ficar feliz, é muito legal.
Você gosta dessa sensação?
Sim, mas é uma sensação ambígua: por um lado, é assustador, dá medo e, por outro, você está pronta para mostrar o seu melhor e contagiar sua parceira com essa energia.
Você trouxe três medalhas de ouro de Kazan, o que elas significam para você?
Obviamente, elas ocupam um lugar importante na minha prateleira, são condecorações muito significativas. Foi a primeira vez que participei dos Jogos do BRICS, espero que eles continuem crescendo. Isso é muito importante. Também espero que eles sejam realizados em nosso país com a maior frequência possível, porque a organização desta vez foi de alto nível.
Você voltou a Moscou com uma sensação de realização?
Sim, com certeza, fizemos tudo o que planejamos. Não gosto de reassistir às competições, ainda não vi minha atuação, não estou pronta. O mais importante para nós é o resultado, o elogio do técnico. Desta vez, ele ficou satisfeito, mas ainda temos que trabalhar em nossos erros, afinal, não há limite para a perfeição.
Mas quando você revê os vídeos de suas apresentações, mesmo que seja depois de alguns anos, você descobre coisas novas?
Nós mudamos o programa a cada dois anos. Então, se eu assistir um programa de cinco anos atrás, ele não será particularmente informativo. É claro que reassistiremos a última apresentação um pouco mais tarde para trabalhar nos erros. Vou descobrir o que poderia ter sido feito de forma diferente. Isso não é visível para o espectador. Sou o mais autocrítica possível, por isso repito: não gosto de rever as gravações de minhas apresentações.
Você não assiste às suas apresentações em competições, mas e quanto às entrevistas?
Também é difícil para mim. Posso assistir uma vez e, se ficar satisfeita, posso mostrar para a minha família e os meus amigos.
O que representa, para você, a história que você tenta transmitir na apresentação "Luz e Treva". Que pensamentos você acha que o público pode ter ao assistir à apresentação?
Essa ideia não nasceu imediatamente. A música foi escrita para nós pelo Mikhail Ekimian, que trabalha com a Tatiana Evguenevna Dantchenko há muitos anos. Primeiro, a Tatiana explicou qual era o formato de música que ela desejava. Depois de ouvi-la, ele a chamou de "Emotions". Planejávamos mostrar diferentes tipos de emoções, mas depois percebemos que a temática coincidia com as apresentações de outros países. Então, decidimos fazer uma apresentação chamada "Luz e Treva", mostrando diferentes lados da natureza humana.
Quando você começou a trabalhar nessa apresentação, queria fazer o papel de "treva". Por quê?
Durante toda a minha vida, tanto em solos quanto em duetos, fiz personagens muito delicados. Queria me desafiar em um papel diferente. Mas o treinador disse: "Qual é o seu nome, Sveta*? Então, você será a luz". Inicialmente, queríamos fazer um maiô preto e um branco. Mas, no final, as roupas para a apresentação foram iguais.
*Em russo, a palavra "svet" significa "luz".
Mas você entende por que queria ser a "treva"? Era um desejo experimental?
Sim, é isso mesmo. Internacionalmente, nossa disciplina é chamada de "natação artística". E como se fôssemos atrizes, temos que transmitir diferentes espectros de emoções. Eu queria experimentar não só no lado positivo.
E como foi o clima nos Jogos do BRICS? Atletas de diferentes países participaram deles, como vocês interagiram?
Estive na Universíadas de Kazan em 2014. E, desta vez, senti novamente aquele clima. Os Jogos do BRICS mais uma vez me fizeram mergulhar nas festividades: quando encontramos atletas de diferentes países que vieram com seus trajes nacionais ou com seus uniformes, isso nos alegra. Todos sorriem, estão dispostos a ajudar uns aos outros, participam das atividades interativas. É uma atmosfera única. É muito legal que provamos mais uma vez que podemos organizar competições de qualquer tamanho no mais alto nível.
Algum atleta com quem você já competiu já passou a fazer parte do seu círculo social?
Sim, eu converso muito, me correspondo com colegas de diferentes países, parabenizamos uns aos outros nas datas importantes. Quanto aos compatriotas, mesmo de outros esportes, nós nos vemos com frequência nas bases de treinamento, nos encontramos nas competições. Naturalmente, passamos muito tempo no processo de treinamento. Às vezes, nos preocupamos uns com os outros. Se tivermos a chance de descansar um pouco, por exemplo, em um hotel, assistimos às transmissões das competições. Sempre fico feliz em socializar.
E quanto aos outros esportes, por quais deles você se interessa? Quais competições você assistiu nos Jogos?
Naturalmente, sempre gostei de acompanhar esportes aquáticos porque somos como uma grande família. Adoro ginástica artística, ginástica rítmica. Gosto de assistir aos esportes de verão, quando consigo.
E dos esportes de inverno, você gosta?
Sim, eu assistia ao biatlo e à patinação artística durante minha infância.
Por que você não se dedicou ao biatlo ou à patinação artística?
Em nossa pequena cidade não havia essa possibilidade. Além disso, meu pai era nadador. Me colocaram na piscina, inicialmente, para perder peso. E o destino acabou me levando para o esporte profissional.
