Em entrevista exclusiva à TV BRICS, a diplomata explica como a entrada da Indonésia no BRICS influenciou as relações econômicas e comerciais do país
A diplomata Fitria Wibowo Tavares atua desde 2003. É mestre em Direito pela Universidade Victoria de Wellington. Seu trabalho é focado principalmente no comércio internacional. Entre seus interesses estão literatura, culturas estrangeiras, música, moda e arte.
Ela também atua como colecionadora e curadora de exposições de têxteis indonésios. Em especial, organizou exposições de batik indonésio na Rússia em parceria com diversas instituições e museus russos. É esposa do embaixador da Indonésia na Rússia.
– Você é uma diplomata com experiência em comércio internacional. Como a adesão da Indonésia ao BRICS influenciou as relações econômicas e comerciais do país? E qual impacto você espera que o acordo de livre comércio assinado com a União Econômica Eurasiática, em dezembro de 2025, tenha no volume de comércio da República?
– Em primeiro lugar, eu diria que se trata de um processo em andamento, e ainda estamos no início de nossa participação no BRICS. A própria razão para nossa adesão é que vemos um imenso potencial. Como participante da Conferência de Bandung, era natural que em algum momento nos tornássemos membros do BRICS, algo que já estava na nossa agenda há bastante tempo.
Em termos de relações econômicas e comerciais, há um potencial significativo em todos os pilares, não apenas no comércio e na economia, embora essas áreas sejam especialmente importantes para a Indonésia e tenham sido uma das principais razões para a adesão. Não se trata apenas das oportunidades que identificamos, mas também de como podemos contribuir para o desenvolvimento e a estruturação do próprio grupo.
Há ideias e contribuições que podemos oferecer à arquitetura do BRICS que beneficiariam não apenas a Indonésia, mas todo o grupo. No que diz respeito ao fortalecimento da nossa posição e ampliação da nossa voz, a adesão ao BRICS certamente destacou nosso papel. Em vez de atuarmos isoladamente, agora fazemos parte de um grupo amplamente reconhecido por sua influência.
O mecanismo de coordenação dentro do BRICS tem se mostrado valioso. Em organizações internacionais e fóruns multilaterais, a força está nos números.
Ao ingressar no BRICS, isso se tornou um dos principais benefícios da nossa participação. Quanto à União Econômica Eurasiática, o acordo comercial recentemente assinado ainda está na fase de elaboração e implementação dos mecanismos.
Mesmo antes da assinatura do acordo, já mantínhamos relações estabelecidas com os países membros da união. No entanto, o acordo ampliou significativamente nosso acesso a mercados, não apenas em setores-chave como óleo de palma, borracha, têxteis e calçados, mas também na diversificação de produtos e mercados. A diversificação é um tema discutido há muito tempo, e este acordo representa um passo concreto nessa direção.
– Quais parcerias e acordos importantes, na sua opinião, podem se tornar uma prioridade estratégica para Jacarta? Podemos considerar setores como digitalização, energia renovável e verde ou cadeias de suprimento de níquel. Quais deles podem elevar a cooperação a um novo patamar?
– Eu diria que a digitalização certamente é uma das prioridades. Esse é um tema que estamos discutindo continuamente com diversos países, com base em conhecimentos técnicos e experiências para aproveitar melhor as oportunidades da era digital. Também há amplas discussões sobre a inteligência artificial: como utilizá-la de forma sustentável, com as devidas salvaguardas, e como ela pode apoiar o desenvolvimento de nossas indústrias e do comércio.
Portanto, sim, digitalização e energia verde estão entre nossas prioridades, juntamente com a continuidade do desenvolvimento industrial e, ao mesmo tempo, a ampliação do acesso a mercados.
– A Indonésia está desenvolvendo ativamente tecnologias verdes, incluindo fazendas solares, parques eólicos e zonas industriais ambientalmente sustentáveis. A sustentabilidade pode se tornar uma vantagem competitiva para as economias asiáticas no mercado global?
Acredito que esse é o caminho a seguir. Estamos continuamente discutindo as mudanças climáticas e formas de enfrentá-las, e as tecnologias verdes oferecem soluções práticas.
Em termos de competitividade, elas permitem uma produção mais eficiente e maior acesso a mercados com padrões ambientais mais rigorosos. À medida que mais países adotam essas regulamentações, a adaptação se torna essencial.
As tecnologias verdes também impulsionam a inovação, beneficiando todo o setor industrial. É importante continuar tornando a produção mais sustentável, eficiente e ambientalmente responsável, especialmente diante das limitações de recursos. Há uma demanda crescente por isso no mercado, além de um impacto positivo no valor das marcas.
– Você é diplomata há mais de 20 anos e acompanhou como as relações bilaterais entre estados passaram a ser complementadas por trabalhos em grupos e associações como BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai e a União Econômica Eurasiática. Ao mesmo tempo, a era da digitalização chegou. Como o trabalho de um diplomata mudou nesse contexto de multilateralismo e digitalização, e como isso afetou a importância das interações pessoais presenciais?
– De muitas maneiras, isso facilitou nosso trabalho, especialmente diante da crescente necessidade de diálogos e negociações. As ferramentas digitais permitem reuniões a qualquer momento e em qualquer lugar, além de melhorar a divulgação pública e a comunicação. As redes sociais tornam a disseminação de informações mais eficiente, são um instrumento útil de promoção, de baixo custo, e permitem alcançar um público amplo de forma mais direta. Nesse sentido, isso tornou nosso trabalho mais eficiente e, em alguns aspectos, mais eficaz.
