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Nova geografia do desenvolvimento: líderes do BRICS discutem futuro da economia mundial

No Fórum Empresarial, chefes de Estado e representantes do setor empresarial discutiram expansão do comércio, investimentos, novas cadeias produtivas e cooperação tecnológica

Líderes dos países do BRICS e representantes de ministérios participaram do Fórum Empresarial da associação, realizado na véspera da cúpula em Nova Délhi. Durante o encontro, discutiram o papel dos países-membros na formação de um novo modelo de desenvolvimento global e ressaltaram a necessidade de fortalecer as relações comerciais, ampliar a cooperação industrial, atrair investimentos e expandir o uso de tecnologias digitais.

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, chamou atenção para as profundas transformações no sistema mundial decorrentes do crescimento dos países do Sul Global. Segundo ele, desde 1960, a participação das economias de baixa e média renda no PIB mundial passou de 20% para mais de 50%.

Vieira também ressaltou a importância de estreitar os vínculos entre os setores produtivos dos países do BRICS e destacou a opção do Brasil pela abertura econômica e pela diversificação de parcerias.

"No âmbito do BRICS, nosso comércio com os países-membros da associação representa mais de um terço do volume total do comércio exterior do Brasil. Em 2024, o Brasil realizou sua maior reforma tributária, destinada a simplificar o sistema e alinhá-lo às práticas internacionais modernas. Em 2025, o Brasil se tornou o terceiro maior país do mundo em volume de investimentos estrangeiros diretos atraídos, recebendo mais de US$ 77 bilhões (cerca de R$ 369 bilhões)", afirmou.

O ministro também ressaltou a participação de dirigentes de mais de 15 grandes empresas brasileiras no fórum. Em sua avaliação, as economias do BRICS têm vantagens complementares e estão em posição privilegiada para liderar a construção de um novo modelo de desenvolvimento baseado na agricultura sustentável, na produção avançada, na energia renovável, na bioeconomia e na inteligência artificial.

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que a verdadeira força do BRICS se manifesta quando as capacidades dos países-membros se traduzem em uma rede de relações comerciais, investimentos e financiamento conjunto.

"Para ampliar o comércio dentro do BRICS, é necessário passar de uma interação fragmentada para uma integração gradual da infraestrutura comercial. A digitalização e a integração dos procedimentos aduaneiros, a redução das barreiras regulatórias, o desenvolvimento de mercados transfronteiriços e os investimentos conjuntos do setor privado têm especial importância. Também propomos fortalecer a cooperação na área de padronização, para que o BRICS se transforme de um mercado de troca de matérias-primas em uma rede de cadeias produtivas e de produção industrial conjunta", declarou.

Pezeshkian defendeu ainda a ampliação do uso das moedas nacionais no comércio entre os países-membros e a criação de mecanismos para administrar os riscos cambiais. Segundo ele, o Novo Banco de Desenvolvimento deve se tornar o principal instrumento para financiar projetos de infraestrutura e energia, por meio de linhas de crédito específicas e instrumentos de garantia destinados a atrair capital privado.

Outra proposta apresentada pelo Irã é a criação de uma empresa conjunta de resseguros do BRICS, com capital inicial de US$ 10 bilhões (mais de R$ 51 bilhões), para oferecer cobertura aos riscos de grandes projetos de infraestrutura e energia.

"O BRICS se tornará uma força real na economia mundial quando nossa cooperação se refletir em contratos concretos, fábricas, portos e na vida econômica cotidiana dos povos dos países-membros", concluiu Pezeshkian, reafirmando a disposição do Irã de trabalhar com todos os integrantes da associação pela construção de uma economia mais aberta, sustentável e justa.

O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, destacou que, por muito tempo, as economias em desenvolvimento participaram das cadeias globais principalmente como fornecedoras de matérias-primas, enquanto a criação de valor agregado permanecia em outras regiões. Segundo ele, esse modelo não deve ser reproduzido no BRICS ampliado.

"É necessário aprofundar os vínculos produtivos entre nossas economias. [...] É necessário direcionar investimentos para o desenvolvimento da produção, o processamento de matérias-primas e a criação de valor agregado para os produtos extraídos em nossos países", afirmou o presidente sul-africano.

Ramaphosa defendeu o desenvolvimento de tecnologias industriais, sistemas de energia, infraestrutura e logística. Ele também incentivou as empresas a investir não apenas para obter acesso aos mercados, mas também para criar capacidades produtivas e competências locais.

Segundo o presidente da Rússia, Vladimir Putin, uma sólida parceria econômica e relações empresariais confiáveis formam a base das relações internacionais e permitem superar situações de crise. Ele citou dados que mostram que, nos últimos cinco anos, os países do BRICS foram responsáveis por mais de 40% do PIB mundial. No mesmo período, quase metade do crescimento da economia global foi gerada pelos países da associação.

"Nossa tarefa comum é realizar o potencial do BRICS em benefício de nossos países e de nossos povos. Fortalecer os mecanismos de cooperação empresarial prática, a chamada diplomacia empresarial, para que empresas e empreendedores possam encontrar parceiros com mais facilidade, realizar pagamentos, transportar mercadorias e investir em nossos países. [...] Não estamos construindo nosso trabalho contra ninguém. Trabalhamos por nós, por nossos interesses, mas estamos dispostos a cooperar com todos os nossos parceiros", resumiu o chefe de Estado russo.

Ele acrescentou que, para intensificar os trabalhos, foi criado o Comitê Nacional sobre Cooperação Empresarial do BRICS, além de ter sido proposta uma nova plataforma de investimentos para atrair recursos privados para infraestrutura e tecnologias.

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, afirmou que o país busca reduzir as restrições comerciais e criar novas oportunidades para os negócios. Segundo ele, durante a presidência indiana do BRICS, foram criados novos mecanismos de cooperação em áreas como agricultura, saúde, desenvolvimento de competências e redes inteligentes de energia.

"Desde 2014, concluímos acordos de livre comércio com quase 40 países. Nossa abordagem continua concentrada na redução das barreiras e na ampliação das oportunidades para os negócios. [...] Para conectar startups, pequenas e médias empresas aos mercados e ao financiamento, lançamos iniciativas como a Rede de Incubadoras do BRICS, o Portal de PMEs do BRICS e o Fundo de Inovação de Startups do BRICS. Vocês podem utilizar esses mecanismos de cooperação para ampliar o intercâmbio de investimentos e talentos entre nossos países", declarou Modi.

O primeiro-ministro também deu atenção especial à infraestrutura digital da Índia. Segundo ele, o sistema de pagamentos rápidos UPI ampliou significativamente as possibilidades de inclusão financeira e de realização de transações digitais.