Voltando aos Jogos do BRICS. Na sua opinião, que importância essas competições têm para o desenvolvimento das regiões onde esses eventos internacionais são realizados?
Isso ajuda a popularizar o esporte entre a população local, para que as pessoas pratiquem esporte porque realmente o amam. Espero que cada vez mais cidades russas recebam competições como os Jogos do BRICS.
Na sua opinião, qual é a importância de um atleta estar aberto para os jovens, por exemplo, no contexto do desenvolvimento e da popularização do esporte?
Sou totalmente a favor do diálogo e da interação com os jovens atletas. Nunca tive a oportunidade de interagir com nenhum campeão olímpico quando era criança e isso é uma pena. Costumo ir à minha cidade natal e conversar com as crianças para que elas entendam que, se você estabelecer uma meta e amar seu esporte, pode ir longe.
O que é importante falar nesses encontros com a geração mais jovem?
Sempre disse que, sem amor pelo esporte, é difícil obter resultados. Não gosto quando os pais forçam seus filhos a fazer aulas. Quando uma criança é pequena, o técnico precisa incutir nela o amor pelo esporte. Espero que me ouçam.
Por exemplo, eu larguei a dança de salão porque não gostava dela. Me colocaram no nado sincronizado e eu ia feliz para os treinos. Agora, é claro, pode ser difícil, nem sempre gosto de ir aos treinos. Mas esse já é meu trabalho e posso dizer com orgulho que estou fazendo o que amo.
E você fala para os jovens atletas como superar a preguiça de ir treinar?
Se você tem uma meta, tem de ir atrás dela todos os dias. O que estou tentando dizer é que se você não for hoje, amanhã terá retrocedido. É preciso entender que, para atingir uma meta, é necessário trabalhar duro todos os dias. A recompensa será a emoção das vitórias e da participação em competições, o orgulho de si mesmo por ter percorrido esse caminho.
As competições internacionais são um desafio para o nervosismo de uma pessoa. Você se lembra da sua primeira competição e como se sentiu? Como você lida com o estresse?
No treinamento, somos ensinados a estar prontos para tudo. Às vezes, a música pode parar durante a apresentação e temos de fazer tudo até o fim. Às vezes, eles nos fazem esperar muito tempo pela apresentação para que possamos aguentar a tensão e estar prontas para começar a qualquer momento. Assim, quando você vai competir, sabe como se comportar em situações extremas. Costumamos dizer: "Meninas, vamos até o fim, não importa o que aconteça".
Em uma de suas entrevistas, você disse que, quando formou dupla com Svetlana Romashina, teve muito medo de decepcioná-la. Mas você não compartilhou suas preocupações com ela e apenas fez seu trabalho. Você sente que tem essa habilidade de se preocupar com as outras pessoas?
Talvez eu não seja atenciosa comigo mesma às vezes, mas nunca deixo de dar meu melhor para os outros. Não em termos de presentes, mas em termos de alguma ajuda. Eu me preocupo mais com os outros do que comigo mesma.
Você acha que inspira as pessoas? Acredito que você é um exemplo para muitas pessoas, não só no esporte, mas também na vida, um exemplo de uma pessoa que sabe estabelecer metas e alcançá-las.
Eu realmente espero que sim. Na piscina onde treinamos, não somos as únicas, também há crianças nadando. E você tem que mostrar através do seu exemplo como se deve trabalhar. E eu me esforço muito para garantir que as crianças vejam que sou honesta em meu ofício.
Há um grande número de grandes atletas em nosso país, quais deles mais a inspiram, mais a admiram?
Falarei das representantes do meu esporte. Certamente, a nossa nadadora sincronizada mais famosa, a Svetlana Romashina. Além disso, a Natalia Ishchenko. Essas duas pessoas me inspiram desde que eu era uma garotinha. Assisti a muitas competições com elas. E é uma grande alegria para mim ter tido a sorte de trabalhar com elas.
O que exatamente inspira você? O que você admira? O que você gosta nelas?
Me inspiro no trabalho delas, na maneira como tratam seu ofício, na responsabilidade com que o exercem. Elas me ensinaram o trabalho árduo, a determinação. Elas me ensinaram a honestidade. Sou grata a elas. Elas são esportistas que dedicaram totalmente suas vidas ao seu amado ofício e ao seu país. Além disso, no dia a dia, elas estão sempre dispostas a ajudar, são pessoas maravilhosas.
Se você fosse uma diretora, que tipo de filme faria, sobre o que seria a história?
Estamos vencendo há cerca de 25 anos. E há uma pessoa por trás de tudo isso, a Tatiana Nikolaevna Pokrovskaia. É por isso que eu gostaria de fazer um filme sobre o nado sincronizado e a trajetória dela.
Qual é o seu sonho hoje em dia?
É difícil dizer. Não tenho nenhuma meta grandiosa no momento. Costumo estabelecer metas para um determinado período de tempo, não maior do que um ano. Espero poder descansar um pouco. Eu me considero uma pessoa feliz, sou feliz com o destino que tive. Essa é uma boa pergunta, vou pensar sobre isso.
Fotografia: Capturas de tela da entrevista da TV BRICS