No entanto, a interação pessoal continua sendo essencial, especialmente para a construção de confiança e segurança. Não há substituto real para o contato presencial. Discussões e negociações significativas muitas vezes ainda precisam ocorrer pessoalmente, já que certos aspectos não podem ser totalmente reproduzidos em formato virtual. No fim, ambos os formatos são importantes, mas para diplomatas o contato direto continua sendo especialmente valioso, mesmo que nem sempre seja possível.
– Você é uma pessoa ligada às artes. Coleciona e organiza exposições de têxteis indonésios, especialmente batik, que é reconhecido pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial. Na sua opinião, como é possível preservar ao mesmo tempo a autenticidade dos artesanatos tradicionais e torná-los relevantes no mundo atual?
– Acredito que isso é totalmente possível. O batik já demonstrou isso, e foi exatamente o que fizemos. Tradicionalmente, o batik é uma forma de arte sagrada, com forte carga simbólica. Ele era usado principalmente em contextos cerimoniais, como eventos tradicionais ou oficiais.
No entanto, isso mudou após o seu reconhecimento como patrimônio cultural imaterial. Depois dessa designação, houve um aumento expressivo da demanda, pois toda a nação passou a sentir um forte orgulho.
Essa demanda levou ao aumento da produção e da acessibilidade. Isso não ocorreu apenas internamente, o interesse também cresceu globalmente. Como resultado, foi necessário encontrar formas inovadoras e criativas de tornar o batik relevante no cotidiano. Foi exatamente isso que fizemos. Ele deixou de ser apenas uma forma de arte em tecidos e passou a integrar roupas e objetos do dia a dia. Hoje, seus padrões e motivos são aplicados em uma ampla variedade de itens. Isso é plenamente possível. Ele precisava permanecer relevante no mundo atual, e foi exatamente isso que aconteceu.
– Como o público nas regiões da Rússia onde as exposições foram realizadas percebeu a arte indonésia? Pelo que sei, você visitou Vologda, a região de Tver, a República da Chuváxia e a República do Daguestão. O que pode nos contar sobre isso?
– Tivemos a grande honra de apresentar nossa arte na Rússia. O país é conhecido por sua rica tradição artística e sua cultura expressiva, então a oportunidade de mostrar nosso patrimônio aqui foi realmente única. A recepção foi excepcionalmente calorosa, não poderíamos ter esperado uma acolhida melhor do público russo. Existe uma profunda apreciação pela arte na Rússia, o que torna o público aberto, receptivo e curioso em relação a novas formas artísticas. Percebi um interesse genuíno em conhecer mais sobre nossa cultura. Foi um verdadeiro privilégio, e somos muito gratos pela oportunidade de compartilhar o que temos da nossa parte do mundo em um país tão rico culturalmente.
– Voltando ao batik, você também organizou uma exposição intitulada "Dois países. Fidelidade à tradição", na qual o batik indonésio foi apresentado ao lado do bordado em ouro da cidade russa de Torjok. Na sua opinião, o que une essas formas de arte, apesar da distância geográfica e cultural?
– Sim, também achei isso particularmente interessante quando fomos convidados a expor em Torjok. À primeira vista, essas formas de arte podem parecer muito diferentes. No entanto, elas compartilham uma base comum: o uso dos têxteis como meio de expressão artística. Ambas as tradições transmitem ideias artísticas por meio do tecido, preservando técnicas tradicionais ao longo do tempo. Esse, acredito, é o elemento que as conecta.
– Entre suas áreas de interesse está a moda. Há alguns anos, você participou da apresentação ao público russo de uma coleção de um estilista indonésio baseada no conceito de "zero desperdício". A moda pode se tornar hoje uma ferramenta de desenvolvimento sustentável no Sudeste Asiático?
– Sim, certamente, e cada vez mais. A moda pode contribuir para o desenvolvimento sustentável por meio do uso de materiais mais sustentáveis. Ela também incentiva a transição para longe da "moda rápida", que consome grandes quantidades de recursos e energia e, muitas vezes, tem baixa durabilidade. O conceito de "moda lenta" vem se tornando mais atraente.
Há também uma ênfase crescente em materiais ambientalmente responsáveis e não tóxicos, como fibras naturais, além de práticas de trabalho mais éticas e justas. Nesse sentido, a moda pode, de fato, funcionar como uma ferramenta de desenvolvimento sustentável.
Ficamos muito satisfeitos com a forma como a coleção foi recebida em Moscou. Também discutimos novas possibilidades de cooperação com algumas escolas da cidade, o que é bastante encorajador.
– Vamos voltar ao intercâmbio cultural. A Indonésia realiza os Dias da Cultura Espiritual Russa, enquanto Moscou promove os Dias da Cultura Indonésia. De que forma esses eventos ajudam a compreender melhor uns aos outros e a fortalecer as relações?
– Acredito que "decodificar" códigos culturais é essencial, pois ajuda a revelar o que as pessoas têm em comum. Isso, por sua vez, fortalece as relações. Trata-se de interpretar cultura, valores e perspectivas compartilhadas, o que leva a uma compreensão mútua mais profunda.
Esses eventos desempenham um papel importante na aproximação entre as pessoas. A Indonésia e a Rússia, na verdade, compartilham muitas semelhanças: ambas são sociedades diversas e multiétnicas. Reconhecer isso cria oportunidades para aprender uns com os outros.
Por exemplo, ao observar o batik, é importante não apenas vê-lo como uma forma de arte, mas também compreender o significado por trás de seus símbolos. Curiosamente, alguns desses símbolos possuem paralelos na cultura russa. Esse processo de interpretação cultural contribui para aproximar as pessoas.
Assista à versão completa da entrevista aqui.